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Sociedade

Crônica

Abbey Road

por Alberto Villas publicado 06/03/2014 10h26, última modificação 07/03/2014 18h09
Alguma coisa sempre acontece na rua mais famosa do mundo. E, com a câmera que fica ligada 24 horas no famoso cruzamento, dá para ver tudo. Por Alberto Villas
Reprodução www.onabbeyroad.com
abbey road.jpg

Turistas reproduzem a travessia mais famosa do mundo Às 13h17 desta quinta-feira (10h17 no horaário de Brasília).

Confesso que estou viciado em Abbey Road. Não, não é pelo disco dos Beatles, é pela rua. Desde o dia que soube que tinha uma câmera 24 horas mostrando, ao vivo, para o mundo inteiro, o que se passa naquela rua, com o foco bem na faixa de pedestres onde um dia John, Paul, Ringo e George fizeram aquela foto, eu viciei.

A primeira coisa que fiz foi colocar o link na minha barra de favoritos. Comecei dando uma espiadinha esporádica e hoje não passo um dia sequer sem ver o que está acontecendo em Abbey Road. Agora, com áudio, ficou ainda mais interessante.

A qualquer hora que eu entro tem alguma coisa acontecendo por lá. Tem sempre alguém fazendo uma foto atravessando a rua ou apenas uma foto da placa esmaltada escrito Abbey Road NW8 City of Westminster, que fica no canto direito, embaixo do vídeo. É um que vai, é um que vem, é uma turma que atravessa imitando os quatro, é um solitário que para no meio e faz um selfie, enfim, a rua virou uma festa.

Outro dia voltei de um jantar e entrei era quase meia-noite, três da madrugada lá. Não é que tinham duas pessoas, aproveitando a calmaria e fazendo uma foto, inclusive com tripé? Semana passada tinha um grupo de Hare-Krishna atravessando a Abbey Road e fotografando.

Em 1995 eu fui a Londres e resolvi conhecer a rua de perto. Achei estranho, não havia ninguém por lá, uma rua bem diferente da capa do disco. Nem a faixa para pedestres eu vi. Nada de árvores, aquele muro baixo, fiquei tentando imaginar onde estaria estacionado aquele fusca branco na hora da foto tão famosa. Nada. Mas mesmo assim fiz uma foto ao lado da placa. Só no Brasil é que percebi que estava no lugar errado. Abbey Street é uma coisa, Abbey Road é outra.

Não me dei por vencido. Voltei a Londres e fiz questão de ir na rua certa e fazer a foto certa. Abbey Road era outra história. Já na saída do metrô enxerguei uma plaquinha indicando o caminho da rua dos Beatles. No caminho, lojinhas e mais lojinhas vendendo todo tipo de quinquilharia com alguma referência a banda. Imã pra geladeira, xícaras de chá, pôsteres, miniaturas, chaveiros, botons, tinha de tudo.

Fui seguindo um bando de jovens, todos com câmeras fotográficas nas mãos e, se não estou enganado, cantavam “Here comes de sun”. Agora sim, estava no lugar certo. Lá estava a faixa branca no asfalto, o muro, as árvores, a placa esmaltada, só não estava o fusca branco nem os Beatles, é claro.

O disco, comprei quando tinha 18 anos com o dinheiro que ganhava da Brasanitas conseguindo clientes que queriam dedetizar suas casas. Num primeiro momento, achei estranha, muito simplória aquela capa com os quatro atravessando a rua. Não entendi porque se chamava Abbey Road já que não tinha música com esse nome. Só vim a saber depois que era ali que ficava a gravadora deles, a da maçã verde.

Depois vieram as lendas. Espalhou-se o boato que Paul tinha morrido e que ele atravessando a Abbey Road descalço era um sinal e também uma montagem, numa época que não era nada fácil encaixar alguém numa fotografia. Disseram também que Yoko Ono estava dentro do fusca, esperando os quatro serem fotografados. Não acreditei muito não,  mas adorei o disco. Ouvia sem parar “Come together”, “Something”, “Maxwell’s Silver Hammer”, “Because”, “Sun King” e “Here comes de Sun”. Mas, sinceramente, nunca podia imaginar que um dia iria conhecer a rua tão de pertinho ou ficar aqui a 11 mil quilômetros de distância observando o movimento, todos os dias.

São duas horas da madrugada e, pra encerrar essa crônica, fui lá dar uma espiada, ver o que estava acontecendo em Abbey Road. A temperatura está marcando dois graus e não tem uma viva alma por perto. Milagre. O sinal para pedestres está piscando e o silêncio é sepulcral, mas amanhã cedo tenho certeza que a história vai ser outra. Vou ver um monte de gente fotografando, muitos japoneses e alguns brasileiros. Quando a gente aumenta o som, costuma ouvir sempre alguém falando português. Hoje cedo mesmo deu para ouvir uma brasileira.

- Já pensou se a gente encontra a Madonna aqui?

Sinceramente, não entendi nada. O que a Madonna estaria fazendo em Abbey Road, a rua mais famosa do mundo, numa manhã de quarta-feira de cinzas?