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A embriaguez no futebol

por Socrates — publicado 14/09/2010 16h56, última modificação 14/09/2010 16h56
Sejamos dionisíacos, e deixemos que nossos afetos sejam excitados e intensificados. Durante a copa africana, por sinal, Cruyff clamava justamente por isso, criticando a “antiarte” que levamos aos campos

Sejamos dionisíacos, e deixemos que nossos afetos sejam excitados e intensificados. Durante a copa africana, por sinal, Cruyff clamava justamente por isso, criticando a “antiarte” que levamos aos campos

Muitas vezes nos surpreendemos com atuações medíocres de determinados jogadores, os quais, como sabemos, jogam muito mais do que naquele instante ou fase. A percepção das causas do fato passa necessariamente pelo estado anímico desse indivíduo, quando chamado a desfilar suas qualidades em campo.

Ou, por outro lado, nos encantamos com a destreza, a beleza, a criatividade e a alegria do talento de determinados atletas que em alguns momentos parecem deuses. Também aqui a sensibilidade, a liberdade, a independência, a clareza e a leveza são decorrentes do estado emocional em que ele se encontra.

Como dizia Nietzsche: “Para que exista arte, para que exista algum fazer e contemplar estético, é imprescindível uma condição fisiológica: a embriaguez. A embriaguez precisa inicialmente ter intensificado a excitabilidade da máquina inteira. Antes disso não se chega a arte alguma. Todos os tipos de embriaguez, por mais distintamente condicionados, têm força para tanto: sobretudo a embriaguez sexual, a mais antiga e mais originária forma de embriaguez. Da mesma maneira, a embriaguez que segue todos os grandes apetites, todos os afetos intensos; a embriaguez da festa, da competição, da façanha, da vitória, todo movimento extremo; a embriaguez da crueldade; a embriaguez na destruição; a embriaguez influenciada por narcóticos; por fim, a embriaguez da vontade, a embriaguez de uma vontade acumulada e intumescida. O essencial da embriaguez é o sentimento de plenitude e intensificação da força. É a partir desse sentimento que damos às coisas, que forçamos que tomem de nós, as violentamos – esse processo é chamado de idealização. A idealização não consiste, como geralmente se acredita, em tirar ou subtrair o que é pequeno, secundário. O decisivo, antes, é um colossal transbordar dos traços principais, de modo que os demais desaparecem”.

Todos os rituais respeitados por quase todos os atletas – e cada um deles possui um ritual exclusivo que se manifesta nos instantes que antecedem uma partida, além daqueles que são originários da mobilização coletiva – têm como objetivo básico a busca da embriaguez plena.

O tipo de embriaguez que buscam depende do caráter e da personalidade de cada indivíduo, e de tudo aquilo que ele está vivendo em determinado momento. E nem sempre essas particularidades permitem que ele encontre a embriaguez necessária para o pleno desempenho ou a entrega ao que se propõe a fazer. Daí a diversidade do tipo e da essência da arte que consegue extrair de seu ser ou da não arte que deixa de se esconder de seu autor e transparece mesmo contra a vontade do mesmo.

E aí voltamos ao filósofo: “Só na embriaguez enriquecemos todas as coisas com a nossa própria plenitude: o que se vê, o que se quer, é visto intumescido, apinhado, enérgico, sobrecarregado de força. O homem que se encontra nesse estado transforma as coisas até que reflitam o seu poder – até que sejam reflexos de sua perfeição. Esse ter de transformar em perfeição é arte. Mesmo tudo aquilo que ele não é se torna, apesar disso, um deleite consigo mesmo; na arte, o homem goza a si próprio como perfeição”.

E é nesse estado de embriaguez que se baseia o futebol brasileiro. É o que encanta todos os amantes do futebol chamado de arte. É o que nos faz diferentes de todo o resto da humanidade no quesito futebol. Nenhuma cultura consegue chegar perto daquilo que podemos mostrar dentro de um campo de futebol.

Sejamos dionisíacos; deixemos que nossos sistemas de afetos sejam excitados e intensificados. Isto é, descarreguemos tudo o que é expressivo de uma só vez; liberemos a força de representar, imitar, transfigurar e transformar, bem como nossa teatralidade. É para o que clamava Cruyff, durante o mundial da África do Sul, nos chamando a atenção para o que estávamos escondendo, camuflando, omitindo. E isso só ocorreu porque ali se buscava a “antiarte”. Aquela que é exatamente o estado contrário do que somos instintivamente – de modo que fizemos com que todas as coisas se tornassem pobres, rarefeitas, esgotadas.

De fato, a história é rica de agentes da “antiarte”, esfomeados que são da vida: são os que, necessariamente, precisam se apossar das coisas, consumi-las, deixá-las mais magras, secas e mortas.

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