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Sociedade

Crônica do Menalton

A rainha apanha do marido

por Menalton Braff publicado 05/06/2014 13h30
Li nos jornais que um município paulista havia registrado 7 311 ocorrências de violência contra a mulher. Num só ano, em uma só cidade, mais de sete mil mulheres foram vítimas dessa coisa nojenta, que se chama machismo

Tempos atrás, quando o Adamastor ficou sabendo que havia sido criada a DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), sorriu incrédulo e disse: − Mais um cabide de emprego.

Como eu não entendesse o que ele queria dizer com aquilo, o Adamastor explicou-se, muito sério: − Uma coisa desnecessária, entende? Em mulher não se bate nem com uma flor.

Ao tentar fazê-lo entender que as coisas não andam muito garantidas para o lado das mulheres, ele não acreditou e me disse que na rua dele, pelo menos, não conhecia nenhum caso de mulher que apanhasse. Nem no bairro, ele disse, já com um ar quixotesco que me assustou.

Bom e generoso Adamastor, você é do tempo em que se considerava covardia o mais forte bater no mais fraco, como o adulto que espanca criança, e o marido que bate na esposa. Deus o conserve, meu amigo.

Por aqueles dias eu tinha lido nos jornais que, só em determinado ano, a DDM de um município paulista havia registrado 7 311 ocorrências de violência contra a mulher. Você prestou atenção? Num só ano, em uma só cidade, mais de sete mil mulheres foram vítimas dessa coisa nojenta, que se chama machismo.

Escuta aqui, ô, campeão, você que deve ser um cara forte pacas, você tem coragem de espancar a rainha do lar, a mãe dos teus filhos, aquela que cuida da tua vida doméstica, que amarrou o próprio futuro ao teu? Pô, cara, para com isso, que bater em criança e mulher, só porque elas são mais fracas, é uma tremenda cafajestice. Agora, se você é daqueles que só não faz o que dá cadeia, então anote aí: pela Lei “Maria da Penha”, espancamento de esposa dá até três anos de xilindró. Vá com calma, malandro, ou tua família te bota na geladeira.

Pois bem, o Senado acaba de aprovar a lei 58/2014, batizada de “Lei Menino Bernardo”, para que não nos esqueçamos do crime monstruoso praticado no Rio Grande do Sul contra uma criança.

Agora me chega o Adamastor assustado e me pergunta se no futuro as crianças não vão poder abusar, fazendo tudo que sua inexperiência sugerir, inclusive com risco de desastres para elas próprias?

Não estou assim tão seguro de que as crianças do futuro serão melhores que as do passado, pois castigo também é parte da educação. Mas o castigo não é forçosamente corporal, ou seja, violência física. Existem outras maneiras de se castigar, demonstrando que as faltas têm consequências e precisam ser corrigidas.

Talvez tenha convencido meu amigo gigante, talvez não, mas nem é o propósito do cronista convencer quem quer que seja. Isso é papel de moralistas (no sentido fichteano), enquanto o cronista gasta palavras num exercício quase irresponsável de opinião, da sua opinião sobre o mundo em que vivemos, este conturbado mundo.

Portanto, melhores ou não, um viva para nossos infantes!