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A saúde não chega aqui

por Gabriel Bonis publicado 28/08/2013 17h28, última modificação 29/08/2013 10h06
No Semiárido baiano, a falta de médicos impõe um verdadeiro suplício à população em busca de assistência
Edson Ruiz
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Rotina. Maria dos Santos atravessou o dia sem ser atendida

De Sítio do Quinto (BA)

Quando, no meio da noite, um homem bateu à porta do posto de saúde de Sítio do Quinto, município baiano a cerca de 400 quilômetros de Salvador, a técnica de enfermagem Maria Elba Felício Sales tremeu. O homem vinha com uma faca atravessada no pescoço. Em pânico, ela pressionou com força o ferimento, mas o sangue continuava a vazar. Além dela, só o vigia ainda estava no posto. “Gritei para ele me acudir, mas o homem estava desmaiado. Valei-me, Deus, pedi ajuda na rua. Um técnico de enfermagem me acudiu. Mas num teve jeito não”, relembra, enquanto atende uma idosa petrificada com a história. Nem mesmo as duas moscas pousadas na testa incomodam a paciente.

Três anos após o episódio funesto, a saúde pública piorou na pequena cidade de 12.592 habitantes e chão de paralelepípedos cobertos por lama seca. Naquela noite, não havia um plantonista no posto. Atualmente, exceto às quintas e sextas, quando um doutor aparece em Sítio do Quinto, é impossível encontrar um médico. A população conta apenas com enfermeiros.
As casas de fachada simples que avançam sobre ruas inclinadas e sem calçadas refletem a pobreza local, onde a renda média domiciliar per capita é de apenas 219 reais. No meio do Semiárido baiano, Sítio do Quinto tem poucos atrativos e muitas necessidades. A exemplo de diversas cidades de perfil semelhante, integra a lista de municípios prioritários do programa Mais Médicos do Ministério da Saúde, lançado em julho para diminuir o déficit de profissionais no interior e nas periferias das grandes cidades do País.

Na quarta-feira 14, o governo federal anunciou a seleção de 1.618 médicos, entre eles 358 estrangeiros, no primeiro mês do programa. O número representa 10,5% da demanda total: 15.460 profissionais para 3.511 municípios. Sítio do Quinto precisa de cinco desses médicos, embora nenhum deles tenha se inscrito para trabalhar na cidade, que mantinha quatro profissionais até meses atrás. A prefeitura perdeu os médicos para Salvador e uma cidade vizinha. O último deles partiu sem aviso prévio no início do ano. “Quem paga mais, leva. Só consegui encontrar um médico que trabalha duas vezes por semana”, desabafa Delina de Jesus Santos, secretária de Saúde da cidade. “Os médicos não cumprem a carga horária de 40 horas semanais. Se a gente obrigar, aí ficamos sem nada mesmo.”

Em uma cidade que deve seis meses de salários aos funcionários não concursados, é quase impossível encontrar em seu gabinete o prefeito Cleigivaldo Carvalho Santarosa, do PDT. Segundo rumores, deve a agiotas. Ainda assim, a prefeitura se dispôs a bancar um salário de 10,5 mil reais líquidos para manter UM médico na cidade. Em Ribeiro do Pombal, a 80 quilômetros de distância, o salário é menor, 8 mil reais líquidos, mas o município abriga o hospital regional, que atende os casos mais graves de 20 cidades da região. Possui UTI, especialistas e salas cirúrgicas.

No posto de saúde de Sítio do Quinto, a situação é inversa. Além de não haver médicos, o único enfermeiro deixou o cargo e ainda não foi substituído. O balcão da recepção não pode ser utilizado por abrigar entulhos de uma pequena reforma. A população recebe ali apenas curativos, vacinas, medem a pressão e a glicose. Os consultórios vazios expõem as falhas estruturais nas paredes, enquanto a sala de descarte de materiais hospitalares, como agulhas e luvas usadas, acumula uma pilha de caixas desses itens, e serve de moradia a morcegos. O mato alto e a terra vermelha cercam o posto, onde nem sequer há banheiros em funcionamento.
Do lado de fora, nas proximidades do muro azul e branco desbotado do posto, ficam os motoristas das duas ambulâncias da cidade. Eles aguardam pacientes encaminhados pelos técnicos em enfermagem para hospitais em cidades vizinhas, como Ribeiro do Pombal e Jeremoabo ou, em casos mais graves, Aracaju e Salvador. “Quatro pacientes já morreram comigo no caminho de três horas até Aracaju. Duas delas por falta de oxigênio na ambulância”, afirma Josias Almeida Barros, um dos motoristas.

A falta de médicos levou a cidade a perder a verba federal para três dos quatro postos do Programa Saúde da Família, que usa equipes multiprofissionais em unidades básicas para acompanhar moradores de uma região com ações de prevenção e controle de doenças comuns. Para funcionar, as unidades precisam de um médico. O plantonista de dois dias é ligado ao programa, mas faltam medicamentos e a infiltração no prédio inutilizou a sala onde há uma mesa ginecológica para o pré-natal. “O médico não consegue visitar as famílias rurais, fica preso no consultório”, diz Luana Camila Costa Nascimento, única enfermeira da unidade.
Na comunidade de Farofa, a distância dificulta ainda mais o acesso dos profissionais de saúde. A estrada até o prédio de um dos PSFs da cidade é estreita, sinuosa e precária. Em uma casa pequena, sem piso adequado, forro no teto ou água no banheiro, o enfermeiro Guilherme Silveira trabalha há um ano.

Em um dos cômodos da casa, um grupo de mulheres assiste a aulas sobre saúde feminina. Na sala ao lado, Silveira atende uma paciente que reclama de tosse. Receita um dos poucos medicamentos autorizados a prescrever por um protocolo do Conselho Federal de Enfermagem. “Desde março, nunca vi um médico aqui.”

Em Novo Triunfo, o prefeito João Batista de Santana, também do PDT, anda com quatro seguranças. Teme ser assassinado, como ocorreu com seu irmão, então prefeito da cidade, que tem um único médico, disponível por dois dias e meio. Quem tem problemas quando o doutor não está no município nem passa pelo posto de saúde. Caso de Antonio José de Oliveira, de 79 anos, que quebrou o fêmur ao levar um tombo na roça.

Após a queda, Oliveira viu-se obrigado a viajar para Ribeiro do Pombal em busca de tratamento. Mas o médico não identificou a fratura. O problema se agravou e a perna do agricultor perdeu mobilidade. “Passei três meses olhando para o teto sem dormir direito de tanta dor.” Uma das filhas conseguiu vaga em um hospital em Camaçari, distante 300 quilômetros de sua terra, e Oliveira enfrentou uma cirurgia de emergência. Magro e franzino, ele se esforça para levantar-se do sofá e caminhar com o auxílo de um andador pela sala iluminada por um fraco feixe de luz. “Os médicos disseram que nunca viram um velho tão forte como eu.”
Novo Triunfo também está na lista de cidades prioritárias do programa Mais Médicos. Tem quatro unidades de saúde, segundo a prefeitura, equipadas com o que o Ministério da Saúde considera essencial. Falta, contudo, um médico em um povoado rural de 2 mil habitantes. “Pedimos cinco médicos e recebemos um apenas”, lamenta Edvânio Ciriaco dos Santos, enfermeiro e coordenador de atenção básica de saúde.

O médico enviado pelo programa federal é Eduardo Ribeiro. Recém-formado em Teresópolis, no Rio de Janeiro, ele nasceu na região e pretendia retornar. “Tinha em mente que até entrar na residência, ficaria na atenção básica.” O jovem faz plantões em Salvador para completar a renda e adquirir experiência em casos mais complexos.

Com a escassez profissional, a cidade de 15.051 habitantes segue o caminho de Sítio do Quinto e empurra seus doentes a outros municípios. “Gasta-se muito com o transporte para outras cidades, são cerca de 90 mil reais por mês, entre carros e combustível”, lista José Mário Varjão, secretário de Administração.

Um dos destinos mais comuns é Ribeiro do Pombal. Na porta do hospital regional, Maria dos Santos, de 67 anos, sente fortes dores por causa de pedras na vesícula. Chegou de outra cidade no fim da manhã e assiste ao sol se esconder estendida na calçada. De lenço no cabelo e mão na barriga, reclama: “Devia ter ficado em casa. Vi três médicos e ninguém me disse nada. Estou com fome”. A fila na emergência é longa. São mais de 150 pacientes por dia.

O hospital recebe doentes de ao menos 20 municípios, para casos de maior complexidade que exigem exames como tomografia ou UTI e especialistas. São 5 mil pacientes por mês, 20% habitantes de outras cidades. A equipe de 30 médicos está completa, mas não há margem para imprevistos. “Quando o médico falta de emergência não temos como substituí-lo”, diz Jorge Ribeiro, diretor-interino do hospital.

Esse é um cenário comum em qualquer cidade com atenção básica, garante o médico Lázaro Viera de Menezes, de 28 anos. Sentado em um consultório simples em Duas Serras, cercado apenas por uma mesa e uma maca, o recém-formado relata que os médicos tentam cumprir a jornada, mas precisam completar a renda. “Para sobreviver, temos de assumir plantões ao menos no fim de semana, que é bem mais rentável.

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