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“Parque Augusta vai ter segurança e wifi”, diz presidente da Setin

por Wanderley Preite Sobrinho — publicado 06/03/2015 15h23, última modificação 06/03/2015 16h47
Em entrevista a CartaCapital, executivo da construtora critica a ocupação do parque e nega a intenção de transformar o bosque tombado pelo Patrimônio Histórico em jardim dos condôminos
Divulgação
Antonio Setin

Executivo da Setin, Antonio Setin compartilha a posse do Parque Augusta com a construtora Cyrela

Nada de baladas, discussões em grupo e mutirão de limpeza. O Parque Augusta terá estrutura “de primeiro mundo” com segurança particular e wifi. O vislumbre é de Antonio Setin, presidente da construtora Setin, que divide com outra gigante do ramo, a Cyrela, a propriedade dos 25 mil m² do terreno que até quarta-feira 4 esteve ocupado por ativistas no centro de São Paulo.

Em entrevista a CartaCapital, o executivo disse representar um grupo de acionistas que ficaria muito contrariado se o espaço fosse entregue à prefeitura por um preço abaixo do mercado, equivalente a 240 milhões de reais. “Nosso objetivo é dar lucro. Ainda assim, se a prefeitura pagar o valor de mercado, não seremos inflexíveis.”

Setin refuta o argumento de que a matrícula do terreno obrigaria a abertura imediata do parque e nega que o destino do bosque tombado pelo Conpresp (órgão de preservação ao Patrimônio Histórico) seja o de “jardim” da torre residencial projetada para o lugar. “Nossa imagem será mais bem avaliada quando as pessoas virem tudo pronto. Será um parque com segurança e wifi.”

Leia a entrevista completa:

CartaCapital: Como a Setin e a Cyrela compraram o terreno?

Antonio Setin: Compramos há oito anos. Foi uma negociação mista, parte em dinheiro, parte em imóveis na região. Em valor atual de mercado, equivale a 10 mil reais o metro quadrado, 240 milhões o espaço total.

CC: As duas empresas venderiam o terreno com algum desconto para a prefeitura construir o parque?

AS: O objetivo de uma empresa é obter resultados para seus acionistas. Imagina se eles descobrem que vendemos abaixo do valor de mercado? Seriamos processados. Olha o que vem acontecendo à Petrobras. Nosso objetivo é dar lucro. Ainda assim, se a prefeitura pagar o valor de mercado, não seremos inflexíveis.

CC: Mas essa não é a primeira opção.

AS: Nossa proposta é destinar ao público 60% do terreno, composto por uma praça e pelo parque, onde existe uma mata tombada [pelo Conpresp]. Essa porção, cedida gratuitamente, equivale a 120 milhões de reais.

CC: E o que a prefeitura diz?

AS: A prefeitura tem sido clara conosco e com o público. Diz que tem outras prioridades, como construir creches. Além disso, estamos doando 60% do terreno para uso público.

CC: Como é o projeto residencial da Cyrela/Setin?

AS: Ele tem a linguagem do baixo Augusta. Por 24 horas terá um shopping com restaurante, café, banco, farmácia, hotel. Uma parte será de escritórios, estúdios para solteiros e apartamentos de 1, 2 e 3 dormitórios. Todo ele nos padrões de primeiro mundo, sem muro nem restrição de acesso. Os edifícios serão baixos (45 metros), metade da média da região porque o Conpresp restringiu a altura com a edição de uma resolução em 2005. Vamos acrescentar árvores nativas ao bosque, mais 10 metros de largura ao longo de seu alinhamento, aumentando a permeabilidade do solo.

CC: Como vocês planejam a preservação do bosque, que é tombado?

AS: A nossa ideia é restaurar com a arrecadação do próprio condomínio. Lá tem muito lixo, entulho e árvores mortas. Essa gestão seria feita pela própria comunidade com participação da prefeitura.

Parque Augusta
O Parque Augusta às vésperas da desapropriação

CC: O que o senhor achou da ocupação cultural por parte dos ativistas?

AS: A propriedade é privada. O bosque e os portões remanescentes do Colégio Des Oiseaux [Dos Pássaros] são tombados, mas estão em uma propriedade privada. É nossa obrigação manter sua guarda e se responsabilizar pela mata. Se ela for queimada, seremos nós os penalizados.

CC: Mas não é uma boa alternativa ocupar com música, intervenção cultural, limpeza, plantio de árvore, como fizeram os coletivos?

AS: Se o terreno é privado, a entrada de estranhos não é natural. Com a saída dos ativistas, tiramos cinco caminhões de lixo. Plantar árvore em um lugar sem autorização pode prejudicar a mata. Se fosse só fazer um encontro, poderiam ter pedido licença ao invés de quebrar o cadeado.

CC: Esse pedido nunca foi feito?

AS: Os antigos proprietários até deixavam, mas quando as invasões começaram, pensamos em fechar porque hoje as árvores estão pintadas, uma casa está pichada.

CC: O bosque tombado não vai acabar se transformando em uma área privativa para o prédio residencial?

AS: A questão de que a mata pode virar quintal dos condôminos é um mito. Na matrícula do terreno está cravado que deverá haver o parque público. Isso vai ser escrito na matrícula dos condôminos e vai ser gerido por pessoas públicas. De qualquer forma, cada condômino poderá descer do prédio e ir ao parque como qualquer cidadão. Isso não significa que será o jardim do condomínio.

CC: Justamente em razão do que diz a matrícula, o portão não deveria estar aberto?

AS: Outro mito. Nenhum documento diz isso. Na década de 1970 incluiu-se a determinação de que, após a criação de um projeto, o proprietário teria a obrigação de preservar, manter e abrir ao público. Portanto, enquanto não houver projeto, não pode haver essa liberação.

CC: Existe um instrumento previsto no Plano Diretor e no Estatuto das Cidades chamado Transferência do Direito de Construir. Nesse caso, a Setin e a Cyrela receberiam da prefeitura títulos equivalentes aos metros quadrados de potencial de construção do parque, garantindo o direito de construir em outro lugar da cidade. O que acha dessa alternativa?

AS: Não aventamos essa possibilidade porque também vai onerar os cofres da prefeitura. Se ela fizer isso, vai subtrair receita do município ao emitir um vale cheque, que também será debitado da conta. Além disso, não temos terreno da região.

CC: A facilitação da transferência do terreno para a prefeitura em favor do parque não poderia melhorar a imagem das construtoras?

AS: As construtoras estão defendendo seus direitos, não estamos fazendo nada que não seja permitido. Nossa imagem será mais bem avaliada quando as pessoas virem o projeto pronto, a vida que ele dará àquela região. Será um parque com segurança e wifi. Isso tudo com custo zero para a prefeitura.

CC: E o que acha de uma guarda compartilhada com os coletivos?

AS: Não acredito em nada que tenha mais de um dono. Nunca fomos ouvidos e, quando a prefeitura nos chamou para a apresentação pública, o comportamento dessas pessoas era inadequado, diziam palavras ruins, xingamentos. Não acho que sejam pessoas com quem possamos compartilhar um mesmo ponto de vista.