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A bandeira da liberdade de imprensa como farsa e engodo da grande mídia

por Coluna do Leitor — publicado 01/09/2010 16h32, última modificação 01/09/2010 16h46
A leitora Jennifer Leão estreia sua participação no site de CartaCapital escrevendo sobre mídia e liberdade de expressão

Por Jenifer Leão*

As associações, sindicatos patronais e veículos da grande mídia individualmente têm figurado no polo ativo de grandes questões pertinentes a um direito fundamental da sociedade brasileira, a liberdade de expressão. Dois episódios ilustram os mais recentes embates em torno do tema: a invalidação do diploma de jornalismo pelo STF e os projetos de governo que visam regulamentar a oferta de informação.

Todos são rebatidos sob o argumento de ofensa à liberdade de imprensa. Mas que liberdade é essa, afinal? A Constituição diz que a manifestação do pensamento, a expressão e a plena liberdade de informação jornalística não sofrerão qualquer censura, embaraço ou restrição. Mas também diz claramente que os meios de comunicação não podem ser objeto de oligopólios. E vai além, estabelecendo os princípios norteadores da programação audiovisual: preferência a finalidades educativas, artísticas e informativas; promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente; respeito aos valores éticos da pessoa e da família.

Agora, o que realmente conhecemos hoje como liberdade de imprensa e de expressão?

É a liberdade das elites econômicas do País de controlar e manipular consciências, de disseminar uma visão unipolar do mundo, de monopolizar o direito à expressão, de calar as vozes dissonantes capazes de desestabilizar o status quo. Julgando-se arautos e guardiães da liberdade de imprensa e expressão, eles investem contra toda e qualquer tentativa de discutir os limites da atuação do jornalismo e do entretenimento atual. Qualquer reflexão capaz de questionar o modo como a programação é afetada por decisões de marketing, metas de lucratividade e valores mercadológicos em contraposição a valores sociais – sempre em segundo plano –, causa verdadeiro terror aos magnatas da comunicação.

Basta desligar a TV, parar um minuto e refletir: Quem são os donos da mídia? Quem patrocina os programas? Grandes acionistas e anunciantes elaboram um conteúdo esteticamente preparado para a sedução, a persuasão e o divertimento leve e descomprometido. A eles, não interessa estimular a capacidade crítica de suas audiências, atividade arriscada que poderia levar a um decréscimo inaceitável em seus sempre crescentes faturamentos. Pesados investimentos em publicidade têm destino certo, calculado estatisticamente e medido em variáveis do mercado consumidor, tudo com a mais recente tecnologia a serviço das metas de marketing.

A verdade é que somos disputados pelas marcas o tempo todo. Os anúncios publicitários já encontraram técnicas e métodos de invadir o espaço editorial e nos capturar no meio do programa televisivo ou no meio da leitura da notícia. Contaminado pela ânsia de vender o produto-notícia, o gênero jornalístico já abusa de recursos sensacionalistas para prender a audiência, impedida de desligar a TV ou trocar de canal, sob pena de perder o mais recente e importante desdobramento do crime que mobilizou a opinião pública do País.

As redes sociais na internet, apesar de darem voz e visibilidade a quem de outro modo jamais alcançaria um grande público, continuam sendo produtos e serviços de grandes corporações da internet. Eles oferecem ferramentas com funções idênticas, gratuitas ou pagas, para que você fique cada vez mais tempo conectado em seus domínios. Cada clique se reverte em verba paga ao provedor. Todo movimento é monitorado por softwares de mapeamento de navegação. Seus costumes, gostos, tempo e percurso de navegação, tudo é analisado e armazenado para compor seu perfil como visitante. E oferecer produtos que terão um maior apelo a seus interesses de consumo.

Embora engolfados pelo ritmo das mudanças nas tecnologias, processos e meios de comunicação, não podemos correr o ridículo de soar pessimistas, retrógrados ou saudosistas. Não condenamos necessariamente a inovação midiática, mas sim a apreciação acrítica e alienada de seus instrumentos. Faz-se necessário refletir se o tempo excessivo que o brasileiro passa na internet ou assistindo televisão se converte em benefício para sua formação como ser humano.

Será que a sociedade brasileira está satisfeita com o tipo de informação a que está exposta? Será que abrir um amplo debate junto à população para questionar os termos e limites de exercício da produção cultural como é feita hoje é realmente um ato atentatório à liberdade de imprensa e expressão? É imprescindível desligar a TV, parar um minuto e refletir.

* Jenifer Leão é jornalista, graduada em Comunicação Social – Jornalismo, pela Universidade Federal de Alagoas. Atualmente, cursa Pós-Graduação em Assessoria de Comunicação e Marketing, pelo Centro Universitário – Cesmac.

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