Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / A eternidade vai acabar

Sociedade

Crônica

A eternidade vai acabar

por Menalton Braff publicado 15/03/2014 23h02
Houve um tempo que tudo me parecia eterno. Era um mundo parado, sem movimento, em que o verbo esgotar não entrava
Agência Brasil
Água

"Não haverá mais água potável, porque os aquíferos já foram poluídos ou também secaram."

Houve um tempo que tudo me parecia eterno. Era um mundo parado, sem movimento, em que o verbo esgotar não entrava. Meu pai era um homem imenso, seus poderes não tinham limite. Era um tempo e um mundo muito confortáveis. Ah, sim, e a noção de tempo, da passagem do tempo, ainda não me angustiava. Eu seria um ser muito pequeno e dependente de meu pai, com toda aquela altura. Para sempre, por enquanto eram sintagmas que não cabiam na minha gramática reduzida a umas poucas palavras cujas combinações começava a ensaiar.

Se o tempo passa por nós ou se nós passamos pelo tempo, aqui não importa. São questões com que os filósofos se descabelam, mas firmar posição a respeito não nos vai ajudar muito. Para o que nos interessa, o tempo existe.

Depois daquelas ingenuidades infantis, de que a memória já não retém grande coisa, vieram tempos mais modernos, em que a desconfiança passou a gerir os negócios dos homens. A desconfiança e a convicção de que um dia não haverá mais florestas, então os rios poderão estar secos; não haverá mais água potável, porque os aquíferos já foram poluídos ou também secaram. Tempos secos, serão aqueles. Alguém viu onde foi parar a gasolina? Só os mais velhos, conservados ainda como arquivos da memória humana, só eles ainda saberão o que era a gasolina.

Vivemos em tempos de buracos negros, de camada de ozônio, de tsunamis, el niño, e tantos outros tormentos com que a natureza nos ameaça. Alguns gostam de pensar que ela, a natureza, começa a se vingar de tudo que o homem, “um bicho da terra tão pequeno”, vem praticando com e contra ela. Ora, ora, vingança é sentimento, mesquinho, que seja, mas é sentimento e sentimento é exclusivo de seres animados.

Passei outro dia pela rua Itatiaia e vi três mulheres conversando escoradas em rodos. Elas deveriam estar lavando a calçada. Pelo menos, era o que me dizia o bico da mangueira, por onde um jorro da mais bela, da mais pura água do aquífero Guarani, fazia um belo arco e se arrojava na calçada. Para elas, numa rua que de pedra faz seu início, o tempo não existe e os recursos da natureza são eternos. Nunca olharam para o céu, é bem provável, para consultar as nuvens, que ultimamente andam bastante esquivas.

Essas mulheres, na certa, ainda vivem sob o signo da abastança daqueles tempos em que tudo era eterno. Mas a eternidade vai acabar. As reservas de petróleo estão-se exaurindo, nossos estoques de verde, de florestas, já estão no vermelho. E a água potável, até quando ainda a teremos?