Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / A bicicleta como meio de transporte: é possível?

Sociedade

Sociedade

A bicicleta como meio de transporte: é possível?

por Clara Roman — publicado 22/06/2011 13h05, última modificação 23/06/2011 12h15
Câmara Municipal de São Paulo tem novos projetos para incentivar o uso das bikes. Movimentos pontuais aumentam pelo País
A bicicleta cada vez mais como meio de transporte

Propostas melhoraram, mas nada garante que a vida dos ciclistas ficará mais fácil. Foto: Gonzalo Cuéllar Masilla

Na semana passada, mais um ciclista foi vítima do trânsito paulistano. Antonio Bertolucci, de 68 anos, morreu na Avenida Sumaré na segunda-feira 13 de junho. Presidente do Conselho de Administração do Grupo Lorenzetti, sua morte chamou atenção da mídia e despertou novamente a questão da segurança de ciclistas em São Paulo. A discussão é bastante intensa na Câmara Municipal, onde pipocam projetos para instituir mais benefícios para quem opte por circular de bicicleta e aumentar o investimento em ciclovias. Segundo o vereador Chico Macena (PT), presidente da CET durante a gestão da prefeita Marta Suplicy e que encabeça dois desses projetos, a Câmara tem, cada vez mais, reconhecido a bicicleta como veículo e instrumento de mobilidade urbana, e não apenas como instrumento de lazer.

Macena participa das discussões do PL  655/09, que implementa alterações no Sistema Cicloviário do Município e que segue agora para a Comissão de Política Urbana, onde passará por audiência pública.  O Sistema foi criado em 2007 e instituiu ciclofaixas, aumentou o número de bicicletários e permitiu a entrada de bicicletas em vagões especiais. As medidas tinham como objetivo aumentar o uso de bicicletas para locomoção em São Paulo, mas, um ano depois, ativistas perceberam que os resultados tinham sido pouco efetivos.

Se as modificações forem de fato implementadas, os ciclistas terão permissão para transportar bicicletas dobráveis em trem, metro e ônibus e terão vagas garantidas para seus veículos em estacionamentos públicos e privados. Além disso, a lei implanta o Conselho Municipal de Melhoramentos Cicloviários, que conduzirá todo o processo. A alteração, além de advertência, prevê multas de 1000 reais e até cassação de alvará de funcionamento para aqueles estabelecimentos que não cumprirem as medidas. Nas discussões para a formulação das alterações, além de autoridades, participaram também ciclistas que atuam em movimentos sociais para melhorar a implantação de políticas públicas para o transporte de bicicletas, os chamados cicloativistas.

Outro projeto do vereador Macena sobre o mesmo tema está na Comissão de Política Urbana para avaliação e foi aprovado no dia 15 na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal. Com o  PL 561/2010, 10% dos recursos obtidos com multas de trânsito serão destinados ao planejamento cicloviário, valor que corresponde a cerca de 66 milhões de reais por ano, segundo o vereador. Com isso, poderiam ser construídos 100 quilômetros de ciclovias, ciclofaixas, faixas compartilhadas e rotas de ciclismo na cidade anualmente.

A Prefeitura afirma, no entanto, já estar tomando providências para reduzir a mortalidade de ciclistas em São Paulo, com a implantação do Programa de Proteção ao Pedestre e de 55 km de ciclovias. Em março, a CET contratou projeto executivo para três novas pistas exclusivas para ciclistas, além dos 45 km de ciclofaixas, abertas apenas no fim de semana.

Casos de atropelamentos de ciclistas, no entanto, ainda são constantes e cada vez mais, chamam a atenção da mídia. Em 2010, foram 49 mortos, o que representa queda de 19% em relação a 2009. Mesmo com número de mortes bastante alto, pesquisa realizada  pelo metrô em 2007 mostra que foi o tipo de transporte que mais cresceu nos últimos dez anos. São 156 mil viagens diárias na cidade e 300 mil na região metropolitana, o que representa aumento de 183%. Macena afirma que 96% são deslocamentos para o trabalho, compras e estudos.

A própria prefeitura admite que ainda há muito o que ser feito para melhorar a condição dos ciclistas. Apressar os investimentos, criar e ampliar infraestruturas, e aplicar mais em educação de trânsito e mudança de cultura são, segundo o vereador, as ferramentas para tornar o trânsito paulistano mais propício para a prática. Macena diz ainda que os investimentos são feitos de modo muito lento pela prefeitura. “Temos 522 km de ciclovias em projetos, mas destes, apenas 10 km foram realizados”, exemplifica.

Iniciativas ganharam força na última década

Sem que haja um movimento nacional, nos últimos anos começaram a aparecer iniciativas pontuais para transformar a bicicleta em meio de transporte.

Em 2006, o governo do estado de São Paulo publicou lei de incentivo ao transporte por bicicletas. Porém, o texto era protocolar e não criava de fato nenhuma política pública sobre o tema, apenas registrava intenções de melhoria na área.

Um ano antes, no entanto, a cidade de Santos já tinha implantado uma medida muito mais efetiva e instaurado a obrigatoriedade de espaço reservado para bicicletas nos estacionamentos comerciais. Santos é uma espécie de referência na regulamentação de políticas para ciclistas, com ciclovia extensa no canal principal e possibilidade efetiva de transporte por bicicletas.

Na capital paulista, a partir de 2007 a ONG Parada Vital organizou um sistema de empréstimo e estacionamento de bikes. Financiado por empresas privadas, consiste em bicicletários espalhados por diferentes pontos da cidade, sobretudo em estações de metrô. A idéia é emprestar a bicicleta gratuitamente para cumprir pequenas distâncias. Por isso, na primeira hora, o uso é gratuito e só são cobradas as demais horas. O ciclista pode também estacionar seus veículos nos diferentes pontos.

Recentemente, Salvador também aprovou projeto na Câmara Municipal para implantação de Sistema Cicloviário na cidade. A lei prevê construção de ciclovias, ciclofaixas, faixas compartilhadas e rotas operacionais de ciclismo e a instalação de bicicletários e paraciclos nos lugares de grande fluxo de pessoas.

No Rio, desde 2008, a prefeitura inaugurou em parceria com a empresa Serttel, de Recife, o projeto PedalaRio. Em estações espalhadas pela cidade, o usuário pode alugar bicicletas por valores baixos e andar apenas os trechos que ligam uma estação a outra, possibilitando o transporte efetivo das pessoas. Inspirado em sistema parisiense, o PedalaRio apresentou, no entanto, vários problemas relacionados a atrasos na entrega de estações, interrupções do funcionamento e furtos de veículos.

O “Plano das Bikes Brancas”, organizado por um grupo de entusiastas em Curitiba, é outro projeto inovador para estimular o uso de bicicletas. A idéia, baseada em uma iniciativa do grupo Provos em Amsterdã nos anos 60, é organizar um esquema de empréstimos de bikes gratuitamente. Na capital holandesa, onde andar de bicicleta já é costume instaurado, um grupo espalhou algumas bicicletas brancas pela cidade para quem quisesse usar. Em Curitiba, o projeto começou da mesma forma, mas como parte de um empreendimento artístico de análise de comportamento. Hoje, no entanto, a iniciativa assume um caráter mais social e o empréstimo é controlado através de sistema de e-mails. Qualquer um pode enviar mensagem com seus dados e pegar a bike branca por uma semana nos pontos parceiros (geralmente, bicicletarias que ajudam na manutenção). As bicicletas foram conseguidas através de doações e sua manutenção foi feita com dinheiro de edital público. O projeto conta com 11 bikes que já passaram por 100 usuários diferentes.

Beabá dos ciclistas:

Ciclovia: Via  destinada ao trânsito exclusivo de bicicletas, separada da via pública e das calçadas por obstáculo.
Ciclofaixa: Faixa da via pública separada por sinalização destinada ao trânsito exclusivo de bicicletas.
Faixa-compartilhada: Pista utilizada tanto por veículos motorizados quanto por bicicletas.
Bicicletário: Ponto de apoio ao ciclista com estacionamento de bicicletas. Pode contar com vestiáriose produtos relacionados com o veículo.

registrado em: