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Sociedade

Crônica

A vida ensina

por Menalton Braff publicado 25/07/2014 18h28
Afastam-se do caminho do filho querido todos os obstáculos, para a máxima felicidade. E assim crescem as crianças, a muitas das quais nem a experiência do choro é concedido.
reprodução
esmola-farol

Garoto vende chicletes em farol

A avenida Anhaia Melo, em São Paulo, praticamente nasce na favela da Vila Prudente. O trânsito, naquele local, é muito intenso. Os carros que descem o viaduto vêm despencando sem dó. Cinquenta metros além, um semáforo. Pois é nesse farol que a multidão de bacuris ganha a vida. Alguns deles, dizem, representam a única renda familiar. Na breve parada dos carros, lá vêm eles limpando para-brisas, vendendo balas e um rol de bugigangas que dá gosto ver. Não vivem de esmolas, eles trabalham.

Muitas vezes vi aquelas canelas finas trocando passo às pressas, com a planta do pé aparecendo e sumindo como se fosse verdadeira máquina. Eles correm entre os carros, se for preciso pulam por cima do capô. Mesmo com o semáforo a favor do fluxo da avenida, os garotos a atravessam com uma ginga de fazer inveja a qualquer Ronaldo da vida. É um drible veloz, um jogo de corpo de toureiro. Passa um carro e o menino corre, para entre duas faixas, olha para o lado, corre mais um pedaço, finalmente pula exultante para a calçada do lado de lá. Muitos destes aqui, às vezes me pus pensando, um dia vão estar jogando na Seleção Brasileira. Acho que errei a previsão.

Os miúdos têm uma vida frenética naquele ponto, mas sobrevivem. No fim do dia entregam os trocados conseguidos para a mãe. Sabe-se lá se não serão algumas das refeições do dia seguinte.

A avenida Anhaia Melo. Há muitos anos deixei de passar por lá, nem sei se ainda existe a favela da Vila Prudente, com seus barracos construídos com restos de construção, madeira, tijolo e zinco, com muita coisa que para nós outros era entulho. Mas não era da favela que me apetecia falar, senão de uns pensamentos que cá me acudiam com frequência.

Várias vezes já me perguntei, ao lembrar aquelas cenas que me vinham gravadas na memória, se um filho da nossa classe média conseguiria sobreviver assim por mais do que dez minutos. Tenho minhas dúvidas. Não quero nem posso fazer a apologia da vida difícil, não é de meu feitio glamorizar a pobreza. Meu intento é propor como reflexão os excessivos cuidados de algumas famílias que, sem saber, estão criando seres amolentados pela proteção familiar. Afastam-se do caminho do filho querido todos os obstáculos para que ele não sofra e tenha uma vida saudável com o grau máximo de felicidade. E assim crescem as crianças, a muitas das quais nem a experiência do choro é concedido. Mais tarde, quando o exercício da vida já se tornar muito difícil e exigir agilidade nos pés, jogo de cintura, visão periférica, pensamento lógico, raciocínio rápido e tantos outros elementos que caracterizam a agitada vida moderna, vão sentir uma terrível falta do treinamento.

Ou não?