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Entrevista - Alex

“Precisamos envolver os jovens atletas”

por Rodrigo Martins publicado 02/11/2013 06h04, última modificação 04/11/2013 11h57
Para o veterano meia Alex, hoje no Coritiba, o maior desafio do Bom Senso F.C., agora, é engajar os jogadores mais novos
Joel Rocha/CartaCapital
Alex

Alex quer atrair os jovens atletas para o Bom Senso F.C.

Em pouco mais de um mês de existência, o Bom Senso F.C. conseguiu um feito memorável: forçar a CBF a reavaliar a atropelado calendário do futebol. Com a realização da Copa do Mundo no próximo ano, e a paralisação do Campeonato Brasileiro por 45 dias, as férias dos jogadores corriam risco de serem fracionadas por imposição da entidade esportiva. Após a atuação do movimento, com mais de mil adesões, os atletas conseguiram adiar o início dos campeonatos estaduais em 2014, reduzidos a menos encontros, e assegurar o descanso de 30 dias. Para o ano seguinte, restou a promessa de manter intocado o recesso dos jogadores e garantir um período de pré-temporada.

Mesmo sem avanços em outras reivindicações, como o “fair play financeiro” dos clubes e a criação de um comitê de jogadores nas federações esportivas, o resultado foi celebrado por Alex de Souza, um dos pivôs do movimento. “Pela primeira vez fomos ouvidos”, avalia. O craque do Coritiba, que ajudou a classificar a seleção brasileira para a Copa de 2002, considera a democratização da CBF, com a voz dos atletas representada, um sonho distante.

Mas parece ter um plano para não deixar o legado do Bom Senso se perder. “O ponto mais importante é trazer os jovens jogadores, mostrar o potencial que eles têm para participar e argumentar”, afirma, com o olhar perdido para o filho Felipe, de 3 anos, batendo bola no gramado do estádio Cleiton Pereira, em reforma. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

CartaCapital: Como surgiu o movimento Bom Senso?

Alex de Souza: De forma involuntária, no fim da partida entre Coritiba e Internacional. O Juan (zagueiro colorado) é meu amigo de longa data. Quando fomos trocar a camisa, conversamos um pouco e as queixas eram as mesmas. “Pô, tô muito cansado, tá difícil seguir nesse campeonato”. Começamos a trocar mensagens pelo celular. No mesmo dia, o Alessandro (do Corinthians) falou com o Lincoln (Coritiba), e o teor da conversa foi o mesmo. E foi assim por um tempo, troca uma ideia aqui, outra ali. O movimento cresceu com a ajuda da tecnologia, com o Whatsapp (aplicativo de celular). Primeiro procuramos os capitães dos times, os atletas conhecidos, depois procuramos os atletas da segunda e da terceira divisão. Todo mundo começou a conversar. Formou-se uma lista de e-mails. Quando demos conta, havia mais de 70 jogadores, e não parava de crescer. Daí surgiram as reuniões, os encontros com a CBF...

CC: As manifestações de junho serviram de inspiração?

AS: Não tinha relação com os protestos, mas é claro que o momento é propício. Alguns jogadores podem ter se inspirado. Mas o fato é que estava muito difícil jogar todas as partidas, quarta e domingo, quarta e domingo, sem tempo para descansar, para treinar, para os técnicos fazerem algum tipo de mudança.

CC: As insatisfações são antigas. Por que emergiram só agora?

AS: Não sei dizer, mas fico satisfeito que tenha ocorrido. O Afonsinho, lá atrás, brigou pelos direitos dele, ao exigir o passe livre. Em termos coletivos, temos a situação do Corinthians, num contexto político bem definido, da luta pelas Diretas Já. Mas a Democracia Corintiana era de uma só equipe, liderada pelo Sócrates, Casagrande, Wladimir... Ou seja, era um jogador, depois uma equipe. Hoje é outra situação. Começamos com oito ou dez jogadores, e já temos mais de 800 adesões, das três principais divisões do Brasileirão (dois dias após a entrevista, na terça 5, o Bom Senso ultrapassou a marca de mil inscritos).

CC: Como você avalia os resultados obtidos até agora?

AS: A CBF e a Globo se mostraram bem receptivas e solícitas. Pela primeira vez fomos ouvidos, subimos uns dois degraus.

CC: Por que a Globo participou desse encontro na CBF?

AS: A Globo é a dona dos direitos de transmissão dos campeonatos, parceira da CBF em tudo o que diz respeito ao Brasileirão das séries A e B. Não pretendemos discutir patrocínio ou transmissão, e sim agregar valor a este produto que a Globo explora, que é o futebol.

CC: O calendário é tão desgastante assim?

AS: Sem dúvidas. Muitos criticaram: “Pô, os jogadores ganham muito dinheiro e querem jogar menos”. Não é verdade. Queremos jogar o tanto que for necessário, mas jogar com qualidade, suportar o esforço físico, fazer o treinamento adequado. Todo jogador que só disputa partidas tem uma queda em seu rendimento. Há um desgaste físico, um desgaste mental. Repare os jogos dos Brasileirão neste ano. Tivemos vários atletas lesionados, a qualidade técnica dos jogos caiu, isso todos os envolvidos sentem na pele. O treinador, os atletas...

CC: Na Europa é diferente?

AS: Nem cabe comparação. O Brasil é um país continental. Em um dia, estamos jogando contra o Grêmio em Porto Alegre. Três dias depois, estamos em Recife para enfrentar o Náutico. Além da diferença de clima, o trajeto de avião normalmente é feito com várias conexões. O Fenerbahce [clube turco que Alex defendeu entre 2004 e 2012] viajava sempre em voos privativos, isso nenhum clube brasileiro faz. Pode fazer numa situação extraordinária, por conta de um jogo muito importante. Não no dia a dia. Outra diferença é o tempo de preparação.

CC: Na Turquia, quanto tempo durava a pré-temporada?

AS: O menor período que tive no Fenerbahce foi 25 dias, vindo de férias de 30 dias. Além disso, o grande objetivo era ganhar o campeonato nacional e fazer uma boa campanha no europeu. Aqui não. Além do Brasileirão, a Copa do Brasil tem uma grande importância para todos os clubes. A Copa da Turquia era vista pelo Fenerbahce como um bônus, um extra. O treinador podia colocar os reservas para atuar, deixar os titulares descansando um pouco. Por isso, não vejo comparação plausível entre o futebol brasileiro e o europeu. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

CC: E a tentativa de democratizar a CBF, com a criação de um comitê de jogadores na entidade? Não prosperou?

AS: Isso é para o futuro. É bem mais distante, não dá para acontecer agora. Temos três ou quatro décadas de situação enraizada na CBF. Provavelmente não vou ver isso, já estarei aposentado. Hoje em dia a gente sabe como funciona, votam os presidentes das federações estaduais e os representantes dos clubes, sem representação nenhuma dos atletas. Essa é a primeira vez que os jogadores estão sentados numa mesa, sendo ouvidos.

CC: Por que rejeitar a mediação dos sindicatos?

AS: Em setembro, o Alfredo Sampaio (vice-presidente da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol) me procurou para saber a situação dos jogadores. O calendário deste ano iria acabar em 8 de dezembro e os estaduais começariam em 12 de janeiro, sem período de férias ou preparação. Tentamos reverter essa decisão. Para a nossa surpresa, a CBF soltou uma nota dizendo que o calendário iria começar mesmo no início de janeiro. E o sindicato soltou outra nota dizendo que as negociações terminariam ali. Então buscamos essa terceira via. Nessa situação específica, da discussão do calendário, o sindicato meio que lavou as mãos. E os jogadores ficaram insatisfeitos.

CC: Qual é o futuro do Bom Senso FC?

AS: O ponto mais importante é trazer os jovens jogadores, mostrar o potencial que eles têm para participar e argumentar. Se você olhar os jogadores que estão se pronunciando, são em sua maioria veteranos. É o meu caso, do Seedorf [do Botafogo], do Juninho Pernambucano [do Vasco], todos no fim da carreira. Há, evidentemente, outros atletas que ainda têm mais uns quatro, cinco anos pela frente, mas precisamos envolver os jovens atletas.

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