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Sociedade

Violência urbana

A ausência e a presença do Estado e o morticínio da juventude negra

por Jean Wyllys publicado 02/12/2014 20h52, última modificação 03/12/2014 16h50
Vídeos que denunciam o horror quotidiano das periferias urbanas trazem vítimas e vitimários que são, em sua maioria, jovens que deveriam estar na escola
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A polícia militar continua a mesma — como nos demais estados — e não houve qualquer política pública para que ela se tornasse mais humana e comunitária, respeitosa da lei e dos direitos humanos

Recebi uma série de vídeos caseiros extremamente chocantes, aparentemente filmados na Bahia, que não vou compartilhar por respeito às vítimas (mas colocarei à disposição do Ministério Público), e quero dividir com vocês algumas impressões sobre o que vi neles, [email protected] à reflexão.

As imagens mostram o horror quotidiano que se vive em muitas comunidades das periferias urbanas como consequência das guerras de facções, que são por sua vez um subproduto da equivocada política de criminalização das drogas e da miséria e o abandono dessas comunidades por parte do poder público: cenas de violência extrema, espancamentos e ameaças com armas de fogo protagonizadas por crianças e adolescentes cuja altura contrasta com o tamanho das metralhadoras que portam, tudo filmado pelos próprios agressores. Nada que não saibamos que exista, mas o registro vivo das imagens (e o fato de elas terem sido filmadas pelos próprios protagonistas e divulgadas orgulhosamente nas redes sociais) impressiona muito mais do que qualquer conhecimento abstrato. Na maioria dos casos, vítimas e vitimários são jovens que, por sua idade, deveriam estar na escola. As imagens são chocantes porque põem em evidência a miséria afetiva em que eles vivem e o desapreço que chegaram a ter pela vida alheia, bem como a completa ausência de empatia pela dor do outro.

Não é a pobreza em si que engendra esse tipo de comportamento — do contrário, todos os pobres seriam assim —, mas a negação das oportunidades para se construir uma subjetividade com pensamento e empatia; oportunidades que vão das condições de habitação e saneamento básico até o acesso a equipamentos de cultura, passando pela chance de se colocar formalmente no mercado de trabalho e receber em troca um salário digno e possibilidades de progredir na vida, assim como a violação sistemática dos direitos humanos, dia após dia, o abuso e a violência policial e militarização da vida, seja ela pública (policial) ou privada (tráfico e milícias), que produzem uma experiência do quotidiano em que a vida realmente não tem valor nenhum. Tudo isso pode levar à psicopatia e ao prazer no sofrimento do outro.

É nesse sentido que a ausência do Estado produz morticínio tanto quanto a presença dele por meio da violência policial, demandada por uma população assustada com a violência urbana real ou percebida a partir das suas representações em programas de tevê que exploram as notícias de crimes. As guerras entre facções criminosas resultam em mortes e torturas inclusive compartilhadas nas redes sociais, e isso tem a ver com a ausência do estado, enquanto que as mortes provocadas pelas ações da PM têm a ver com sua presença. Ambas as situações se retroalimentam, gerando um círculo vicioso que não acaba nunca.

A Bahia é governada há oito anos pelo PT e nada disso mudou. A polícia militar continua a mesma — como nos demais estados — e não houve qualquer política pública para que ela se tornasse mais humana e comunitária, respeitosa da lei e dos direitos humanos e livre da corrupção e da tendência ao abuso sistemático dos direitos das pessoas que deveria proteger.

É claro que há exceções e há bons policiais, honestos e comprometidos com sua tarefa, mas o problema estrutural não é redutível às individualidades. Ele deve ser encarado de forma sistêmica, e não foi. Muito pelo contrário, essa polícia, com essas características, continuou sendo usada pelos governos para cumprir seu papel de gendarme da pobreza e do conflito social. A polícia não mudou (nem sequer iniciamos o processo de desmilitarização, que seria apenas um primeiro passo, e não houve vontade política de discutir a legalização da maconha, que seria outro passo importante para mudar a política de segurança) porque as condições sistêmicas em que cumpre esse papel não mudaram: muito embora tenham existido avanços sociais e econômicos, não houve uma mudança de fundo na estrutura econômica e social do Brasil. O que a gente está vivendo é um verdadeiro morticínio da juventude pobre e negra deste País, ora pelas guerras entre facções, ora pela ação da polícia, ora pelo encarceramento.

A segunda coisa que me impressionou muito nos vídeos, pelo caminho pelo qual chegaram a meu conhecimento, é o papel da rede social na expressão e exposição da barbárie. A rede também se tornou espaço para o compartilhamento sádico de episódios de violência sob a desculpa de se estar fazendo denúncia, como é o caso destes vídeos, sem que essa divulgação se traduza em ações efetivas de denúncias às polícias ou ao MP para que ações sejam tomadas dentro do sistema legal.

Da mesma maneira que certos programas e noticiários de televisão, especialistas em mostrar sangue e corpos sem vida, as redes também incorporaram esse potencial de morbosidade e sadismo, porém, de forma mais "democrática", já que até os próprios vitimários se aproveitam dela para tornar públicas suas ações, sem que isso produza na maioria das vezes qualquer consequência.