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Saúde pública

A triste sina de um médico cubano no Brasil

por Miguel Martins publicado 07/10/2013 05h03, última modificação 07/10/2013 11h19
Pouco mais de um mês após ser hostilizado em Fortaleza, Juan Melquiades Delgado chega ao município de Zé Doca em meio a mais um fogo cruzado
Miguel Martins
posto de saúde

Estabelecimento de finalidade administrativa é improvisado para funcionar como posto de saúde

De Zé Doca, Maranhão

Se as primeiras impressões são as que ficam, o médico cubano Juan Melquiades Delgado deve estar se perguntando se valeu a pena participar do programa Mais Médicos. Na quarta-feira 2, ele fez sua primeira visita ao Polo Base de Saúde Indígena do município de Zé Doca, no norte do Maranhão, onde vai atender índios das etnias Ka’apor, Awá-Guajá e Tenetehara-Guajajara que moram em reservas próximas à cidade. Ao chegar, testemunhou a ocupação do local por lideranças indígenas a pedir a demissão da equipe responsável pelo local.

Os índios reclamam do mau atendimento, da falta de alimentos aos doentes e acusam a enfermeira Camilla Duraes de sequestrar cartões do Bolsa Família de índios para uso pessoal. Cinco minutos após sua chegada, Delgado observou atônito a uma discussão áspera entre o antropólogo José Mendes Andrade, que dá assistência aos povos originais do Maranhão, e a enfermeira. Enquanto as lideranças documentavam tudo com suas câmeras de celular, o médico, com bastante dificuldade para se comunicar em português, repetia como uma mantra: “Só quero trabalhar em harmonia”.

Ser recebido com protestos vem se tornando rotina para o profissional formado no Instituto de Ciências Médicas Santiago de Cuba. Quando desembarcou em Fortaleza em 26 de agosto, foi hostilizado com uivos, xingamentos e gritos de “escravo” por médicos cearenses. Não à toa, chegou ao polo de saúde de Zé Doca trajando uma camiseta estampada com os dizeres: “Somos escravos da saúde”.

Acompanhado por Ivone Oliveira, psicóloga da Funasa, Delgado foi ao local para conhecer sua futura equipe, mas surpreendeu-se com a ausência do gestor Raimundo Nonato Lopes e de vários técnicos de enfermagem. Contratados pelo Distrito Sanitário Especial Indígena, a maior parte dos membros da Missão Evangélica Caiuá abandonou o posto durante a semana devido aos protestos. As lideranças indígenas exigem a substituição do gestor, do dentista e das duas enfermeiras do polo. Para o cargo principal, querem a contratação de Altemir Everton, do coletivo de saúde do MST.

Segundo a liderança indígena Irakadju, Everton fala com calma e respeito. Como muitos não dominam bem o português, o talento didático contou na escolha. Formado em epidemiologia em Cuba, o fato de falar espanhol também permitira, segundo as lideranças, uma fluidez maior nas relações com Delgado para tocar as atividades do local.

Local não condizente, por sinal, com o que se espera de um posto de saúde. Improvisado em um estabelecimento de finalidade administrativa, o polo não possui qualquer equipamento. Segundo os índios, alguns produtos como cremes dentais e alimentos estão com a validade vencida. Na sala de atendimento, há apenas gazes, esparadrapos e soro fisiológico, comuns a qualquer kit de primeiros socorros. Enquanto isso, baratas e urubus circulam livremente por toda a cidade, onde as condições de saneamento básico são bastante precárias.

Em meio ao protesto, Delgado afirmou aos índios desconhecer os problemas na gestão do polo e pediu mais uma vez “harmonia” para trabalhar. No entanto, ele ainda não pode exercer atividades médicas. Falta o aval do Conselho Regional de Medicina do Maranhão, que entrou na Justiça para não conceder o registro provisório a 37 profissionais sob alegação de “problemas de documentação”. Sem equipe e registro, Melquiades ocupa-se em alugar uma casa para morar em Zé Doca pelos próximos três anos.