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Sociedade

Crônica do Menalton

A invenção da roda (2)

por Menalton Braff publicado 08/11/2014 14h55
Nada existe neste vasto universo cuja invenção mais vezes se repita do que a roda

Nada existe neste vasto universo cuja invenção mais vezes se repita do que a roda. Toda hora aparece alguém imaginando que, desgastando-se os cantos do quadrado até encontrar uma figura com todos os pontos equidistantes do centro, pode-se obter a forma perfeita. Tem muita gente por aí fazendo isso com exagerado empenho.

Assisti, tempos atrás, a uma entrevista com um diretor do cinema nacional em que ele afirmou, com o olhar de quem acabava de inventar a roda, que muito já se falou dos excluídos e que o novo passo adiante, dado por ele, evidentemente, era mostrar o excluído falando de si mesmo. Diríamos que se trata de um Neonaturalismo, não fosse a ausência quase absoluta de um projeto organizado com base em algum fundamento filosófico, Hippoliyte Taine e Auguste Comte que o digam.

Há vários enfoques que o assunto merece, e não só nosso espaço como também nossa competência são limitados. Mas vamos lá. Seria bom que o diretor em causa se lembrasse do cinema italiano, em sua vertente neorrealista. Em 1978, cerca de trinta e seis anos atrás, o diretor Ermanno Olmi dava à luz o premiadíssimo A árvore dos tamancos. E seu filme era uma novidade. O elenco era formado pelos camponeses de uma aldeia na província de Bérgamo, na Itália. Não havia atores profissionais. Figurantes, protagonistas e antagonistas eram todos habitantes do local em que se desenrolava a história.

E mesmo isso, essa ânsia do artista em copiar a realidade, em reduzir a arte a mera reprodução do existente, me parece um equívoco. E me valho da sabedoria de um dos maiores intelectuais que já nasceram neste país: Mário de Andrade.

É de seu “Prefácio interessantíssimo” a seguinte passagem: “Belo da arte: arbitrário, convencional, transitório − questão de moda. Belo da natureza: imutável, objetivo, natural − tem a eternidade que a natureza tiver. Arte não consegue reproduzir natureza, nem este é seu fim”.

Precisa mais?

Ora, então nos valemos do velho e bom Aristóteles que, em seu livro Poética, postula, cerca de mais de 350 anos antes de Cristo, que o historiador está preso a fatos acontecidos, ao passo que o poeta cria os fatos que poderiam acontecer. Em miúdos: a arte recria o mundo em lugar de reproduzi-lo. Se você discorda, discuta com o Aristóteles, que inventou essas coisas, porque eu, coitado de mim, mal consigo reproduzir minha imagem no espelho.

E como estudar demanda certo esforço, nós aqui em Bruzundanga preferimos inventar a roda. Tem gente por aí achando que encher uma página de palavrões é o canal, significa modernidade. E a tchurma toda se delicia achando que é o último grito em arte. Apollinaire, Aretino, o próprio Jorge Amado, nessa hora, entortam a boca em sorriso de mofa. E “sorriso de mofa”, não vai tornando-se já um palavrão?