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Sociedade

Maria Rita Kehl

A culpa de não ser feliz e os indignados

por Clara Roman — publicado 03/11/2011 10h27, última modificação 03/11/2011 11h59
A obrigação da felicidade é um subproduto dos movimentos progressistas dos anos 60: do direito a felicidade, passou para a obrigação. Talvez esses movimentos contestem um pouco que o sentido de estar no mundo é ser feliz

A obrigação da felicidade é um subproduto dos movimentos progressistas dos anos 60, dos movimentos de jovens que eram legitimamente progressistas, (que pediam) por liberdade, por direitos, por direito ao prazer, a esquerda aliado aos movimentos operários na França, etc. Enquanto as reivindicações mais políticas foram derrotadas, as reivindicações existenciais, o capitalismo respondeu. O movimento dos anos 60 abriu a passagem, para uma transformação super importante na história do século XX, que é a do capitalismo na sua fase de produção para o capitalismo com ênfase no consumo.

Para você poder dinamizar o consumo, você precisa de um outro sujeito. Você precisa de um sujeito que se sente livre, livre de entrave de culpa, de religião; com direito ao prazer, porque o consumo oferece isso. Com direito a criar o seu próprio estilo, a transgredir, a ir além, bandeiras legítimas dos jovens dos anos 60. E do direito à felicidade, que é um direito até da Revolução Francesa, passa-se para a obrigação da felicidade. Porque aí já é o mercado te dizendo: 'ou você está por dentro das ondas ou você consegue comprar os objetos contemporâneos'. Esse modo de pensar da felicidade obrigatória contribuiu para o aumento das depressões. Porque o sujeito se sente culpado de não ser feliz. Sobretudo os jovens.

 

A obrigação da felicidade e os indignados

 

Talvez os movimentos também se relacionem com essa obrigação da felicidade. Só o fato de as pessoas se disporem a ficar acampados, no Vale do Anhangabaú, o que não é nenhuma rave, sem nenhum conforto, já estão contestando um pouco que o sentido de estar no mundo é ser feliz.

Eu acho que, por um lado, tem a culpa. Tem essa humilhação narcisista de ver os outros e pensar ‘por que eu não sou feliz se os outros são?’ e que leva a muito suicídio na adolescência. Em segundo lugar, porque nossa cultura talvez seja a única que não criou estilos culturais, estéticos, para o sofrimento. Até as igrejas evangélicas, essas mais comerciais, mesmo o cristianismo, que era uma estilística do sofrimento até exagerada, hoje até uma parte das igrejas evangélicas que falam que ‘você está aqui, porque Deus quer te deixar pra cima, que você seja rico’. Parte da existência não encontra mais lugar na cultura para pensar a si mesma. A psicanálise talvez seja a última proposta para explicar o sofrimento.

 

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