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Estudo

50% das queimadas viram gases de efeito estufa

por Redação Carta Capital — publicado 13/10/2011 18h02, última modificação 14/10/2011 15h45
Análise de queimadas controladas permitirão elaboração e estruturação de políticas públicas voltadas para o tema

Para avaliar o impacto das queimadas na atmosfera da terra, na regeneração da floresta e no solo da Amazônia, um grupo de pesquisadores de várias instituições brasileiras realizou na última semana de setembro uma queimada controlada para análise científica de 40 mil metros quadrados de floresta na região de Rio Branco, a capital do Acre.

O estudo, que faz parte do Projeto Temático "Combustão da biomassa de florestas Tropicaos", é coordenado por João Andrade de Carvalho Junior, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Guaratinguetá (SP).  De acordo com Carvalho,

os dados da pesquisa permitirão quantificar os teores de carbono equivalente emitidos durante a queima, avaliar como os nutrientes do solo reagem às altas temperaturas, entender a dinâmica de regeneração natural da vegetação e medir os níveis de partículas no ar que podem causar danos ao sistema respiratório humano.

Os resultados do projeto indicam até agora que a eficiência de combustão é de 50% na área onde foi realizada a queimada. Isto é, metade do estoque de carbono armazenado em um hectare de floresta se transforma, com a queimada, em gases de efeito estufa como CO2 e metano.

Antes de realizar a queimada, de acordo com o professor coordenador do trabalho, é feita uma caracterização de toda a biomassa do local com a instalação de procedimentos de medida de quanto foi queimado em determinado terreno. É por isso que se realiza uma queimada controlada. “Se você chega numa queimada que já esteja ocorrendo, não é possível fazer mediação de biomassa e nem instalar torres e instrumentos de medidas velocidade e precipitação de vento. A queimada que fazemos é controlada no maior nível possível”, afirma.

Em entrevista a Agência Fapesp, Carvalho disse que todos os cuidados são tomados. “Em primeiro lugar é construído um acero: um caminho que deixa um espaço de cerca de 25 metros em relação ao resto da mata, a fim de evitar a propagação do fogo. Além disso, a operação requer a presença de um carro tanque e de uma guarnição do corpo de bombeiro, que acompanha todo o processo”, explicou.

O sítio de Cruzeiro do Sul, experiência de queimada anterior realizada em 2010 pelo projeto, tinha 582 árvores acima de 10 centímetros de diâmetro.  “Uma das árvores tinha entre 95 e 100 centímetros e uma delas tinha mais de um metro de diâmetro. Só essa árvore maior tinha de 8 a 9% do total da biomassa dos quatro hectares. Verificamos que o metano corresponde a cerca de 13% do total das emissões”, disse.

Se o dado obtido na experiência anterior, feita em Cruzeiro do Sul pudesse ser extrapolado para toda a floresta amazônica, os níveis atuais de desmatamento, da ordem de 7 mil quilômetros quadrados anuais, provocariam uma emissão de CO2 equivalente comparável às emissões de cerca de 50 milhões de automóveis.

“Felizmente, o desmatamento caiu muito, mas já tivemos anos em que a devastação chegou a atingir 27,5 mil quilômetros quadrados. Se os dados fossem extrapolados para toda a Amazônia em um ano com desmatamento dessa magnitude, a emissão de CO2 seria comparável à poluição produzida por quase 200 milhões de automóveis”, afirmou.

O estudo é realizado em diversas fases e inclui uma série de avaliações antes, durante e depois da queima.

Dois meses antes da queima, foi realizado o inventário florestal, para identificação e medicão das árvores e a coleta de amostras de solos. A etapa seguinte foi o corte da floresta.

Os resultados das análises serão comparados e servirão para aferir a quantidade de carbono, nutrientes e microorganismos permanecem no solo após a queima. Além disso, será avaliado o que ocorre com a qualidade do ar.

Os resultados do Projeto Temático terão grande importância para a elaboração e estruturação de políticas públicas voltadas para o tema, de acordo com Carvalho.

A equipe, segundo Carvalho – que é engenheiro aeronáutico –, conta com engenheiros químicos, engenheiros mecânicos, biólogos, engenheiros florestais e um médico. “Algumas frentes do projeto estão se dedicando a estudar os impactos da queimada na saúde humana e suas consequências sobre as diversas espécies, como anfíbios e insetos”, disse.

As queimadas controladas têm sido realizadas pelo projeto no Acre e em Mato Grosso. Estudos sobre o tema têm sido financiados pela FAPESP desde 1993 em diversos projetos sucessivos. O estudo deste ano foi feito em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Universidade Federal do Acre (Ufac), a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade de Washington, entre outras instituições.

O atual Temático, iniciado em 2009, prevê a realização de três queimadas. A primeira havia sido realizada na região de Cruzeiro do Sul (Acre), em setembro de 2010. A terceira deverá ser realizada em 2013.

Com informações da Agência Fapesp

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