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A promessa de um 'novo mundo possível'

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 26/01/2010 18h06, última modificação 07/09/2010 18h08
Esta semana, Porto Alegre e as cidades da região metropolitana vão abrigar mais uma edição do Fórum Social Mundial

Esta semana, Porto Alegre e as cidades da região metropolitana vão abrigar mais uma edição do Fórum Social Mundial. Provavelmente a última em terras gaúchas. Desde 2004, o movimento que Porto Alegre projetou internacionalmente não retornava a sua cidade original. A edição dos 10 anos promete realizar um balanço, repensar os caminhos, e avaliar, afinal, se ainda se justifica a consigna original que afirmava “um outro mundo é possível”.

Em 2001, logo após a virada do milênio, o PT ainda dirigia a capital gaúcha. A dinastia petista em Porto Alegre durava já 14 anos e se prolongava no governo do Estado. Olívio Dutra, primeiro prefeito do PT em Porto Alegre, era governador. Vivíamos todos no planeta sob o neoliberalismo. E em todos os lugares, a ideologia liberal se impunha. Em todos, menos em Porto Alegre.

Protesto contra o pensamento único

Para o primeiro Fórum Social Mundial em 2001 eram esperados menos de cinco mil participantes. Acabou reunindo mais de 20 mil, de 117 países. Dali em diante, o crescimento foi constante. Em 2002, reuniu 51 mil pessoas de 131 países. Em 2003, cerca de 100 mil. Em 2004, 155 mil oriundos de 151 países. Ainda que financiado quase integralmente pelo Estado, e dependente da força política-eleitoral de seus financiadores, o FSM sempre recusou-se a tomar qualquer decisão que apontasse algum caminho alternativo – o que o FSM fez foi levantar problemas, abrigar denúncias, propiciar debates contra o pensamento único neoliberal.

Muitos passaram a vê-lo como um Woodstock das ideologias de esquerda, uma feira de ONGs inconseqüentes. Mas Porto Alegre ficou encantada com o sucesso que obteve no mundo e com a injeção de recursos nas férias de verão, quando normalmente a cidade está vazia.

Nós fazemos o "novo mundo possível"

Com as derrotas do PT (primeiro no Estado, em 2002, e depois em Porto Alegre), o ambiente político e de sustentação econômica e organizacional ficou adverso e o FSM acabou migrando para outros continentes, em busca de uma expansão internacional. O retorno agora, ao que tudo indica, parece mais um reencontro de quem foi separado pela vida que uma volta às origens.

Ao final dos 16 anos em Porto Alegre, o PT havia restado com duas bandeiras incontestes em suas mãos. O Orçamento Participativo e o Fórum Social Mundial. José Fogaça, com maestria política, firmou-se no centro e ganhou as eleições dizendo “fica o que está bom, muda o que não está”. O apoio que está dando agora à organização do Fórum é um compromisso de campanha, e a socialização da iniciativa com prefeituras da região metropolitana, dirigidas pelo PT, um gesto pragmático e inteligente. O que for bom, Fogaça poderá capitalizar. O que der errado, pode acabar na conta dos petistas.

Uma faixa assinada pela Força Sindical, entidade de trabalhadores que é íntima do vice-prefeito de Porto Alegre, José Fortunatti (PDT), na abertura do Fórum já dava o tom do que virá. Enquanto o FSM ainda mantém seu slogan que diz “um outro mundo é possível”, as forças em torno à Fogaça afirmam “nós fazemos o novo mundo possível”. As palavras são muito parecidas, mas a distância entre os significados é grande.

Lula, o FSM e o Fórum Econômico de Davos

O presidente Lula parece estar mais no espírito do segundo slogan que no do primeiro. Nesta terça-feira, Lula vai "dar uma passada rápida" no FSM em Porto Alegre e vai direto para Davos, onde será recebido como grande liderança mundial.

Em 2003, em seu primeiro ano na presidência, Lula decidiu dividir sua agenda entre o Fórum de Porto Alegre e o Fórum de Davos. Na época, foi muito criticado por estar indo reunir-se com a elite do capitalismo mundial. Lula, ao longo dos últimos anos, acabou fazendo o novo Brasil possível e agora já é visto como grande liderança mundial, capaz de construir saídas onde ninguém mais espera.

O FSM de balanço dos 10 Anos em Porto Alegre está sendo um evento pálido. Até semana passada, a rede hoteleira, que antes lotava completamente num raio de 100 km, estava normal, com uma taxa de ocupação de apenas 45% na capital. Lula, com seu faro político extraordinário, de novo parece estar com a razão. Em Davos, tudo indica, será muito mais ouvido.