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A ciência à deriva

por Thomaz Wood Jr. publicado 30/05/2011 16h19, última modificação 30/05/2011 16h19
O número de artigos científicos com ao menos um autor residente no Brasil aumentou seis vezes, passando de 3.176 para mais de 19 mil. Mas esse crescimento tem circuntâncias heterogêneas

Investir (bem) em Pesquisa e Desenvolvimento é essencial para qualquer país que aspire ter um lugar ao sol. Investir (bem) em Pesquisa e Desenvolvimento em Administração de Empresas é essencial para qualquer país que pretenda gerir adequadamente seus recursos e ajudar suas organizações a prestarem bons serviços e suas empresas a serem competitivas.

O Brasil vem crescendo de forma gradual em termos de número de publicações científicas e de seu impacto, medido pelas citações de trabalhos de brasileiros por outros pesquisadores. Dados da newsletter Science Watch, da Thomson Reuters, mostram que, entre 1989 e 2007, o número de artigos científicos com ao menos um autor residente no Brasil aumentou seis vezes, passando de 3.176 para mais de 19 mil. Com isso, a participação brasileira na literatura científica mundial passou de 0,56% para 2,02%.

Em editorial publicado em número recente da RAE-revista de administração de empresas, uma publicação acadêmica da FGV-Eaesp, Eduardo Henrique Diniz chama a atenção para esse avanço apreciável e necessário. No entanto, observa o editor, a evolução foi heterogênea. Algumas áreas comandaram o movimento, tais como as Ciências Agrárias, a Microbiologia e as Ciências do Ambiente. Enquanto seus pesquisadores contribuíram significativamente para o avanço do conhecimento em seus respectivos campos, os colegas da Psicologia, da Ciência da Computação e da Economia e Negócios puxaram os números para baixo.

Tratando especificamente do campo da Administração de Empresas (Negócios), Diniz lembra que o aumento quantitativo da produção científica no campo não tem sido acompanhado por um aumento qualitativo. Há anos, crescem vigorosamente no Brasil os grupos de pesquisa, os congressos e as revistas científicas. Para o observador casual, temos pesquisadores e temos pesquisa. Porém, quando se verifica a qualidade ou utilidade do que é pesquisado e publicado, conclui-se que os resultados são pífios. Levantamentos e análises sobre o impacto da produção científica local são desanimadores. Aparentemente, nem nossos próprios pesquisadores utilizam o que eles mesmos pesquisam, escrevem e publicam. Além disso, achar um pesquisador brasileiro em um periódico científico internacional de renome é como encontrar Wally nas intrincadas ilustrações do britânico Martin Handford.

A Administração de Empresas é uma ciência aplicada. Seus cientistas deveriam se orientar para a solução de problemas reais. E estes existem em abundância. Em um país com consideráveis deficiências de gestão, como o Brasil, a contribuição desses pesquisadores poderia ser notável. Infelizmente, isso não é o que ocorre.

O leitor mais atento haverá de questionar: por que, então, as universidades públicas e privadas gastam recursos preciosos e escassos com pesquisa de utilidade duvidosa? Por que as agências governamentais de fomento continuam- custeando viagens e participações em congressos (que -geralmente acontecem em hotéis cheios de estrelas)?

Os vícios são muitos e as respostas são variadas, mas há um vilão: a construção de um sistema fechado e corporativista voltado para interesses próprios, disputando honrarias de valor questionável e buscando prestígio e legitimidade diante de entidades avaliadoras.

Nossos acadêmicos frequentemente se comportam como povos das montanhas, arredios, isolando-se em suas cavernas, governadas por suas próprias sombras. Por outro lado, nossos executivos, seus supostos interlocutores, comportam-se como povos litorâneos, sempre a mirar o oceano, à espreita de novidades. Eles são impulsivos e surfam desajeitadamente cada onda que surge no horizonte. Os montanheses veem os litorâneos como seres superficiais, cujo culto de gurus norte-americanos e indianos revela uma insustentável leveza intelectual. Os litorâneos veem os montanheses como refugo do mercado, seres de pouca inclinação para o trabalho, relegados pela ausência de qualificações às salas de aula e às teses.

Por que o sistema não muda? Grande inércia e pequena política têm se mostrado eficazes para evitar rupturas. Assim, avançamos com pompa e circunstância rumo aos píncaros da inutilidade acadêmica.

Seria cabível considerar o sucateamento do sistema atual de avaliação, mantido pela Capes? Desejável, sim, suficiente, não. Igualmente importante seria orientar os recursos para temas relevantes, de interesse do País e de suas- organizações. Além, é claro, de realizar esforços para aproximar montanheses e litorâneos, tarefa para a qual é preciso ter vontade política e coragem para quebrar costumes arraigados. Infelizmente, essas são duas atitudes ainda raras no meio acadêmico.

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