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À beira da janela, a floresta

por Gabriel Bonis publicado 06/08/2013 08h40
Condomínios de alto padrão levam mansões e piscinas às matas de Manaus e vendem o imaginário de uma vida luxuosa em meio à natureza
Gabriel Bonis
Floresta

Piscina cercada por área de floresta em Manaus

De Manaus

No meio da mata, surgem casas de alto padrão. Da janela de uma delas, uma moderna mansão de dois andares, o engenheiro civil Arthur Pinheiro da Costa Ramos Neto, de 34 anos, tem uma vista privilegiada: a Floresta Amazônica. O condomínio em que vive está em uma área de quatro milhões de metros quadrados, duas vezes o tamanho do principado de Mônaco, cravada na região do Tarumã, em Manaus, capital do Amazonas. “Acordar com a vista para a floresta é impagável. Tenho que sentir essa paz e todo dia olhar essa exuberância”, conta sorrindo. “Tem o canto dos passarinhos, os macacos passando de um lado para o outro, preguiça, arara, cobra.”

Localizado em Ponta Negra, a área mais nobre da capital manauense, o local integra a rede nacional de condomínios de luxo Alphaville. Em Manaus, a primeira unidade existe desde 2008, quando todos os lotes esgotaram oito horas após o lançamento. Hoje, a franquia vende espaços em mais duas áreas do local. E começa a atrair a atenção dos ricos da região. “Em menos de um ano, houve um boom de interessados”, explica Agnaldo Jenkins, administrador do condomínio.

Mas, em meio à paisagem bucólica e tranquila do local, faltam habitantes humanos. Há apenas seis casas com moradores e outras oito em construção. São menos de 40 pessoas, ante um número bem maior de funcionários para manter limpa a piscina semiolímpica, cercada por árvores gigantes da floresta, além das quadras esportivas e as instalações de lazer.

Somando os três empreendimentos, há mil lotes disponíveis e a previsão de que 7 mil pessoas passem a viver na floresta nos próximos anos. Mas o condomínio não é o único, há outras empresas construindo casas semelhantes na região. “É até engraçado, mas os animais respeitam as casas. Os pássaros, macacos e cobras estão sempre em volta, mas não dentro das residências”, conta Neto.

As cordas amarradas nos topos dos muros para que os macacos circulem pelo condomínio, no entanto, evidenciam o impacto ambiental da obra. Devido à dimensão do complexo Alphaville, a área engloba diversos corpos d’água, como nascentes e igarapés. Entretanto, segundo o Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (Ipaam), um dos órgãos responsáveis pela licença ambiental, a construção não está em Área de Preservação Permanente (APP). “Mas APP’s encontram-se inseridas no complexo, pois nem toda a área é efetivamente APP”, diz o órgão em nota.

Como o interesse ecológico da região é relevante, o licenciamento foi feito em conjunto pelos três órgãos ambientais responsáveis: Ibama, Ipaam e Secretaria de Meio Ambiente de Manaus (Semmas). O condomínio não é irregular, mas exemplifica um processo de crescimento desordenado de Manaus que precisa ser contido, sustenta Kátia Schweickardt, secretária da Semmas. “A sociedade precisa participar do diálogo e preservar o máximo da mata. Hoje, a legislação prevê que empreendimentos precisam manter o mínimo de 5% de área preservada. Mas o plano diretor da cidade está sendo revisto.”

O crescimento desordenado é comum em diversas cidades brasileiras, mas é agravado pelo desrespeito ao zoneamento urbano. “O uso destas áreas de mata sempre passa por algum órgão de controle, mas a administração brasileira não respeita a legislação”, afirma Reinado Correia, geógrafo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). “É comum que os donos destes empreendimentos tenham influencia política para facilitar a construção.”

Para equilibrar o impacto ambiental da obra, a construtora dos condomínios criou uma APP ao longo das margens do Igarapé do Gigante com as características originais, pois os animais da área se movimentam seguindo o curso das águas. No maior dos Alphavilles, há sete áreas de preservação.

O “atrativo” da vida na floresta a 30 minutos do centro de Manaus precisa concorrer com a ausência de sinal de internet e celular. Mas o condomínio tenta “compensar” os futuros moradores com “mimos”. Além das áreas de lazer planejadas com paisagismo, estuda-se a construção de uma marina, diz Jenkins. O local fica próximo ao Rio Tarumã. “É uma área de poder aquisitivo alto, muita gente que vem para cá tem lanchas em marinas próximas.”

Para manter o alto padrão do empreendimento, os interessados em morar ali devem seguir uma “cartilha” para a construção de suas casas. “Não é só comprar o lote e fazer a casa do jeito que quiser”, afirma o administrador. Todas as casas precisam ter dois andares, mas o estilo arquitetônico fica ao gosto do dono.

Toda essa exclusividade custa caro. Os lotes variam entre 200 e 250 mil reais e as construções chegam a 2 milhões. São casas que, como na maioria das áreas ricas do Brasil, exigem como status uma legião de empregados domésticos. Sem carros, para esse contingente de funcionários a distância do centro é longa e a ausência de transporte público um complicador. Nada que não possa ser resolvido, sugere Jenkins. “Oferecemos precariamente transporte para as domésticas. Aqui é tudo mato ainda. Está sendo desbravado.”

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