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Sociedade

Especial - 50 anos do golpe

A ditadura vista da escola: uma memória

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 11/03/2014 10h07, última modificação 12/03/2014 12h12
Não havia como escapar do clima de repressão: oito anos de doutrinação tosca e forçada na escola deixaram em mim uma aversão ao hino nacional
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bandeira

'Doutrinação resultou em aversão a símbolos patrióticos'

Como a ditadura afetou infâncias e juventudes? No meu caso, menino de classe média criado no bairro do Planalto Paulista, em São Paulo, de forma bem visível. Do golpe em si, ocorrido aos meus seis anos, tenho vagas lembranças: recordo minha avó a me levar para longe de uma manifestação no centro da cidade, provavelmente um pouco antes, e de meu pai conversar com meu tio sobre o que achava que ia acontecer, creio que pouco depois.

Na escola, porém, não havia como escapar do clima de repressão. Meu pai não era exatamente um direitista – pelo contrário, deixou Portugal, em parte, por rejeitar o salazarismo –, mas tinha ideias conservadoras sobre disciplina e educação. Escolheu para mim, e depois para meu irmão, um “Ateneu” particular, ainda existente, dirigido por um imigrante húngaro que, como vim a compreender muito mais tarde, era um fascista, talvez mesmo um refugiado da queda do regime do almirante Horthy, aliado de Hitler cujo país acabou ocupado por tropas soviéticas no fim da II Guerra Mundial. Curiosamente foi a mesma escola onde estudou o atual prefeito Fernando Haddad, alguns anos depois.

Que os alunos (meninos e meninas em metades separadas dos pátios e das salas de aula) tivessem de se alinhar em ordem unida quando tocava o sinal, alinhados do mais baixo ao mais alto, talvez nem fosse excepcional para a época. Nem que tivessem de cantar o hino nacional. E depois rezar o pai-nosso ao iniciar as aulas. Mas é constrangedor lembrar que o alinhamento de cada fila de alunos era vigiado e supervisionado por um deles, distinguido por bom comportamento com uma braçadeira verde e amarela, mesmo se não tenho certeza se a analogia mais correta é com um Kapo de campo de concentração ou com um Rottenführer da Juventude Hitlerista.

Houve um episódio, que não presenciei, no qual algum militante jogou panfletos de esquerda para dentro do pátio da escola. A polícia foi chamada e várias crianças interrogadas para se tentar descobrir algo sobre os “terroristas”. Lembro-me do “golpe dentro do golpe”, quando o diretor chamou alunos de sete a onze anos para explicar por que a junta militar havia tomado o poder após o AVC do ditador Costa e Silva. Não me lembro dos detalhes da explicação ou se chegou a mencionar o nome de Pedro Aleixo, mas sim da sensação de que devia ter acontecido algo muito errado para que o velho autoritário sentisse a necessidade de  dar às crianças uma hesitante justificativa.

Seguiram-se o retrato do ditador Garrastazu Médici no corredor e das canções e trabalhos escolares de exaltação obrigatória ao regime, principalmente na época do “alargamento” do mar territorial para 200 milhas, da Copa de 1970, da construção da Transamazônica e do Sesquicentenário da Independência. Das aulas de Educação Moral e Cívica, dadas por um búlgaro cujo maior orgulho era ter lutado na guerra por seu país, ou seja, ao lado do Eixo e em nome do regime filonazista de Bogdan Filov e Dobri Bozhilov. Não à toa, era um dos favoritos da diretoria. Nelas aprendíamos as virtudes das eleições indiretas e da subordinação do indivíduo à Família, desta à Pátria da nação a Deus ou a uma Igreja ideal (a real tinha uma relação mais complicada com o regime) e por que o patriotismo era a maior das virtudes. Por estranho que pareça, as aulas de Educação Física eram quase igualmente doutrinárias. Na maior parte do tempo, consistiam em fazer crianças do fundamental (na época, primário e ginásio) marcharem pelo pátio, obedecer comandos militares (“direita, volver”), como se estivessem às vésperas de prestar o serviço militar.

Ao lado das aulas teóricas de reacionarismo, havia aulas práticas de nepotismo. A professora de música, inamovível por ser cunhada do diretor, era uma completa incompetente, incapaz de fazer alunos de 11 ou 12 anos fazer mais do que decorar trivialidades do beabá da teoria musical e desafinar em coro. Seu repertório era constituído da soma das mais ridículas e antiquadas canções de roda infantis com os hinos cívicos e militares oficiais. O que tinha de mais moderno e popular eram as canções ufanistas de Don e Ravel.

A maioria dos demais professores se mostrava, porém, menos afinada com o regime do país e da escola. Daí a intromissão constante do diretor nas aulas e de professores repreendidos por deixar alunos debater e dar sua opinião sobre um assunto ou outro – e de uma professora demitida por ser homenageada pelos alunos por ser democrática. E do medo de fazer uma pergunta “errada”. Foi meu caso durante uma prova de geografia, na qual por alguma razão a professora havia faltado e o diretor a aplicou. Uma das questões mandava listar os países da América Central. Perguntei se isso incluía as ilhas. “Que ilhas? Dê um exemplo”, pediu ele. Eu, pensado em termos estritamente geográficos, citei Cuba. “Cuba não é uma ilha, é uma ameaça para o Brasil e o mundo”, explodiu ele, furioso. Não, não era para incluir as ilhas.

Esses oito anos de doutrinação tosca e forçada deixaram a mim, e provavelmente a muitos outros da minha geração e seguintes, uma aversão quase instintiva a cantar o hino nacional, aos desfiles e festas da Independência e outros símbolos patrióticos, festejados com naturalidade em tantos países da América Latina. Um caso exemplar foi uma comemoração de “Dia da Árvore” (21 de setembro) com direito a hinos, jograis, desfile pseudomilitar, discurso cívico e desfraldar da bandeira, tudo para acompanhar o plantio de uma muda em frente à escola. No dia seguinte, a pobre arvorezinha e a cerquinha que a protegia apareceram completamente despedaçadas, como se tivessem alguma culpa daquilo tudo.

Em casa, conversas e alusões sobre política eram desencorajadas. Havia uma tia a quem perguntei o que era comunista e ela disse que era uma pessoa que matava outra arrancando pedaços do seu corpo. Havia uma avó cujas ideias eram uma mistura de getulismo, racismo e vago anti-imperialismo, confusa demais para proporcionar uma visão alternativa consistente dos fatos. Ao fim do ginásio (9° ano, em termos atuais), eu estava farto do autoritarismo do Ateneu, mas só ao passar ao segundo grau, no Colégio Arquidiocesano, onde havia um pouco mais de abertura para professores progressistas, pude acompanhar discussões de questões sociais e políticas e alunos mais maduros e interessados. Apesar de ter também vícios autoritários, hoje ridículos.

Alunos homens eram obrigados a cortar cabelos curtos, mas podiam conseguir uma dispensa se provassem que tocavam numa banda de música (alguns as inventavam). Havia obrigatoriedade de participar de missas e, é claro, aulas de religião nas quais se explicava que o ateísmo era absurdo e impossível. A mais atroz foi uma na qual chamaram um rabino para falar de sua religião. Foi constrangedor ouvir um padre argumentar com ele que “só Cristo pôde dizer que era o caminho, a verdade e a vida”. Quem não tinha ideias preconcebidas teve de admitir que o judeu, racional e elegante, ganhou o debate por dez a zero. Mas o início da minha real formação política foram duas viagens à Europa, nas quais meu pai, português, passou em primeiro lugar por sua pátria. A primeira foi em 1973, ainda sob o salazarismo, quando um dos hotéis em que estivemos ficava em frente a uma sede da PIDE, a polícia política do fascismo. A segunda foi em 1975, no auge da Revolução dos Cravos, quando em frente ao hotel se reuniu um grande comício comunista, com direito a inúmeras bandeiras vermelhas. Era a primeira manifestação política que eu via desde aquela driblada por minha avó, quando eu ainda não ia à escola. O contraste foi impressionante e também foi a primeira vez que ouvi pessoas discutirem abertamente o socialismo (juntamente com os lamentos de parentes mais conservadores do ramo luso da minha família).

Quando cheguei à faculdade, o debate político explodia. No meu primeiro ano, logo depois do assassinato de Vladimir Herzog, ocorriam as primeiras passeatas estudantis de São Paulo desde os anos 1960. Apesar da repressão violenta de algumas delas e do AI-5 ainda em plena vigência (cassações de deputados continuaram a ser feitas em 1976 e 1977), tendências estudantis de todos os matizes da esquerda debatiam abertamente – e também alguns de direita, sendo a Opus Dei a mais ativa no meu meio. Nesse período eu me tornei marxista (não ortodoxo, muito menos pelos padrões da época) e participei de manifestações, assembleias e do centro estudantil do meu curso, mas nunca me filiei a nenhuma das tantas organizações que disputavam os estudantes. Não me agradava a maneira como a maioria delas conduzia as assembleias estudantis, nem o discurso dogmático e radicalizado que me soava superficial e pouco coerente com as posturas pessoais (muito menos com a realidade política).

Como eu, muitos daqueles que não eram militantes se interessavam por política e questionavam o sistema. Para  uma turma de Engenharia de Produção da Politécnica, a minha foi surpreendentemente politizada e rebelde, organizando-se várias vezes para criticar e fazer reivindicações junto aos professores e à administração. Claro que não queria dizer muito em comparação a quase qualquer outra faculdade da USP, mas foi o suficiente para levar professores a recomendar a organizações de empresários que não nos contratassem, como soubemos às vésperas da formatura. Atitude mesquinha e perigosa: o regime já caminhava para a abertura, mas o risco de retrocesso ainda existia, como mostrou o atentado do Riocentro, poucos meses depois. E dispensável: minha percepção de que a radicalização tinha muito de superficial se confirmou.

Mais de uma dúzia de meus colegas de curso militaram em organizações trotskistas (principalmente a famosa “Libelu”, avessa a qualquer concessão à democracia burguesa), do PCdoB (“Caminhando”), do PCB (apelidado “Reforma” pelas tendências de discurso mais radical) e da esquerda independente vinda da Ação Popular (“Refazendo”). Mas passados dois anos da formatura, só dois, os que tinham seguido carreira acadêmica, ainda se consideravam de esquerda. Os demais se calavam ou riam embaraçados quando eram lembrados do passado recente. Creio que em geral se tornaram conservadores ou liberais silenciosos, mas pelo menos uma antiga amiga ex-Libelu se tornou ardente malufista, assim como alguns de seus ex-colegas de militância em outros cursos se tornaram Reinaldo Azevedo e Demétrio Magnoli.

*Antonio Luiz M. C. Costa é editor da seção Nosso Mundo de CartaCapital. Seu relato é o segundo de uma série de 50 depoimentos coletados para o especial Ecos da Ditadura, que lembra os 50 anos do golpe militar.