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"A polícia militarizada é um resquício da ditadura"

por Redação — publicado 28/11/2013 19h58
Na Comissão da Verdade estadual de São Paulo, cineastas apresentaram manifesto pela desmilitarização das polícias

Cineastas e jornalistas apresentaram manifesto pedindo a desmilitarização da PM, em audiência na Comissão da Verdade estadual em São Paulo nesta quinta-feira 28. A audiência pública sobre a Polícia Militar na comissão teve a apresentação do filme "Entre a Luz e a Sombra", de Luciana Burlamaqui, sobre a situação carcerária no Brasil.

No manifesto, eles dizem que a polícia militarizada é um resquício da ditadura. “Esperamos que o Governo Federal e os representantes de todas as esferas executivas e legislativas tomem as medidas cabíveis para que o nosso país saia do ranking de um dos maiores violadores dos direitos humanos do mundo e interrompa imediatamente a continuidade do extermínio da nossa juventude pobre e negra, que pelas estatísticas é a maior vítima da violência policial,” diz o manifesto. Leia abaixo a íntegra do texto:

ABAIXO-ASSINADO PELA DESMILITARIZAÇÃO DAS POLÍCIAS

Através desta carta manifestamos nosso apoio à desmilitarização das polícias no Brasil.

Durante as manifestações de junho ficou evidenciado, nacionalmente, o despreparo das mesmas em lidar com processos democráticos, reinvidicações populares, respeitando a vida, a integridade física e os direitos humanos dos brasileiros.

A quantidade de vídeos e fotos que mostraram os abusos de poder das polícias em ações de guerra desproporcionais contra os manifestantes, em falsos flagrantes, ferimentos graves e em mortes revelaram o que a população das periferias das grandes cidades está cansada de denunciar há muito tempo.

Já é bem conhecido o histórico de mortes e chacinas cometidas pela Polícia Militar há mais de 25 anos dentro do regime democrático, citando como alguns exemplos: o “Caso Amarildo,” a “Chacina da Candelária”, o “Caso da Favela Naval” em Diadema, o “Massacre do Carandiru”, a “Chacina do Vigário Geral”, os “Crimes de Maio” de 2006, o recente caso do estudante de 17 anos, Douglas Rodrigues, baleado no peito por um PM na zona norte de São Paulo que chegou a perguntar ao policial: “Por que o senhor atirou em mim?” - entre muitas outras milhares de mortes contabilizadas em autos policiais de supostas “resistências seguidas de morte” que tornaram a polícia brasileira uma das mais violentas do mundo.

De acordo com o 7º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, pelo menos cinco pessoas são vítimas da intervenção policial no Brasil todos os dias. Em 2012, quase 2 mil pessoas foram mortas por policiais em serviço. Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) revela que 70% da população não confia nas polícias.

Organizações internacionais de direitos humanos já condenaram a atuação da polícia no Brasil, como a Anistia Internacional que, em seu relatório anual de 2012, ressaltou a violência e o abuso policial como um dos problemas crônicos do país.

No mesmo ano, o Conselho de Direitos Humanos da ONU sugeriu a extinção da Polícia Militar no Brasil acusada de violações e execuções sumárias.

A polícia militarizada é um resquício da ditadura.  Em tempos da Comissão da Verdade criada para investigar os crimes dessa época e restaurar a memória de suas vítimas com dignidade, é uma contradição insustentável virar as costas para o presente e negar a urgência de uma reforma policial profunda, inevitável e a altura de um regime verdadeiramente democrático que respeite a vida de todos os cidadãos brasileiros.

Sendo assim, além da desmilitarização, reividicamos uma reforma policial que prepare seu efetivo para combater o crime com mais uso da “inteligência” do que da violência e com a meta primordial de diminuir radicalmente  a letalidade nas operações policiais.

Esperamos que o Governo Federal e os representantes de todas as esferas executivas e legislativas tomem as medidas cabíveis para que o nosso país saia do ranking de um dos maiores violadores dos direitos humanos do mundo e interrompa imediatamente a continuidade do extermínio da nossa juventude pobre e negra, que pelas estatíscas é a maior vítima da violência polícial.

Violência e vingança não podem ser validadas como instrumentos legítimos do Estado Brasileiro para a garantia de qualquer direito humano.

Assim, reinvidicamos uma política de segurança pública brasileira que respeite o maior bem da humanidade: a vida!

São Paulo, 28 de novembro de 2013,

Luciana Burlamaqui, cineasta e jornalista (SP)
Beatriz Seigner, cineasta (SP)
Tata Amaral, cineasta (SP)
Flavia Castro, cineasta (RJ)
Vincent Carelli, cineasta (PE)
Beto Brant, cineasta (SP)
Marcelo Yuka, músico (RJ)
Marcus Viana, músico (MG)
Zé Celso Martinez Corrêa, ator, dramaturgo (SP)
Joel Pizzini, cineasta (RJ)
Daniela Capelato, cineasta (SP)
Silvio Tendler, cineasta (RJ)
Marcelo Lordello, cineasta (PE)
Marco Dutra, cineasta (SP)
Maeve Jinkings, atriz (PA)
Marcelo Pedroso, cineasta, (PE)
Dulce Maia de Souza (SP)
Daniela Broitman, cineasta (RJ)
Clarissa Campolina, cineasta (MG)
Max Eluard, cineasta (SP)
Paula Pripas, cineasta (SP)
Andrea Pasquini, cineasta (SP)
André Fraciolli, cineasta (SP)
Rogério Correa, cineasta (SP)
Clarissa Knoll, cineasta (SP)
Gustavo Pizzi, cineasta (RJ)
Karine Teles, atriz (RJ)
André Meirelles Collazzi, cineasta (SP)
Marcelo Machado, cineasta (SP)
Ícaro C. Martins, cineasta (SP)
Roberto Gervitz, cineasta (SP)
Helena Ignez, cineasta (SP)
Rodolfo Nanni, cineasta (SP)
Rossana Flogia, cineasta (SP)
Hermano Penna, cineasta (SP)
Patrícia Moran, cineasta (SP)
Mauro Baptista Vedia, cineasta (SP)
Ester Fér, cineasta (SP)
Daniel Santiago, cineasta (SP)
Henri Arraes Gervaiseau, cineasta (SP)
Eduardo Kishimoto, cineasta (SP)
Davi do Nascimento, cineasta (SP)
Diana Almeida, produtora audiovisual (SP)
Julia Murat, cineasta (SP)
Katia Coelho, diretora de fotografia (SP)
Lis Kogan, cineasta (RJ)
Daniel Caetano, cineasta (RJ)
Sérgio Roizemblit, cineasta (SP)
Ivo Branco, cineasta, (SP)
Adriana Paiva, jornalista, (RJ)
Rubens Rewald, cineasta (SP)
Aaron Fernandes, cineasta, (SP)
Ana Petta, atriz, (SP)
Erika Campelo, jornalista e ativista (França)