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Sociedade

Usinas do Rio Madeira

A arqueologia agradece

por Tão Gomes — publicado 25/10/2011 08h48, última modificação 27/10/2011 11h11
Em Jirau foram localizados 47 sítios arqueológicos com informações para a reconstrução da vida pré-histórica da região

A guerra ambientalista contra a construção das hidrelétricas do rio Madeira, sustentada por fundamentos científicos, poderia ter outro enfoque caso as preocupações com o meio ambiente dessem lugar a outro tipo de argumentação igualmente científica: a arqueologia.

Na Usina de Jirau, por exemplo, já foram localizados 47 sítios arqueológicos que estão fornecendo informações para a reconstrução da vida pré-histórica da região, até hoje absolutamente desconhecidos.

Entre eles, alguns objetos sugerindo que os habitantes já dominavam técnicas de cerâmica há milhares de anos.

Como revelou o repórter Sergio Adeodato, no jornal Valor (edição de segunda-feira, dia 24 de outubro), o resgate desse passado, digamos, profundo, do território nacional hoje pode ser transformado em negócio. O trabalho de prospecção do subsolo está sendo conduzido por empresas privadas, ou instituições de pesquisa sustentadas por elas.

A arqueologia agradece não apenas à construção de usinas. Na abertura da rodovia que liga o Acre ao Sul do Amazonas foram encontrados dezenas de misteriosas estruturas em formato de polígono. Os arqueólogos ainda não definiram se se tratava de um sistema de defesa ou indícios de que os antigos moradores já dominavam técnicas de agricultura. Já foram descobertos no Acre 210 desses objetos, chamados geoglifos, que deverão ser tombados como patrimônio.

A empresa  Scientia Consultoria, graças às escavações das obras do PAC que vão ligar as usinas do rio Madeira ao sistema elétrico nacional, com linhões de 2,5 mil km de extensão, encontrou cerâmicas indígenas cuja antiguidade ainda está sendo avaliada.  Num projeto de mineração da Vale, na região de Serra Sul, no Pará, estima-se a existência de vestígios de 11 mil anos.

Maria Clara Migliacio, diretora do Centro Nacional de Arqueologia , do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), declarou ao Valor que os investimentos nesse setor já ultrapassam os R$ 15 milhões e abrem o mercado para empresas de prospecção.

Voltando à Usina de Jirau, o consórcio responsável pela obra vai investir R$10 milhões na prospecção e resgate arqueológico. E os planos são ambiciosos. O vilarejo de Nova Mutum Paraná, distrito de Porto Velho, que será inundado pelas águas, receberá um Centro Cultural onde se poderá fazer uma viagem virtual na antiga Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, construída entre 1907 e 1912. O visitante poderá ainda viajar num o trecho de 2 km da ferrovia, numa espécie de museu à céu aberto, encontrando pelo caminho peças de locomotivas antigas e material resgatado pelos arqueólogos. Se tudo funcionar como se espera, visitar Nova Mutum no futuro seria assim um mergulho no passado.

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