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A opressão por trás do anúncio de uma festa universitária da USP

por Luís Fernando Tófoli* — publicado 03/10/2014 15h57
O que a disputa no espaço urbano entre um grafite e a divulgação do Show Medicina pode nos dizer sobre dilemas morais da educação médica
Reprodução / Facebook
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Antes e depois: muro na avenida Rebouças com o grafite e depois, com o anúncio da festa universitária

Em São Paulo, no Complexo Viário que fica no encontro das avenidas Rebouças, Dr. Arnaldo e Paulista havia um enorme grafite realizado com o apoio da Secretaria de Direitos Humanos do Município. O painel celebrava a cidadania e os direitos humanos nas ruas. A notícia de que a obra, realizada por mais de vinte artistas, havia sido coberta na madrugada do dia 29/10 por um feioso anúncio do 72º Show Medicina me encheu de tristeza. Meu pesar, nesse caso, é duplo: tanto pelo mau exemplo dado pelos estudantes da Faculdade de Medicina da USP – onde me tornei doutor – quanto por uma indescritível sensação de cansaço ao pensar na minha responsabilidade como educador médico.

Mais do que uma “festa universitária”, como se tem lido nos noticiários, o ‘Show’ é um velho conhecido de qualquer um que tenha sido formado por esta respeitável instituição. Como se pode inferir pelo número da edição deste ano, trata-se de um costume que há mais de mais de sete décadas está no calendário universitário da FMUSP. Criado como forma de fazer irreverência, o Show Medicina é, desde o seu início, um espetáculo teatral de verve humorística em que a vida médico-universitária é fonte de críticas e sátiras. Até aí, nada de mais.

No início da existência do Show, a virtual ausência de mulheres estudantes de medicina levava à necessidade de que os atores, bailarinos e cantores do espetáculo (apelidados de ‘estrelos’) fossem apenas do sexo masculino, inclusive nos papéis femininos. Às mulheres cabia a função de costurar o elaborado figurino dos estrelos. Com o somar das décadas, no entanto, a profissão foi se tornando cada vez mais feminina. Atualmente há mais estudantes mulheres do que homens nas faculdades de medicina. Porém, não mudaram as antigas regras de que somente homens fossem estrelos e membros da produção e de que as mulheres devessem apenas costurar fantasias, sem assistir aos ensaios, descobrindo apenas no dia da apresentação em que cena o seu trabalho fora utilizado. Em geral, a justificativa, além da graça de se ver grandalhões dançando balé ou encenando donzelas é uma das palavras mais usadas para manter o status quo sob o teto da chamada Casa de Arnaldo: tradição.

No ano de 1993, quando eu fazia parte do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz, uma série de acirramentos entre o Show Medicina e o C.A levou à denúncia pública do que era chamado o “vestibular” do Show. Por aquela época os veteranos recebiam os calouros de sexo masculino dentro do também tradicional teatro da Faculdade de Medicina, já bem tarde da noite, para uma sessão de trote pesado. Não falo em tese, porque fui vítima e testemunha de uma dessas ocorrências. Naquele que era considerado um dos maiores segredos discentes da FMUSP, os recém-chegados – sem serem informados do que aconteceria a seguir – eram forçados, entre outros absurdos, a se despirem, dançarem lambada nus e coletarem laranjas com as nádegas para depositá-las em baldes em pleno palco do teatro. Durante todo o tempo, grandes bolas de papel eram arremessadas pela plateia de veteranos em direção aos genitais dos calouros. Como é frequente no caso de trotes, não havia denúncias individuais por medo de represálias. Quem não gostava do que acontecia simplesmente não frequentava o Show, e acabava pactuando com o silêncio. À época, a denúncia do Centro Acadêmico causou comoção dentro da Casa de Arnaldo e a Faculdade decidiu que o Show deveria ficar sem acesso ao Teatro, que foi devolvido para usufruto dos estrelos após alguns poucos anos. Não tenho a menor ideia do que foi feito do vestibular do Show desde então, mas confesso que lá no fundo ainda me pergunto se no sóbrio teatrão da Medicina da USP continuam a dançar jovens pelados em um típico ritual de passagem masculino.

O tempo passou, eu me tornei educador médico para tentar mudar coisas que eu julgava serem erradas nos currículos de medicina – e que não aconteciam somente na FMUSP, evidentemente. Os cabelos foram embranquecendo e hoje em dia eu tenho consciência de quanto é difícil transformar certos vícios da profissão médica. Ao saber da denúncia que a Coordenadoria de Políticas de Juventude da Prefeitura fez sobre ocorrido com o grafite, um sentimento antigo e ruim me tomou. Nada mudara depois de duas décadas? Nesse caso, o Show Medicina não só desrespeitou os artistas e a própria ideia da cidadania nas ruas, como passou por cima da Comissão de Proteção à Paisagem Urbana, o que pode significar uma multa, pelo tamanho do estrago, na casa das dezenas, talvez centenas de milhares de reais. É imperioso que a Faculdade de Medicina se posicione, tanto pelo respeito que emana de sua autoridade quanto pelos fatos de dar outorga para o Show funcionar em seu Teatro.

Por outro lado, não me iludo. Tenho dúvidas em acreditar que medidas punitivas ou reparadoras nesse caso sejam capazes de sequer chamuscar o lado sombrio do currículo oculto da Medicina – um conjunto de usos e costumes que não estão escritos, mas que existem em todas as escolas médicas e direcionam certos modos de ser da profissão. Velhas perguntas também me assolaram ao pensar neste ocorrido. Por que tantas pessoas têm a impressão de que muitos médicos e estudantes de medicina se comportam como se fossem superiores ao outros? O que acontece dentro das escolas médicas que não conseguimos prevenir este e outros tipos de desvios, mesmo que temas como humanização, habilidades de comunicação e empatia nunca tenham estado tão presentes nos currículos oficiais? Por que todo ano figuram alunos de medicina entre os relatos de trotes bárbaros? Por que ainda há tanta opressão no bojo da cultura médica? Porque somos tão inteligentes, mas temos tão pouca autocrítica?

Não espero que o Show Medicina responda a essas perguntas. Espero, entretanto, que seus responsáveis admitam e procurem corrigir o erro que cometeram, e que repensem qual é o lugar da Medicina frente ao direito de outrem. Na briga do spray com o bisturi todos vamos perder. Deve haver, na metrópole, espaço, respeito e gentileza para todos.


*Luís Fernando Tófoli, médico e professor de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp