Sociedade

Maria Rita Kehl

A Primavera Árabe e os Indignados

por Clara Roman — publicado 03/11/2011 09h45, última modificação 03/11/2011 10h00
Só posso ver com otimismo esses movimentos todos. São pessoas jovens que percebem que o tamanho do poder do capital financeiro no mundo faz com que os estados e governos locais tenham muita pouca autonomia no destino de nações

Maria Rita Kehl, sobre as manifestações que explodiram no mundo todo:

Só posso ver com otimismo esses movimentos todos. São pessoas jovens que percebem que o tamanho do poder do capital financeiro no mundo faz com que os estados e governos locais tenham muita pouca autonomia no destino de nações. Percebem que é como se as pessoas ficassem inutilizadas como sujeitos de ação política.

No Tempo e o Cão, que é um livro que escrevi sobre depressão, eu sugiro que esse sentimento de inutilidade, de que ‘eu como ser político não valho nada – não eu sozinho, mas a classe política a qual pertenço – produz depressão. O abatimento, o sentimento de conformismo, o que Walter Benjamin chama de fatalismo. Por um lado, posso dizer que é muito importante que jovens ou pessoas que estão excluídas do mercado de trabalho começem a detectar onde está o foco do problema, como em Wall Street e vão às ruas protestar, insistir enfrentar a polícia. É muito importante.

Por outro lado, e aí é uma pergunta, qual a consequência política eles esperam que tenham essas reivindicações. Manifestações de insatisfação populares, quando não tem foco político mais claro, alianças políticas mais claras, propostas de luta mais objetivas, ou elas podem com o tempo se esvaziar, vira só uma manifestação de descontentamento, mas não algo que possa efetivamente mudar, ou, o que é mais grave, é que às vezes esse tipo de insatisfação popular pode ser capitalizado por partidos de extrema direita. Porque uma vez que você não tem uma proposta muito clara para o futuro, é possível, como aconteceu na Alemanha dos anos 30, numa crise econômica até mais grave que essa, que quem saia ganhando com essa crise, com esse descontentamento sejam partidos, representantes de interesses sociais escusos, digamos assim que trabalham com uma certa nostalgia de tempos melhores, ‘antigamente que era bom’, tipo o discurso do Tea Party dos Estados Unidos ‘ vamos recuperar as tradições dessa nação, as raízes’, de certa forma, o partido nacional socialista do Hitler tinha essa proposta resgatar os valores do povo alemão pré modernos.

Não é que eu ache que isso vai acontecer, mas nunca estamos livres desse risco. Thomas Man tem uma frase que eu acho linda, mas triste, que diz “Toda era que tem medo de si mesma, tende a restauração”. Claro que esse movimento nasce de um medo, compreensível, de ficar sem emprego, de que o capitalismo financeiro tome conta de tudo, de que enormes contingentes da população fiquem excluídos de todos os benefícios do capitalismo e só uma minoria muito pequena fique se locupletando. É claro que tem medos importantes aí. Mas além desses medos é preciso que haja alguma proposta efetiva que nos encoraje a pensar para frente, senão é muito, há essa possibilidade das pessoas se apegarem a formas conservadoras e até obscurantistas.

Minha formação de esquerda – que não é formação sólida, acadêmica porque sou psicóloga, minha formação de participar de grupos, de ler coisas – é materialista. Ou seja, eu não acho que o capitalismo vai cair porque tem manifestação na rua. As manifestações na rua indicam uma crise no capitalimo e é importante que ela se mantenha. Mas são as condições materiais que vão mudar as coisas e isso a luta popular é um pouco consequência de uma crise das condições materiais do capitalismo até então, mas também uma crise de perspectivas. Não sei se há no mundo condições materiais para a superação do capitalismo.

Por outro lado, quando o estado começa a intervir cada vez mais para salvar o capitalismo, temos aí uma contradição importantíssima. O princípio da economia capitalista que é a iniciativa privada que vai tocar tudo está pegando fogo. Mesmo que a gente fique escandalizada quando o estado se mobiliza para salvar grandes bancos. Por outro lado, quando o estado se mobiliza para gerir impostos, injetar dinheiro na produção, diminuir preço, numa economia que fosse, no limite, totalmente estatizada para poder ser mais bem distribuída, estaria mais perto de uma economia socialista que capitalista.

Primavera Árabe: de braços dados com o capital

A Primavera Árabe é importantíssima. Mas é um movimento quase de anti-feudalismo nos países árabes, a gente não sabe se vai iniciar um movimento pró-capitalista ou anti-capitalista. São países que ainda precisam passar por uma modernização nos moldes capitalistas. Talvez algum dia se torne mais de esqueda, mais socialistas. Por enquanto, eles ainda são contra tirania, concentração tremenda de privilégios, falta de vida política total do povo. Mas isso pode ter também uma orientação liberal capitalista. Mas acho importante. O Irã, que fez uma revolução como essa em 1978, virou um país fundamentalista com uma ditadura, não sei se igual ou pior que a do Reza Pahlavi.

 

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