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Sociedade

Opinião

A naturalização do mal que semeia o fascismo

por Pedro Estevam Serrano publicado 14/10/2015 03h56
Apoio a execuções policiais e hostilidade em enterro de petista são sinais do perigoso caldo de maldade que vivemos
Alex de Jesus / O Tempo / Folhapress
Velório José Eduardo Dutra

Panfletos contra o PT e o governo distribuídos no velório do ex-presidente da Petrobras e do PT José Eduardo Dutra

Dois fatos ocorridos nesta semana expuseram com uma clareza assustadora a forma como parte significativa da sociedade brasileira naturaliza a prática de maldades extremas. A divulgação de uma pesquisa do Datafolha dando conta de que 50% dos entrevistados concordam com a afirmação de que "bandido bom é bandido morto" e a distribuição de panfletos com pregação de ódio no velório do petista José Eduardo Dutra são expressões de uma boçalidade social perigosa e da banalidade do mal, tão bem descrita por Hannah Arendt.


Como se sabe, a filósofa alemã cunhou a expressão “banalidade do mal” após ser convidada pela revista New Yorker para fazer a cobertura do julgamento de Adolf Eichmann, coronel da SS responsável pelos campos de concentração nazistas.

Os artigos dela sobre este caso apresentaram uma visão absolutamente criativa e singular não só do processo, mas daquilo que ela viu como a causa maior da violência extrema praticada pelo regime de Hitler: o mal não é um fenômeno radical, complexo e profundo; ao contrário, é sempre superficial, banal. É extremo, como no caso do nazismo, mas é banal, o que significa que, salvo exceções, não é produzido por indivíduos doentes, cruéis e psicóticos.

Essa visão, inclusive, a colocou em conflito não apenas com os segmentos autoritários de direita, mas também com os judeus, que esperavam dela, uma judia, uma posição mais subjetiva, passional, contaminada, talvez, pelo desejo de vingança.

O que ela assinalou, no entanto, foi que naquele caso, como na maioria das vezes, o mal havia sido praticado por uma pessoa comum, que acreditava estar cumprindo sua função social, executando ordens, agindo de acordo com aquilo que lhe parecia justo, razoável.   


É interessante observar que o discurso da psicopatia passou a ser usado correntemente, como se inclusive as maldades cotidianas fossem causadas por psicopatas – o que é uma visão deturpada do que seja o desvio mental, construída em boa parte pela popularidade de livros superficiais sobre o tema. O fato é que nem sempre o mal extremo é produto de doença, de um distúrbio clínico grave. 

No entanto, esse aspecto banal do mal praticado por pessoas comuns, como Arendt também identificou, é muito mais perigoso do que o praticado pelo psicopata, já que é um mal sistêmico, coletivo e impessoal.

Vale ressaltar que as crenças religiosas e as ideologias advindas do entendimento do que seja justo e bom para determinados grupos gerou muito mais mal à humanidade do que as pequenas e grandes corrupções. Grandes genocídios nasceram de processos semelhantes.

É esse tipo de mal que se observa nos dois fatos citados no início deste texto. A pesquisa que constata o apoio à afirmação de que “bandido bom é bandido morto” demonstra que uma parcela grande da nossa sociedade enxerga no pobre suspeito de cometer crime um inimigo, ou seja, um ser humano desprovido de qualquer proteção jurídica, política e até mesmo teológica, cuja vida é considerada sem qualquer valor.

Desumanizar, retirar a condição humana do objeto da violência faz parte do processo de naturalização do mal. Como bem observou o professor Ladislau Dowbor, em artigo sobre o filme Hannah Arent, de Margarethe von Trotta, torturar um semelhante choca os valores herdados ou assimilados. Assim, salienta, é preciso suprimir a humanidade e categorizar o inimigo: o judeu, o comunista, o terrorista, o bandido.  

No velório de José Eduardo Dutra, o desrespeito aos seus familiares, amigos e a quem mais estivesse sofrendo a sua perda pode ser entendido como uma desumanidade. Ora, ainda que se tratasse ali de um assassino sanguinário, teria o direito de ser enterrado com dignidade, em paz.

Quem, após um mínimo de reflexão, teria coragem de ultrapassar esse limite, de escarnecer diante da dor de filhos que velavam um pai? Mas, paradoxalmente, não são monstros as pessoas que fizeram e distribuíram os panfletos e/ou protestaram em frente ao local do velório; são pessoas normais, de classe média, cristãos, talvez, e, acima de tudo, pessoas que entendiam estar fazendo justiça ou apenas expressando um descontentamento. 

O mais assustador, entretanto, não é a conduta dos que empunharam cartazes ofensivos em um velório, mas o acolhimento social a esse tipo de prática. A irracionalidade daqueles que apoiam e encontram justificativas para a violência, buscando validar como aceitável o que ocorreu, revela uma falta de ética e de criticidade absoluta. Ao mesmo tempo, nos alerta para o fato de que o mal extremo está inserido em nossa sociedade de forma sistêmica.

Parcela da nossa sociedade, irrefletidamente, e talvez apenas para se sentir acolhida, pertencente, em sintonia com o discurso midiático e do senso comum, naturaliza o mal, aplaude linchamentos – reais ou virtuais – se regozija diante do sofrimento infligido àquele que não ostenta os seus signos, ou os signos que gostaria de possuir. 

Há algo muito perigoso nesse caldo de maldade que ganha corpo a cada dia e é preciso evitar que ele entorne. Uma sociedade que entende que matar bandido é normal, que não reconhece os direitos inerentes a qualquer ser humano, que naturaliza e banaliza o mal é terreno fértil para a semente do fascismo.