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Sociedade

Crônica / Matheus Pichonelli

Alemanha 7 x 1 Brasil: Ainda não vimos nada

por Matheus Pichonelli publicado , última modificação 10/07/2014 17h38
Se prevalecer a lógica do 'inexplicável não se explica', colocaremos anos de alerta sob o tapete. De novo. E o vexame terá sido só um de muitos
Rafael Ribeiro/ CBF
Felipão e comissão técnica

A comissão técnica da seleção, Luiz Felipe Scolari à frente, fala com a imprensa um dia após a derrota para a Alemanha

Existem duas leituras possíveis sobre a derrota por 7 a 1 da seleção brasileira para a Alemanha, nas semifinais da Copa de 2014. Uma é atribuir o fiasco (a goleada, não a desclassificação, compreensível pelas condições normais de pressão e temperatura) a uma pane, uma fatalidade aleatória que nasce e morre na natureza. Outra é também atribuir a sacolada a uma pane, mas uma pane construída, resultado de anos de erros, preguiças e omissões sobre uma série de alertas.

Na coletiva de imprensa do dia seguinte à derrota, Luiz Felipe Scolari optou pela primeira leitura: tomamos quatro gols em seis minutos em um momento de pane. Explicar o que aconteceu nesses seis minutos é explicar o inexplicável, como disse o coordenador técnico Carlos Alberto Parreira ao fazer coro à declaração do goleiro Júlio César ao fim do jogo – ele, que não teve culpa em nenhum dos sete gols, pode dizer isso, mas o técnico tetracampeão, não (para quem já afirmou que o gol é um mero detalhe, nada de novo, a não ser um possível adendo: foram 7 detalhes contra 1).

Pane por pane, caso valesse a lógica da comissão técnica, podemos dizer também que a seleção brasileira só leva cinco estrelas no peito em razão de duas panes: a de Roberto Baggio, quando mandou a bola para a lua na decisão em 94, e a de Oliver Kahn, que soltou a bola no pé do Ronaldo na final de 2002. Não fossem as duas "panes", o último título do Brasil teria sido em 1970. E ninguém por aqui saberia o que é vencer uma Copa após a era Pelé.

Olhando tudo friamente, parece certo, honesto até, concordar que a derrota é consequência do jogo. E sim: é possível vencer ou colocar tudo a perder não em seis, mas em um minuto de desatenção e/ou inspiração. O que aconteceu na semifinal contra a Alemanha, porém, não foi a consequência de um jogo. Foi a consequência de anos de escolhas, de anos de sujeira escondida sob o tapete e que de repente explodiu. Os erros têm naturezas diversas e, embora seja fácil ser engenheiro de obra pronta (ou obra implodida) – ninguém falaria nelas se o Brasil estivesse na final –, falar em renovação parece um caminho inevitável após a hecatombe. Porque simplesmente os pilares da obra estão ao chão, ainda que a comissão técnica diga que chegar à semifinal não é pouco.

A incapacidade de evitar a pane no jogo é resultado de anos de despreparo. O primeiro sinal é o emocional: desde a decisão nos pênaltis contra o Chile estava claro que a equipe não estava pronta para a derrota. E não estar pronta para a derrota é o primeiro flerte com o desespero. Contra o desespero não há Regina Brandão que dê jeito: é como chamar o bombeiro enquanto a brasa e a gasolina seguem queimando dentro da casa.

E por que o time não estava pronto para a derrota? Porque foi colocado na cabeça de cada um dos atletas que o Brasil estava em guerra, que seria uma desonra não levantar a taça no próprio país, que havia inimigos por todos os lados, dos chilenos aos juízes, dos torcedores que não acreditam no País à imprensa espiã – aquela que precisa ser despistada para não levar o segredo industrial ao outro inimigo, o adversário. Por isso Felipão treinou com um time e levou outro a campo. Enganou tanto que levou sete gols.

Observada agora, a escolha de Bernard parece sintetizar a pane programada. O “menino das pernas alegres” pensou ganhar a chance da vida mas foi o primeiro a ser fuzilado. A missão era no mínimo ingrata: com seu 1,63m, e nenhuma partida como titular na Copa, era dele a responsabilidade de substituir o melhor jogador da década em meio a um paredão formado por Boateng (1,92m), Hummels (1,92m), Toni Kross (1,82m), Höwedes (1,87m) e Lahm (1,70m).

Tudo bem se no tabuleiro do jogo tudo corresse como manda o figurino: o Brasil com a bola no chão e a Alemanha, na bola aérea. Mas só quem não acompanhou futebol nos últimos anos e semanas poderia imaginar que o figurino estivesse intacto. O Brasil, por exemplo, precisou de seus zagueiros para marcar os três últimos gols na Copa, todos em lances de bola parada (dos sete gols alemães, seis foram em troca de passe com a bola no chão).

Tudo porque o treinador brasileiro não quis mudar o esquema de jogo para encarar a Alemanha. Pensou que não precisava, como se as equipes estivessem no mesmo patamar. Os quatro gols em seis minutos mostram que não estavam, a começar pelo preparo entre elas: eliminada em casa em 2006, a Alemanha parece ter se concentrado durante oito anos para lidar com qualquer tipo de pane. Foi eliminada em 2010 e seguiu em frente. Manteve o treinador, manteve a base da equipe, aprimorou o campeonato nacional, a ponto de torná-lo o mais interessante em toda a Europa, e chegou ao Brasil voando. Talvez porque estivessem prontos para a derrota. Porque soubessem que ela faz parte do jogo. E saber lidar com ela faz parte da preparação. Todo o resto é pânico diante das circunstâncias, esta que faltou à Alemanha e sobrou ao Brasil.

Se não ganharem esta Copa, e pode ser que não ganhem, é difícil imaginar esta seleção em pânico: os jogadores voltarão às suas equipes, a maioria em seu país, e disputarão torneios de ponta. Terão idade, e repertório, para chegar ainda mais fortes à Rússia em 2018. E talvez sigam sob o comando do mesmo técnico, Joaquim Löw, para quem a Copa não é um fim em si, mas a continuidade de um projeto que já dura oito anos, com viés de alta. Mesmo que não levem a taça, nem aqui nem lá.

Por aqui, em contrapartida, o clima é de território arrasado. A começar pela generosidade das desculpas do treinador: "eles tiveram oito anos para se preparar, nós tivemos um e meio". Mano Menezes, que iniciou o trabalho e convocou 22 de 23 atletas da lista final de Felipão, não ganhou sequer um obrigado. Não é só um deslize: é pura pobreza. Diante dela, 11 em cada 10 analistas falam agora em “renovação necessária”, mas para onde olham não veem terras férteis. À exceção de Neymar, qual foi a grande novidade do futebol brasileiro nos últimos quatro anos? Qual foi o legado das duas últimas Copas? Quem esteve em campo em 2006 e 2010 e criou casca para chegar, experiente e rodado, para a disputa do Mundial de 2014? Quem preparamos para 2018? Quem foram os treinadores que se destacaram na última década? Mais: há terreno para novos Neymar e novos Felipões?

Nos anos 1990, as grandes equipes nacionais eram comandadas por treinadores surgidos na mesma década, que montaram impérios em suas equipes. Felipão foi um deles. Vanderley Luxemburgo também. Os técnicos das décadas anteriores quase não tinham vez: era notório que estavam ultrapassados, com a exceção de Telê Santana, que colheu no começo da década o que plantou nos anos anteriores e se aposentou, em parte devido à limitação física. Nas décadas de 2000 e 2010, os mesmos treinadores dos anos 90, que já não são novidade, seguem no primeiro escalão, embora parte deles aja como técnicos aposentados ainda em atividade. Dos últimos dez campeões brasileiros, apenas Tite e Muricy Ramalho passaram mais de uma temporada em uma mesma equipe (o último passou três no São Paulo e ganhou três títulos nacionais). Marcelo Oliveira, no Cruzeiro, segue o mesmo caminho. Os demais foram limados na primeira crise – também conhecida como três derrotas seguidas – e não conseguiram acumular musculatura e credencias a serem apresentadas como opções para a seleção, que hoje se apega ao passado para voltar às glórias.

Mas como mostrar serviço, acumular musculatura e credenciais com o calendário atual, de dois a três jogos por semana, em campos estourados, arquibancadas sem torcida, categorias de base abandonadas, times sem orçamento e equipes rebaixadas pelo Tapetão? Como, enfim, buscar a maturidade e se equiparar aos profissionais de alto rendimento com tanto amadorismo por todos os lados? Como esperar que do campo tomado por concreto e asfalto brote um canteiro de flores? Trancando esses mesmos profissionais na concentração, como bois em cativeiro intensivo?

Um bom começo, talvez, seja ouvir o que tem a dizer o pessoal do Bom Senso, movimento surgido para mostrar que o rei está nu – e faz tempo. Os alertas estavam por todos os lados, da derrota do Santos para o Barcelona por 8 a 0 à debandada de atletas, como commodities, para países como Ucrânia, Rússia e Turquia.

A empolgação diante da vitória na Copa das Confederações e o avanço, a duras penas, até as semifinais do Mundial colocaram todas essas perguntas debaixo do velho tapete – inclusive deste escriba, e da imprensa esportiva em geral, que vendemos como recebemos ideias sem qualquer observação empírica, entre elas a de que a defesa da Argentina era uma peneira e a brasileira, uma fortaleza. Na vida prática, a teoria era outra, e o jogo contra a Alemanha mostra o quanto estávamos enganados sobre nosso nível de preparo. Mais do que isso, mostra como tudo ainda pode ser pior. Eu, como palmeirense, ficaria feliz se a derrota por 7 a 2 contra o Vitória, na Copa do Brasil de 2002, fosse o fundo do fundo do poço; não só não era como se repetiu, contra o Coritiba, contra o Mirassol, etc.; a cada nova derrota era o respeito a priori que se evaporava: de time temido, o Palmeiras virou objetivo de três pontos dos rivais, mesmo os visitantes.

A correlação é inevitável. Nos primeiros dez minutos de jogo, a Alemanha esperou o Brasil, que jogou, até ali, com a mística: o time era temido porque tinha história, e a cautela alemã era mais um sinal de respeito do que uma estratégia de atração. Em dez minutos o Brasil mostrou que jogava com nome e torcida, mas na primeira troca de passe errada entre Fred e Hulk, deixou claro que daquela cartola não sairia coelho. Em dez minutos a Alemanha abandonou a cautela, viu que não corria risco algum e enfileirou gol a gol para o mundo inteiro assistir e dizer: “viram só, não precisam ter medo: se apertar eles entregam”.

Se a goleada criar jurisprudência, podemos chegar a uma conclusão amarga: éramos temidos e não somos mais. Se outros acreditarem que podem vencer o Brasil, e se o Brasil se fiar na conversa de que tradição e camisa ganham jogo, esta vai ser somente a primeira de muitas goleadas a caminho.

Muller e companhia fizeram, assim, o favor de confirmar, na prática, os alertas de anos anteriores: os reis estão nus (no plural, porque são muitos). Entender a pane contra a Alemanha como consequência desses anos é começar a pensar em começar a fazer algo em torno da papagaiada renovação. Atribuir a pane a um fenômeno da natureza é martelar com pregos um tapete que ainda não explodiu.