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Sociedade

Entrevista - Toni Reis

"Nós saímos do armário e os conservadores também"

por Marcelo Pellegrini — publicado 31/03/2015 03h40, última modificação 31/03/2015 12h28
Toni Reis, que recentemente ganhou o direito de adotar o jovem Alyson ao lado do marido, fala sobre o ativismo por direitos LGBT em um cenário político conservador
Divulgação

Alyson Miguel foi separado da família ainda criança por motivos de maus-tratos. Antes dos 10 anos, já havia passado por sete diferentes abrigos e fugia de todos, sempre que podia, para voltar à casa de sua mãe. Sob o nome de "castigos", os maus-tratos de casa geralmente se repetiam nos abrigos, a maioria ligados a igrejas. Dessa forma, a conversa e a educação davam lugar a ficar de cabeça para baixo apoiado numa parede, ficar ajoelhado em grãos de feijão ou dormir sem jantar.

Isso perdurou até 2011, quando Alyson foi adotado pelo casal gay Toni Reis e David Harrad. A adoção só foi possível porque naquele ano o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a união homoafetiva e, com isso, concedeu direitos a casais gays e abriu espaço para que eles tivessem direito à adoção. A adoção de Alyson, contudo, demorou dez anos para ser aceita pela justiça.

Uma decisão da ministra Carmen Lúcia, do STF, pode mudar essa realidade. Em 18 de março, a ministra deu parecer favorável a uma ação movida por Toni e David, reconhecendo o direito à adoção por um casal gay. O STF não se deixa ser chantageado pela bancada evangélica. Se não tivesse instituições de Estado como o STF, os gays estariam sendo queimados na fogueira como era na Idade Média ou é no Estado Islâmico”, afirma Toni Reis, que lutou por dez anos na justiça para ter o direito à adoção.

Em entrevista a CartaCapital, Reis fala sobre sua luta pelo direito à adoção e o conservadorismo que domina o Congresso e restringe os direitos LGBT.

CartaCapital: Quanto tempo durou o processo na Justiça pela adoção de seu filho Alyson?
Toni Reis: Foram dez anos de luta. Entramos com o pedido em 2005 e o juiz aprovou o pedido, desde que a criança fosse maior de dez anos e do sexo feminino. Ou seja, uma decisão claramente discriminatória. Por isso, recorremos ao Tribunal de Justiça do Paraná, que deu parecer favorável a nossa causa. No entanto, o Ministério Público recorreu da decisão, alegando que casais gays, como eu e o David, não formávamos uma família.

CC: E quando vocês adotaram o Alyson?
TR: Em 2011, o STF decidiu por unanimidade que a união estável entre casais homoafetivos é igual à união estável entre casais heterossexuais. E isso nos dava chances no campo da adoção também. Por isso, uma juíza  que tem muita identificação com os direitos LGBT, nos procurou dizendo que tinha sob seu cuidado um menino de dez anos que talvez se daria bem conosco. Foi assim que conhecemos Alyson. Nisso passaram-se 10 anos até que, nesta quarta-feira 18, o STF rejeitou o recurso do Ministério Público e validou a adoção do Alyson.

CC: Como foi a reação de Alyson?
TR: No começo ele não queria nos conhecer. Ele dizia que tinha a impressão de que gays eram pessoas nojentas e horrorosas.

CC: Por quê?
TR: Ele foi separado de sua família por conta de maus tratos e sofreu muito com a separação. O Alyson passou por sete abrigos e sempre fugia de volta para a casa da mãe. Nos abrigos, a situação não era muito diferente. A maioria deles é mantida por organizações religiosas, que repreendem e usam castigos bastante desumanos, como ficar de cabeça para baixo apoiado numa parede, ficar ajoelhado em grãos de feijão, ficar sem comer à noite... Lá, ele também ouvia que ser gay, macumbeiro gostar de santos... eram coisas erradas.

CC: E como isso mudou?
TR: Foi muito natural. Só de conviver com a gente e nossos amigos, ele já mudou de ideia. Com dedicação e, sobretudo, amor, Alyson se sentiu finalmente acolhido e hoje faz parte de uma família feliz e está cheio de sonhos.

CC: Quais sonhos?
TR: Ele dança muito bem e quer ser coreógrafo. Ele fez uma apresentação linda na comemoração das minhas bodas com o David. Foi de chorar. Agora, ele faz um curso de extensão em dança na Universidade Federal do Paraná. Ele também fala inglês fluente por causa do David e agora estuda japonês.

CC: É comum ouvir pessoas ligadas às igrejas evangélicas reproduzindo um medo contra políticas LGBT e o discurso de que a homossexualidade deve ser tratada como doença...
TR: A Organização Mundial de Saúde e o Conselho Federal de Medicina já se manifestaram dizendo que não é uma doença.

CC: Ou dizer que a homossexualidade é uma manifestação do demônio. E, com isso, muitos jovens gays, sem apoio familiar, ficam mais vulneráveis...
TR: Eu mesmo sofri demais durante minha adolescência. Minha mãe me mandou para um médico e para a igreja. Primeiro, ela achava que eu estava doente. Depois, achou que tinha uma “pomba-gira” ou que tinha problemas de conduta. É uma tremenda falta de sensibilidade e humanidade. As pessoas têm de entender que nós não queremos destruir a família de ninguém. Nós só queremos construir a nossa família e sermos felizes.

CC: Com o precedente aberto por você, será possível romper com a ideia de demonizar uma família homoafetiva?
TR: Para o gay é sempre mais difícil. A sociedade tradicional obriga o casal hétero a permanecer junto, já o casal gay tem que lutar contra todas as adversidade para permanecer junto. Tem que gostar muito e eu sou super feliz com meu marido. Nós choramos ao trocar votos em nossa boda de 25 anos. Por isso que o STF é nossa diva. A ministra Cármen Lúcia é uma luz no fim do túnel e serve para mostrar para as pessoas que não queremos destruir nada nem ninguém, mas sim construir uma família. Quando aceitaram a união estável entre homossexuais, não vi ninguém defendendo que isso faria as pessoas virarem gay. Eu mesmo falei: “olha Bolsonaro, você não precisa casar com o Malafaia, viu?”. Eu não quero que eles me aceitem, eu quero que eles me respeitem como todo cidadão, que paga impostos. A adoção por casais gays é um direito que deve ser respeitado. Negá-lo é uma afronta aos direitos individuais e um mal para as crianças que estão sob a tutela do Estado por não possuírem família.

CC: A deputada Júlia Marinho (PSC-PA) apresentou uma proposta à Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) impedindo a adoção de crianças por casais homossexuais. Ela alega que uma família de homossexuais “não logra ampla aceitação social” e pode gerar “desgaste psicológico e emocional” na criança adotada...
TR: Eu diria que ela está convidada a fazer um estágio aqui em casa. Temos um quarto de visita, onde ela pode ficar por um mês. Se ela perceber qualquer desvio de conduta nos meus filhos, eu dou razão a ela. Aqui, em casa, nós temos planejamento, rotina, termo de comportamento e de compromisso... tudo certinho entre os três filhinhos. Não é a genitália de um ser humano que vai definir o carácter ou a educação, mas sim o relacionamento em família. Essa lei é uma excrescência.

Tony e família
Alyson, 14 anos, tira uma selfie com seus pais Tony e David e seus irmãos Jéssica, 11, e Felipe, 9 anos, no parque

CC: O presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, Paulo Pimenta (PT-RS), defende que a única forma de ampliar os direitos de minorias com o Congresso atual é mobilizando a opinião pública e contanto com o maior número de colaboradores possíveis, inclusive o Poder Judiciário. Como você enxerga a opinião pública hoje?
TR: Em 1993, o apoio da população à união homoafetiva era de 7%, hoje o índice gira em torno de 50%. A opinião pública avançou muito e o Judiciário percebe esse avanço. A sociedade está mudando, antes não se via gays “fora do armário”. Hoje, eles aparecem nas telenovelas. Antes não tinha beijo gay em público ou em rede nacional, não tinha parada gay, não tinha organização do movimento. Em 1993, tínhamos em torno de cinco organizações no Brasil, hoje temos em torno de 400. Nós “saímos do armário” e os conservadores também saíram, mas contra os nossos direitos. Por isso, o embate.

CC: Hoje, somente o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) é assumidamente gay. Por que o aumento do número de associações LGBT e do apoio da opinião pública não se reflete em uma maior representatividade no Congresso?
TR: A dificuldade está no financiamento de campanha. É preciso ter dinheiro ou fazer uma reforma política. Eu concorri a deputado estadual em 2014, no Paraná pelo PCdoB, e sou uma pessoa conhecida, mas eu tenho votos na classe média e alta e nos formadores de opinião. O que elege são os votos das classes mais humildes, que têm outras demandas, prioridades econômicas mesmo. A comunidade LGBT não tem recursos para financiar as campanhas. Sem uma reforma política, com financiamento público de campanha, fica muito difícil para as minorias. Hoje, a política é “BBB”, ou seja, elege os setores do boi [bancada ruralista], da bala e da Bíblia.

CC: Na sua opinião, faltam políticas públicas para a comunidade LGBT?
TR: Temos que fazê-las sair do papel. Nós fomos executar a política de educação, com o material Brasil Sem Homofobia, em 2015, e foi frustrante. O material levou um ano e meio para ser construído e depois foi barrado pela bancada fundamentalista nas escolas. O exemplo mais recente é a resolução que permite a pessoas transexuais alterarem seu nome social. Agora, a bancada evangélica já quer retirar esse direito. Qualquer iniciativa política no sentido da ampliação dos direitos LGBT é entendida pelos fundamentalistas como um incentivo à homossexualidade. Falta executar as políticas públicas e coragem para enfrentar os fundamentalistas. O STF não se deixa ser chantageado. Se não fosse esse aparato legal, os gays estariam sendo queimados na fogueira como era na Idade Média ou é no Estado Islâmico.

CC: Como ativista da comunidade LGBT, você cogita organizar alguma campanha contra a versão conservadora do Estatuto da Família, fixada entre a relação de homem e mulher? Ou, se aprovada, recorrer ao STF contra a proposta?
TR: Em primeiro lugar, o projeto não passará na Câmara. Se passar, não passará no Senado. Se passar, a presidenta veta e, se isso não acontecer, temos certeza que o STF definirá que a matéria é inconstitucional. Isso não vai passar porque é um sintoma de um extremismo religioso, mas se passar estamos preparados.