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Sociedade

Crônica do Menalton

A morte banalizada

por Menalton Braff publicado 01/01/2015 12h59, última modificação 11/06/2015 18h19
Adianta desejar um ano de 2015 com paz e harmonia entre povos e nações? Já começo a me bandear para o clube dos descrentes
Fernando Frazão/ Agência Brasil
Morte banalizada

A morte é uma vizinha conhecida. Sua carantonha está sempre do outro lado da janela

Sentir é claro que sentimos. Quarenta jovens estudantes ceifados assim sem nada que justifique ou que pelo menos explique por que tiveram suas vidas interrompidas não é motivo para graça nenhuma. Mas sentir não é suficiente. É necessário entender.

Por que o serial killer tornou-se uma figura tão frequente nos noticiários norte-americanos?

Os especialistas vão dar suas explicações de especialistas. Enquanto eles não chegam, vamos nós tentando entender, à nossa maneira, o que está na base do fenômeno.

Apesar de ter sido um fato ocorrido no México, e não se tratar de execução em massa dentro de alguma escola do interior do Texas, ou de Montana, o caso nos obriga a pensar um pouco, pelo menos, no que tem sido o modo de encarar a morte neste nosso século sanguinolento. Nenhum povo, no mundo, está tão acostumado com a morte como o povo dos Estados Unidos. Podemos começar a entender o fato pelo cinema a que eles assistem. No meu tempo de criança, eram os faroestes, em que o mocinho era exaltado por ter matado muitos bandidos, que eram execrados por terem matado alguém. Era morte, e nos botavam a torcer barulhentamente quando o Trigger do Roy Rogers riscava a tela com seu corpo baio e elegante. Depois vieram os enlatados policiais. O cavalo foi substituído pelo automóvel, só isso. Os tiroteios continuaram os mesmos.

As armas de brinquedo são Best Sellers, ao norte do Rio Grande. Incentiva-se, dessa maneira, o hábito de matar. Em crianças é que eles se iniciam nos treinamentos. Mas é claro, país que precisa de soldados aptos a matar, tem de formá-los desde cedo.

Mata-se no Iraque, mata-se no Afeganistão, a morte é uma vizinha conhecida. Sua carantonha está sempre do outro lado da janela. É só abrir e cumprimentá-la.

Um povo que se diverte vendo ou lendo histórias de assassinatos pode até chorar sobre os corpos dos seus estudantes tão frequentemente executados. O que não pode, por absoluta falta de coerência, é estranhar tais acontecimentos.

Alguém pode questionar (sempre tem alguém que questiona, felizmente), mas e os suicidas árabes, homens e mulheres bombas, aquilo não é pior? Pior ou melhor, aqui não é o local para essa discussão, o fato é que não se trata da morte banalizada, sem razão. Essa é uma questão religiosa. Discutível, claro, mas assunto que caberia analisar em outra oportunidade.

Adianta desejar um ano de 2015 com paz e harmonia entre povos e nações? Já começo a me bandear para o clube dos descrentes. Desejar sempre se deseja, mas isso não passa dos últimos dias de um ano que termina e dos primeiros dias do ano que se inicia. Depois, a gente esquece tudo.