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Sociedade

50 anos do golpe

50 anos depois, a herança com a qual o golpe nos brindou

por Marsílea Gombata publicado 02/04/2014 10h08, última modificação 02/04/2014 17h16
Cordão da Mentira sai às ruas do centro de São Paulo para lembrar que os resquícios da ditadura civil-militar no Brasil ainda estão presentes
Fotos: Joseh Silva
Cordão da Mentira

O Cordão da Mentira reuniu cerca de mil pessoas na região central de São Paulo

No dia em que o Brasil lembrou os 50 anos desde o golpe civil-militar de 1964, o Cordão da Mentira, coletivo que mistura carnaval, movimentos sociais, teatro e música, saiu às 18h40 do antigo Dops, na Luz, centro de São Paulo, e seguiu para a sede do grupo conservador Tradição, Família e Propriedade (TFP), em Higienópolis, para lembrar que resquícios da ditadura ainda persistem na sociedade e suas heranças parecem, cada vez mais, presentes.

“A pergunta que o cordão sempre colocou é: quando vai acabar a ditadura civil-militar no Brasil? Em maio de 2006 foram mortos quase 500 em 15 dias. Isto foi o que mataram, segundo dados oficiais, durante os 21 anos de ditadura”, afirmou Caio Castor, da Favela do Moinho. “Não apenas restou um aparato da ditadura, mas ele também se intensificou”, disse sobre as chacinas nas periferias e os massacres de indígenas.

Para Debora Maria Silva, fundadora do movimento Mães de Maio, a principal mensagem da manifestação da tarde de terça-feira 1º era mostrar que traços da ditadura ainda estão presentes no cotidiano da periferia. “Quando a gente vê que temos um País produtor de mais de 50 mil mães de maio por ano, então devemos mostrar que a ditadura não acabou. Hoje, 1º de abril, é o dia da mentira. De uma democracia de mentira.”

Na concentração do cordão, em frente ao Memorial da Resistência, um samba do Unidos da Lona Preta, do MST, se encaixava no tema: “Brasil, a luz se apagou/ Quando a águia pousou/ E espalhou no continente a escuridão/ Censura, exílio, clausura/ Pra aprofundar um sistema opressor/ Milagre econômico: que farsa!!!/ “Milágrima” caiu do pau-de-arara/ “Caminhando e cantando”/ A Lona Preta “Vai Passar”/ Gritando contra a ditadura/ Cabou o nome, ficou a estrutura.”

Um dos compositores, Thiago Mendonça, explicou que o processo de criação do cordão tem como origem a roda de samba para os movimentos sociais. “Parte da estética para a política. A ideia é resgatar a memória, mas de modo combativo e não como em um museu.”

Lenira Machado, de 73 anos, ex-militante Partido Revolucionário dos Trabalhadores, via no ato um sinal de vitória daqueles que lutaram contra o regime opressor dos militares. “Estar na rua hoje, lembrando a ditadura nesse país, significa mostrar que a verdade está na rua e todos têm o direito de conhecê-la”, disse a ex-presa política, que entre 1971 e 1972 passou pelo Dops, DOI-Codi e Presídio Tiradentes.

Intervenções. Na primeira parada do bloco, no 3º Distrito Policial, foram feitas projeções de imagens da época da ditadura e lido um manifesto em frente à delegacia da Rua Aurora.

A poucas quadras dali, no Largo do Paissandú, o ator Ighor Walace, do Coletivo de Galochas, preparava-se para encarnar no palco o “poder anacrônico”, com um figurino de veludo azul marinho e um chapéu à la Napoleão com os quais representou um almirante da Marinha britânica, que encenou com os “piratas” uma esquete em frente à Galeria Olido. “Meu personagem representa algum tipo insensato que ainda seria capaz de apoiar o golpe hoje em dia”, explicou.

Dentre as outras alegorias que compunham o cordão havia a de falsos médicos legistas, que vestiam branco e levavam consigo uma placa dizendo: “Faço atestados médicos falsos por 500 reais”. Fizeram parte do cortejo ainda a bateria do bloco do MST, assim como integrantes do cordão que levavam cartazes com fotos de vítimas das ações dos agentes do Estado em maio de 2006 e faixas de pano com rostos de mortos e desaparecidos durante o regime (1964-1985).

Na terceira parada do cordão, a professora de química da USP Ana Rosa Kucinski e seu marido, Wilson Silva, desaparecidos na ditadura, foram homenageados na Praça da República, na região onde foram vistos pela última vez, em 1974, segundo relatos.

Para o professor Sergio Measino, de 43 anos, o ato chama atenção para a permanência das estruturas da ditadura no Brasil. “Não vejo nem como uma herança, mas como algo ainda presente em nossas vidas”, afirmou. “Temos gente desaparecendo, repressão aos estudantes, aos jovens pobres.”

Givanildo Manoel da Silva, o Giva, do Tribunal Popular, do Comitê Popular da Copa e do Comitê pela Desmilitarização da Polícia e da Politica, afirmou que o Brasil caminha para um movimento de intensificação da repressão contra as populações da periferia, principalmente contra a juventude negra e pobre. “Estamos em uma crescente de extermínio de pessoas. O Brasil é hoje o país que mata 50 mil pessoas por ano. Temos um processo de encarceramento em massa crescente no Brasil, segundo o qual só perdemos para a China, os Estados Unidos e a Rússia”, lembrou. “Portanto, se não vivemos declaradamente uma ditadura, temos aspectos muito fortes de que está sendo, de fato, um regime de exceção.”

Antes da reta final do trajeto, foram enviados mais de 80 PMs para acompanhar o cordão que se preparava para passar pela Rua Maria Antonia, palco da batalha entre estudantes da USP e do Mackenzie em 1968. Nela, um ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) que estudava Filosofia no prédio da USP da Maria Antonia esperava o cortejo passar. “O Estado e o Parlamento vão ter de respeitar as indicações da Comissão da Verdade que, se não pedir a revisão da Lei de Anistia, apontará para isso”, disse José Luiz Del Roio, depois de elencar a militarização da polícia, a impunidade e as leis de segurança nacional como heranças diretas da ditadura.

Além do Mães de Maio e do MST, estiveram presentes os movimentos o Movimento Passe Livre, a Fanfarra do M.A.L. e o Margens Clínicas.

Depois de mais de cinco horas de caminhada, a última parada do cordão se deu, estrategicamente, em frente à sede da Tradição, Família e Propriedade (TFP), bastião da direita católica e conservadora na esquina das ruas Maranhão e Itacolomi. Para alguns, como a designer Júlia Toro, de 28 anos, apesar das já velhas, mas ainda importantes reivindicações, imperava o cheiro do novo. “Foi um ato educativo e cultural, que abordou linguagens lúdicas e até participativas. Para mim, foi uma nova forma de fazer manifestação”, disse.