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Sociedade

Protestos em SP

A covardia não tem lado

por Matheus Pichonelli publicado 26/10/2013 16h56, última modificação 27/10/2013 07h40
A agressão contra um coronel da PM em SP inverte a lógica dos protestos de junho, baseada no asco à brutalidade
Reprodução
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A agressão contra um coronel da PM em SP inverte a lógica dos protestos: como apoiar quem age (ou atrai quem age) exatamente igual àqueles que dizem combater?

A agressão praticada por um civil não é menos covarde do que a praticada por um militar. Agressão é uma atitude covarde e ponto. Ela provoca estragos diferentes, mas não deixa de ser agressão. E o argumento de que para cada ação há uma reação vale para a física, nunca para humanos.

Em meados de junho, quando boa parte da população engrossou o coro aos primeiros manifestantes que foram às ruas em São Paulo, era possível encontrar todo o tipo de grito no meio da multidão. Se havia um em comum na polifonia era: “não toleramos mais violência; não queremos ser agredidos quando tomamos as ruas para pedir nossos direitos”.

O próprio papel da Polícia Militar de São Paulo foi colocado em xeque durante o alvoroço. Não porque ignora-se a necessidade do combate à criminalidade, como muitos erroneamente tentaram colocar na boca dos rebeldes, mas porque não se tolera o uso desproporcional da força em qualquer situação. Este asco à brutalidade, exposto nos protestos e tantas vezes debatido aqui, não é outro elemento se não a matéria-prima do sentimento que levou a maioria das pessoas às ruas nas principais cidades do País.

As cenas da agressão ao coronel da Polícia Militar Reynaldo Rossi durante o protesto pela tarifa zero de ônibus na sexta-feira 25, em São Paulo, são, até aqui, o principal indício de que o movimento está perdendo o bonde. Desarmado, ele foi cercado por agressores com paus e pedras, e não foi poupado. Como se, diante da chance, os agressores esquecessem da bandeira levantada no auge da mobilização quatro meses atrás: “Sem violência”.

Com os movimentos à flor da pele – em parte graças à incompetência do poder público em garantir a integridade de quem protesta, de quem vigia o protesto e de quem não tem nada com o protesto – parte dos manifestantes agiu exatamente igual àqueles que diziam combater. Resultado: o militar foi levado para o Hospital das Clínicas, com uma fratura na clavícula e ferimentos na cabeça. Tornou-se, assim, vítima da insensatez que as ruas deveriam denunciar.

“Mas a polícia provocou”. “Mas a tensão do momento não permitia cordialidade”. “Mas essa meia dúzia de agressores não representa o movimento”. Nenhum dos três argumentos é errado, mas já não serve para desamarrar uma teia à qual todos, conscientes ou não, agora estão atados. Se a polícia provocou, foi à espera de um revide; portanto, não revidar deveria ser o imperativo preliminar. Se o opressor não permite abraço, não abrace, mas não agrida. Se os agressores não foram pautados pelo núcleo do movimento, o movimento já deveria ter se distanciado deles há tempos; se a visita é incômoda, fecha-se a casa a visitas.

A insistência em um método de sinais claros de esgotamento e a tentativa de justificar o injustificável (de novo: a agressão de um civil não é menos agressão que a de um policial ou qualquer agente do Estado) é o que transforma um movimento promissor em um exercício de enxugar gelo. Depois de junho, a demanda por transporte público mais digno – e, por consequência, por uma cidade mais humana – foi colocada a ferro e fogo em pauta. Foi uma vitória acachapante. Às vésperas de uma eleição, é capital político em estado bruto para obter com todas as letras o compromisso público de qualquer candidato para o encaminhamento das mudanças aclamadas. Não faltaria postulante a bater na porta dos movimentos organizados, em alta com a população, para pedir a benção e oferecer promessas – o cumprimento ou não seria um problema considerável a longo prazo, quando ainda haveria pólvora a gastar nas ruas.

Essa pólvora, no entanto, está sendo queimada antes da hora e em ritmo insustentável. Quando se banaliza a ação, perde-se o norte e se expõe as contradições ainda enrustidas pelas ruas. Uma delas, a de que as ruas não são capazes, por si, de oferecer todas as perguntas nem todas as respostas a que se propõem. No grito, consegue-se muita coisa, é verdade, mas são nos corredores silenciosos da via pública que são acertadas as decisões que de fato mudam a vida privada no atacado, e não no varejo. Religiosos, ruralistas e armamentistas têm direitos e privilégios nos termos da lei não só porque souberam canalizar recursos e energia para formar suas próprias bancadas. Foi porque gritaram menos e se organizaram mais. Para competir à altura, e se quiser garantir amanhã os seus próprios representantes comprometidos com a catraca livre ou qualquer bandeira de nobreza indiscutível, um segundo salto é necessário agora. Este segundo salto será inviável se a ação for resumida a um amontoado disperso de reações agressivas a uma agressão enraizada. Se se resumir a uma disputa contra gigantes, o estado de guerra estará declarado. Nesse embate, até as catracas do Terminal Parque Dom Pedro II sabem onde está o lado mais forte da história.