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Sociedade

2014

A patrulha anti-Copa

por Matheus Pichonelli publicado 12/11/2013 14h33, última modificação 12/11/2013 15h54
Os sommeliers de cidadania concluíram que o futebol e o carnaval são a fonte de nossos males. E que estamos condenados ao luto e à autopiedade
Não Vai Ter Copa

Logo da campanha "Não Vai Ter Copa", espalhada pelo Facebook

Me leve a mal se quiser, mas há momentos em que é preciso recorrer ao óbvio para espantar os absurdos. Um deles é imaginar que o mal do Brasil é o futebol. Ou a novela. Ou o carnaval. Ou a eleição do deputado que não sabe para que serve um deputado.

O problema do Brasil, como de qualquer outro lugar do mundo, é a ignorância. E ela se manifesta em muitos campos, entre eles o futebol, a teledramaturgia, as festas de ruas ou o Parlamento.

E se manifesta quando a crítica se transforma em patrulha e a patrulha, em moralismo.

Por exemplo. A menos de um ano para o início da Copa do Mundo no Brasil, a Fifa, entidade organizadora do evento, liberou na segunda-feira 11 a venda de ingressos online para as partidas. Foi a deixa para que os virtuais compradores fossem chamados de tudo pelas redes sociais: de vendidos e alienados a traidores da pátria.

Porque, no Brasil, tornou-se pecado pagar para assistir aos jogos da Copa, evento realizado em edições anteriores na África do Sul, na Alemanha, no Japão e Coreia, na França, nos Estados Unidos, na Itália, no México e na Espanha.

Mas, segundo os sommeliers de cidadania de plantão, as contradições e os problemas mais urgentes a serem resolvidos no País nos condenam apenas à eternidade do luto e da autopiedade.

De fato, são motivos de apreensão os baldes de oportunidade desperdiçados em um evento como este. Contesta-se, com razão, o financiamento público para estádio, o impacto das obras, a negligência com os planos de mobilidade, as desapropriações, o descaso com as comunidades impactadas, o excesso de subsedes, os futuros elefantes brancos, os desmandos de uma entidade privada responsável por sua organização, os lucros privados, o monopólio adquirido pelos patrocinadores, o despreparo dos dirigentes esportivos. Tudo isso pode e deve ser noticiado, contestado e vasculhado de ponta cabeça antes e depois dos jogos, como deve ser feito em qualquer empreendimento humano.

O boicote a quem não boicota, no entanto, chega a ser contraproducente: fosse assim, a simples construção de um prédio em qualquer rua de qualquer cidade, motivo de impactos e transtornos urbanos e viários, deveria ser alvo de campanhas contra a verticalização da vida.

Portanto, voltemos ao óbvio: boicotar o evento é legítimo. Usar a visibilidade do evento para engrossar protestos, apontar contradições e engrossar bandeiras que estão sendo levantadas desde 2007, também. Mas cuspir em quem compra ingresso por supostamente compactuar com os desmandos é uma estratégia tão inteligente quanto maltratar o escravo para combater a escravidão.

Não cola.

A realização da Copa do Mundo é um fato. Os erros de sua organização são um fato e meio. Mas a busca por ingressos para os jogos, observada no início da semana, demonstra que há uma parcela significativa da população disposta a participar do evento. Ligar a patrulha sobre esses potenciais financiadores do desmando não é espalhar cidadania; é reforçar a nossa figura de caipora, o personagem de Machado de Assis que, de tão deslocado da sorte, consegue quebrar o nariz até quando cai de costas.

Ao longo do dia, pipocaram nas redes argumentos como “esse ingresso é metade do salário de um trabalhador” ou “as pessoas deveriam se preocupar com coisas mais importantes do que futebol” ou “você sabe escalar os 11 jogadores do seu time, mas não sabe o nome de 11 ministros” (papo que lembra as broncas de um antigo pároco de Araraquara que se indignava com a nossa ignorância em relação aos 11 apóstolos – ou seriam 12?).

Nenhuma dessas críticas está fora de razão. Nem por isso chegam a ser honestas. O fato de o torcedor se preocupar com futebol e dedicar tempo e dinheiro a ele não anula suas preocupações dentro ou fora de campo. Se fosse alargado o conceito de utilidade de tempo e recurso, todos estaríamos proibidos de andar no parque ou sentar no bar – haveria atividades mais importantes a se preocupar na vida do que o passeio ou a cerveja, cuja produção também impacta a cidade, o corpo e as mentes. Estaríamos proibidos, inclusive, de diversões fúteis, como o uso do corpo – o ato sexual, sem fins de procriação, entraria na mesma prateleira: afinal, há problemas maiores a serem enfrentados e estes deveriam contemplar a totalidade dos nossos esforços e atenções.

Uma opção seria se trancar no quarto e se imolar com navalha nas costas em protesto contra qualquer alegria pagã; qualquer coisa fora isso é compactuar com qualquer crime de qualquer natureza. E, já que esta não parece ser uma opção viável, voltemos outra vez ao óbvio: nenhum esporte, lazer ou hobby faz de um país mais ou menos ignorante do que é. Nenhum evento, por maior que seja, é capaz de catalisar todas as desgraças, nem passadas nem futuras.

Uma coisa é ser crítico. E é possível ser crítico participando ou não do evento. Outra coisa é ser intransigente, e isso tem mais a ver com um passado de desmandos do que com futebol.

Nem só de cachaça viverá o homem, mas sem essa cachaça ninguém segura esse rojão, diria um sábio compositor popular inspirado em aflições bíblicas. Há, de fato, muito a se fazer, muito a se conquistar, muito a melhorar. Mas a vida permite 90 minutos de intervalo. O resto é autocensura, questão de gosto ou moralismo – nada, portanto, que torne o debate, ou o país, mais honesto ou interessante.

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