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A "selfie" de Obama e o jornalismo apressado

por José Antonio Lima publicado 11/12/2013 12h41, última modificação 16/12/2013 11h33
O presidente dos EUA não foi insensível e sua mulher não estava enciumada. Na superficialidade da rede, a imprensa precisa refletir. Por José Antonio Lima
Roberto Schmidt / AFP
Thorning-Schmidt, Obama, Cameron

Thorning-Schmidt chama Cameron para a "selfie" com Obama, durante o funeral de Mandela, na terça-feira 10

O ditado nos conta que uma imagem diz mais do que mil palavras. Assim, baseados em uma única foto do funeral de Nelson Mandela, o jornalismo mundial e a parte da sociedade conectada à internet concluíram que o presidente dos EUA, Barack Obama, e os primeiros-ministros David Cameron (Reino Unido) e Helle Thorning-Schmidt (Dinamarca) são três mal educados incapazes de se comportarem em um momento fúnebre e que a primeira-dama norte-americana, Michelle Obama, ficou irritada ao ver o marido “flertar”. Nada mais inverídico.

Foi preciso o depoimento de um fotógrafo, com exatamente 685 palavras, para o contexto da foto vir à tona. Em post publicado (em inglês) no blog dos correspondentes da agência AFP, Roberto Schmidt conta que a imagem foi feita minutos após o discurso de Obama no estádio FNB (Soccer City), em Johannesburgo, em meio a um clima de celebração pela memória de Mandela. “Ao meu redor, sul-africanos estavam dançando, cantando e sorrindo em homenagem ao líder morto”. O fotojornalista conta, na sequência, o óbvio, que “fotos podem mentir”. “Na realidade, apenas alguns segundos antes, a primeira-dama [Michelle Obama] estava ela mesma brincando com aqueles ao seu redor, Cameron e Thorning-Schmidt incluídos. Seu olhar severo foi capturado por acaso.”

As conclusões (erradas) a que jornalistas e público chegaram nas últimas 24 horas podem refletir uma série de coisas – até um preconceito direcionado a Michelle, uma mulher negra rivalizada pela “loira nórdica”, como afirmou Roxane Gay na revista Salon – mas antes de tudo representam a contaminação do jornalismo pelo imediatismo da internet e das redes sociais. Quase tudo é analisado de forma expressa, a reflexão perde espaço para a contagem de cliques e, na pressa, cada vez mais pessoas “morrem, mas passam bem”.

A explicação do fotógrafo da AFP não terá um centésimo da repercussão da imagem feita por ele. Rendeu um texto em CartaCapital, talvez um relato em alguns jornais ou, quem sabe, uma nota de rodapé na Wikipedia. O texto deveria servir, entretanto, como um chamado para os jornalistas de todo o mundo questionarem seu papel na sociedade. A imprensa deve se render ao circo que a grande maioria do público deseja, abastecendo os leitores e telespectadores com fotos e notícias irrelevantes (e se retroalimentando com a amplificação disso), ou trazer à tona questões verdadeiramente importantes e debates que possam aprimorar a sociedade?

A resposta parece evidente. O jornalismo bem feito pode provocar mudanças boas no mundo, como, para ficar em um só exemplo, deixaram claro o Guardian e Glenn Greenwald neste 2013. O jornalismo apressado, sem reflexão, entretanto, contribui para manter a sociedade como ela é, superficial. Exatamente como uma selfie.

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