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A Copa e o paternalismo tosco da esquerda arcaica

Enquanto o morador da comunidade vibra pelo Brasil, o ativista, desconectado da realidade, torce pela Croácia. Por José Antonio Lima
por José Antonio Lima publicado 13/06/2014 10h50, última modificação 13/06/2014 11h58
Yasuyoshi Chiba / AFP
Messi e Neymar no muro

Na favela da Rocinha, em 8 de junho, garoto joga bola em frente a um muro com pinturas dos rostos do argentino Lionel Messi e de Neymar

Não é de hoje que parte da esquerda brasileira vive uma realidade completamente diversa daquela experimentada pelo povo. A tentativa de lançar, contra a ditadura, uma revolução campesina no momento em que o País se urbanizava de forma frenética, entrou para a história como um erro grosseiro. Em 2014, ações deslocadas do mundo real persistem, e o alvo é a Copa do Mundo.

Nesta sexta-feira 13, a Folha de S.Paulo traz uma reportagem simples e genial, assinada por Patrícia Campos Mello. O texto mostra como, na favela do Moinho, no centro de São Paulo, ativistas não moradores da comunidade foram até o local para torcer pela Croácia contra o Brasil. Era uma concessão, revela a jornalista, uma vez que o plano inicial era ignorar a partida de abertura da Copa. O ato dos ativistas contrastava, conta a reportagem, com o dos moradores, que exigiram a transmissão do jogo nos locais públicos e torceram pelo Brasil.

De fato, abundam motivos para torcer contra a seleção. Essa é, no entanto, uma escolha individual. Tentar impor a torcida contra, por outro lado, constitui uma violência psicológica, que denota o paternalismo e o arcaísmo de parte da esquerda brasileira.

O paternalismo deriva da soberba. O ativista acredita que tem o monopólio da verdade, enquanto o morador, alvo de sua ação social, é incapaz de tomar decisões sozinho. Como um profeta, ele entra na comunidade para pregar que “a Copa está comprada” e que “a vitória da seleção será a vitória de Dilma” (aqui, ironicamente, se unindo aos radicais do outro lado do espectro político). No fim deste raciocínio limítrofe está, como um pote de ouro na ponta do arco-íris, a ideia de que a derrota da seleção colocará fim às inúmeras mazelas brasileiras. É como se a vitória da Argentina na final da Copa fosse capaz de instalar automaticamente rede de esgoto na outra metade das residências brasileiras que não têm o serviço.

Ao mesmo tempo, a ação mostra a incapacidade deste setor da esquerda de se atualizar e perceber que qualquer ativismo político só terá resultado se for baseado na vida real. Para tanto, esse ativismo precisa arregimentar apoio, incluindo de quem vai ser apoiado. Assim, entrar em uma comunidade para combater a "alienação do trabalhador" e dizer que o morador não tem direito de ter determinado sentimento (no caso, a vontade de torcer para a seleção) é um acinte. Mesmo reconhecendo os desmandos da CBF e os absurdos na organização da Copa, alguém pode optar conscientemente por ignorá-los durante o mundial para desfrutar de algum tempo de qualidade com sua família, amigos e comunidade. Isso, aliás, é o que milhões de brasileiros fazem a cada quatro anos há algumas décadas. Ao ignorar a alegria que a Copa do Mundo traz e negar tal felicidade, os ativistas mostram desconhecer a vida real e excluem quem deveriam incluir.

É perfeitamente possível amar o futebol, torcer pela seleção brasileira e parar para ver a Copa do Mundo sem que isso implique alienação ou apoio ao sistema e aos absurdos produzidos por ele. Para os ativistas que foram à favela do Moinho, isso é uma contradição. Para os moradores da comunidade, é a vida normal.

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