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Sociedade

Crônica

A angústia na hora de escolher quem ler (ou evitar)

por Alberto Villas publicado 10/07/2014 12h22
Abro sites, entro em blogs, folheio jornais e me pergunto: Mas afinal, quem vou ler hoje?
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Dona Maria Augusta Toscano, talvez seja a única professora que tive e que me lembro em detalhes. O cabelo curto, as sandálias prateadas e até mesmo os vestidos floridos que ela usava. Foi minha primeira professora no Colégio Marista, em Belo Horizonte, quando ainda havia primário, ginásio e científico.

Foi ela que me ensinou o beabá, num livrinho chamado Lalau, Lili e o Lobo. Foi ela que me mostrou que vovô viu a uva, que me ensinou as primeiras contas de somar, subtrair, multiplicar e dividir. Foi ela que me contou quem descobriu o Brasil, o que eram as Capitanias Hereditárias, quem era Villegagnon, quais eram os afluentes do Rio Amazonas e qual era a capital da Dinamarca.

Foi graças a ela que comecei a gostar de ler. Livros, revistas e jornais. Comecei com A Ilha do Tesouro, de Stevenson, fui pros Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, passei por Moby Dick, de Herman Melville e terminei o ano com Oliver Twist, de Charles Dickens. Ela ficou orgulhosa do seu aluno, o número 1. Não que eu fosse o melhor, longe disso. É que meu nome começa com a letra A e sempre fui o número 1 na chamada.

Fui crescendo e gostando cada vez mais de ler, graças a Dona Maria Augusta Toscano. Na revista Senhor, lá no final dos anos 1960,  procurava em suas páginas por Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Zuenir Ventura, Paulo Francis, Lúcio Rangel, Glauber Rocha, Darcy Ribeiro e tantos outros.

Nos anos 1970, não perdia as crônicas de Rubem Braga e Paulo Mendes Campos na Manchete. Na O Cruzeiro, minha preferida era Rachel de Queiroz e na Veja, bem lá no início, ia direto ler os textos do Millôr no seu Supermercado, duas páginas inteiras da revista.

Nos anos 1980, tive o privilégio de ler Caio Fernando Abreu na lauda do jornal, quando ainda havia lauda. Lia também os primeiros escritos do Xico Sá, do Ademir Assunção, do Nirlando Beirão, antes mesmo de irem  pra gráfica que imprimia o Caderno 2 do Estadão.

Depois de ler os Textos Caribenhos, um calhamaço que reúne a obra jornalística de Gabriel García Marquez, hoje acordei me sentindo quase órfão de jornal. Quem eu quero ler, quem eu leio hoje com gosto? Sinceramente? Antônio Prata, na Folha, e Humberto Werneck no Estadão.

Talvez esteja exagerando um pouco, talvez meus cronistas não se resumam a apenas dois. Tem também o Joaquim e o Arnaldo Bloch, no Globo,  que sempre gosto de ler e tem aquele quadradinho do Ruy Castro, na página 2 da Folha, que sempre leio. Tem também o Gregório Duvivier que, quase sempre, é muito bom. Mas, pensando bem, é pouco.

O que me deixa angustiado hoje em dia é que toda manhã quando vou ler os sites, os blogs ou pego os jornais, saio driblando nomes como se fosse um Garrincha nos campos da Suécia em 1958. Vivo pulando nomes, tentando me livrar deles, aqueles que não quero ler de jeito nenhum. Rodrigo Constantino, Guilherme Fiuza, Marco Antonio Villa, Luiz Felipe Pondé, Reinaldo Azevedo, o Merval, o Jabor, o Nunes, o Madureira, o Lobão, o Motta, por exemplo.

Respiro fundo e sigo em frente. Na esperança de que dias melhores virão.

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