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Tão Gomes

A maldição midiática

por Tão Gomes — publicado 09/12/2011 14h50, última modificação 09/12/2011 17h20
Qual professor de curso de jornalismo teria a coragem de explicar ao seu aluninho que ele precisa muitas vezes se fazer de idiota para obter uma informação?
Diploma uitreiking HAN Engineering 1 juli 2011

Estudamos quatro anos para espalhar preconceitos, reforçar o sexismo, e jogar para a plateia. Foto: Flickr

Vou meter o bedelho num assunto que não entendo. Mas essa é a vida do jornalista. Mexer com coisas que não entende.

Se for um especialista escrevendo, digamos, sobre biologia, já não é um texto de jornalista.

O especialista em biologia teria de passar pode suas idéias numa entrevista a um jornalista. Com um intermediário, aí  já se configuraria a prática do jornalismo. Entenderam?

Não? Não tem importância, até porque uma das coisas mais difíceis de se explicar é o que é a profissão de jornalista.

Num texto recente aqui no site da Carta Capital, o Gianni Carta, nosso editor, mexeu no assunto e recebeu toneladas de comentários. Não perguntei, mas creio que na maioria favoráveis à exigência do diploma.

O Gianni Carta provocou a ira das massas quando disse que o  escocês Andrew Marr, ex-editor do The Independent e da revista Economist, tem a que eu acho a mais feliz definição do jornalista: “Tirando o crime organizado, o jornalismo é a mais poderosa e agradável anti-profissão”.

Gianni já vai avisando que Andrew Marr causaria um grande alvoroço no Senado brasileiro.

Inclusive porque não é jornalista. Formou-seem letras. E os senadores tupiniquins (faz tempo que não uso essa palavra...) já aprovaram, na Comissão de Justiça, uma emenda constitucional que exige o porte (a palavra “porte” está muito bem colocada aqui) do diploma de jornalista para o indivíduo ou a individua ser considerada um/uma profissional.

Ninguém nasce com a vocação de jornalista. Podem ver os primeiros garranchos dos seus filhos, quando têm 2 ou 3 anos, e portanto ainda algum discernimento.

Tem de tudo ali: casinha com chaminé, retrato da mãe (grandona) e do pai (pequenininho), aviões, o sol e seus raios, etc... Nenhuma criança nessa idade desenharia o ambiente tenso, enfumaçado, cheio de ratazanas, que caracterizariam uma redação.

O que um diploma acrescentaria na vida de um jornalista?

Ah...sim. Aprenderia que um jornalista precisa ser 100% ético (gargalhadas, gargalhadas, quase engasgo) além de isento e objetivo (de novo, gargalhadas, pô, dessa vez engasgo mesmo).

Ético, isento e objetivo.... Como são, é claro, os senhores senadores. Bastaria ver como funcionam as Comissões de Ética do nosso Congresso. (toss...toss)

Para ser ético, o jornalista não deveria ter opinião sobre coisa alguma. Deve tomar o cuidado de colocar qualquer ideia ou afirmação entre aspas.

Aliás é o que se vê hoje na chamada grande imprensa. Uma sucessão interminável de declarações sempre entre aspas.

Haja saco, com perdão da palavra.

Qual professor de curso de jornalismo teria a coragem de explicar ao seu aluninho que ele precisa muitas vezes se fazer de idiota para obter uma informação: “... mas então foi assim que o senhor conseguiu essa abóbora gigante?

Fingir-se de bobo é a técnica usada por um dos maiores repórteres brasileiros de todos os tempos, o Zé Hamilton Ribeiro, que a pratica com freqüência no Globo Rural.

Outro item importante é pertencer aos “sindicatos de setoristas”, ou seja, depois de uma coletiva, já na sala de imprensa, é preciso combinar com os coleguinhas como cada um vai usar o que o entrevistador disse.

Isso evita que um improvável repórter inovador chame a atenção para algum detalhe, além de padronizar o texto dos vários jornais, que, em tese, são concorrentes.

Outra coisa que o jornalista precisa aprender no curso: numa entrevista, as respostas devem ser mais longas do que as perguntas. A não ser no caso do entrevistado ser mudo...

Isso tudo é “ensinável” num bom curso de jornalismo.

O resto, infelizmente senhores senadores, ninguém ensina a ninguém.

A curiosidade específica, o nunca se dar por vencido, o de acreditar duvidando e especialmente o ato de escrever bem, e fácil, isso não se aprende no colégio. Isso o cara nasce sabendo.

E o velho truque de usar a emoção para agarrar o leitor pelas quatro patas, que eu repetia  sempre desde o tempo em que adestrava focas.

Quantos aprenderam?... Poucos.

Depois, velho, cidadão só vira jornalista quando todas as outras portas se fecharam para ele.

É a chamada maldição midiática.

E ainda querem exigir diploma para isso.

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