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Sociedade

MST - 30 anos

“O governo Dilma não fez nada em termos de reforma agrária”

por Piero Locatelli — publicado 10/02/2014 05h48, última modificação 10/02/2014 16h52
Em entrevista a CartaCapital, o dirigente do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) Gilmar Mauro fala sobre os trinta anos do movimento, que começa nesta segunda o seu VI Congresso
Agência Brasil
MST

Movimento chega aos 30 anos e busca novas formas de organização

O MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) chega aos seus trinta anos buscando novos caminhos diante da paralisia da reforma agrária no movimento e a diminuição da sua mobilização no campo. O movimento começa nesta segunda-feira 10 o seu VI Congresso, logo após o encontro que o estabeleceu completar três décadas. Diante da paralisia da reforma agrária no governo de Dilma Rousseff, o movimento critica a presidenta e buscar traçar os caminhos para o seu objetivo, uma reforma agrária popular.

Gilmar Mauro, dirigente do MST, recebeu a CartaCapital para conversar sobre o que aconteceu com o movimento neste período, os seus desafios daqui para a frente, a importância da agroecologia e explicar o que é a ideia de uma reforma agrária popular. Leia abaixo:

CartaCapital: O MST acaba de completar trinta anos. Quais as maiores vitórias do movimento neste período?

Gilmar Mauro: Foi ter construído uma organização de camponeses que resgatou a história da luta pela terra no Brasil. E ter durado tanto tempo: é a organização camponesa que mais tempo de vida tem. O MST ainda se transformou  em uma referência internacional por causa dessa história, e nós conseguimos manter a unidade interna nesses anos.

Talvez o ingrediente mais importante, olhando para alguém que foi acampado um dia, foi que o MST resgata seres humanos que um dia não tinham nada, não tinham terra e não tinham sequer dignidade. Ele não só resgata esse sujeito como protagonista da sua luta por terra, mas resgata com dignidade e autoestima, o transforma num sujeito crítico.

Nós temos muitas conquistas, mas a reforma agrária como um programa de alteração da estrutura fundiária brasileira ainda não aconteceu no nosso país.

CC: Desde que o MST se organizou, o Brasil se tornou um país ainda mais urbano. As mobilizações da esquerda têm acontecido cada vez mais na cidade. Neste quadro, o campo ainda é um espaço importante de mobilização? Por que a luta pela reforma agrária ainda é importante em um país cada vez mais urbano?

GM: O tema da reforma agrária interessa a toda sociedade, por isso ele é um tema urbano também. E acho que um dos desafios do MST é precisamente isso: colocar para a sociedade algumas questões. Por exemplo: que uso nós queremos dar à terra, à água, à eletricidade, a todos os recursos naturais? Se for esse uso que o capital está dando, não precisa de reforma agrária. Que tipo de comida você quer comer? Que tipo de alimentação a humanidade vai querer? Que tipo de paradigma de produção tecnológica nós queremos? Agora, nós temos que ter consciência de uma coisa: da forma como está, isso gera um profundo impacto ambiental, vai destruir os recursos naturais, provocar o aquecimento do planeta, envenenar o céu, a água e a população. Tem uma mobilização que precisa ser feita pelo campo e pela cidade, para nós construirmos outro jeito de se produzir e distribuir os alimentos.

CC: O senhor concorda com a avaliação de que o MST não tem mais a capacidade de mobilização que teve nos anos 90? Quais as razões para isso?

GM: Há uma mudança inegável. Nos anos 80 e 90, houve um processo de ascenso da luta social no campo muito grande. Vivia-se uma situação de desemprego gravíssimo, e uma situação em que o acampamento era uma alternativa de vida. A partir do incentivo do governo Fernando Henrique à produção de commodities, que passa também por Lula e Dilma, há também um processo de redução do desemprego e alguns programas sociais, e também uma ofensiva do capital contra os movimentos sociais. Não é que a demanda pela reforma agrária diminuiu, mas agora uma grande parte dos trabalhadores tem possibilidade de algum emprego precário, e ele não fica no acampamento como ficava na década de 90.

A partir dos anos 2000 há um descenso da luta pela reforma agrária. Mas não se perdeu de vista a perspectiva dela, o que pode nos levar a qualificar muito mais a luta nos próximos anos.

CC: Qual a avaliação que o movimento faz do governo Dilma?

GM: Uma avaliação ruim. O governo Dilma, em termos de reforma agrária, não fez nada. Tem avanços, programas sociais, e nós não podemos ser ignorantes de falar que tudo é uma porcaria.

Do ponto de vista da construção de perspectivas de alterarmos esse modelo agrícola, é péssimo também. Este modelo atende às necessidades do grande capital, e o capital investe na agricultura como forma de ganhar dinheiro, uma forma de valorização.

CC: E como tem sido o diálogo com a presidenta?

GM: Não fizemos nem uma reunião do MST com ela até hoje. Com o Fernando Henrique, reunimos várias vezes. E com o Lula também. Claro que vamos para Brasília, vai ter quinze mil, vamos fazer uma marcha. Mas que a nossa turma está muito brava, está.

CC: Apesar de “a turma estar muito brava” e de o movimento fazer críticas diretas ao governo, o MST é chamado de “chapa-branca” pela direita e também por setores da esquerda e da direita. A que se devem essas críticas?

É uma disputa ideológica. Eu gostaria que tivéssemos força para fazer a reforma agrária por conta própria, mas isso é irreal. Então o MST tem que fazer luta, e tem que negociar. Porque ele representa uma categoria, e essa categoria se vê representada à medida que se colocam as suas necessidades nas pautas.

Aí de repente se juntam meia dúzia, leem quatro livrinhos, empinam o nariz, se acham todos revolucionários. Mas não tem relação nenhuma com a vida real da classe trabalhadora. E eu não estou fazendo isso a propósito de xingar ninguém, estou fazendo isso como parte de um diagnóstico. Como movimento social, nós temos que responder as necessidades da nossa categoria.

CC: O dinheiro que o MST ganha com as cooperativas e em programas governamentais, como a compra de alimentos, também é lembrado nessas críticas.

GM: Nós estamos dentro do sistema capitalista. E só tem três formas de a classe trabalhadora se manter dentro do sistema capitalista: produzir e vender; vender o que os outros produziram; e vender a própria força de trabalho. O que fazem as nossas cooperativas? Estão inseridas no mercado. O que faz um camponês? Produz, e vende para comprar coisa, sobreviver. Até no socialismo a gente vai ter que trabalhar, mas talvez menos, porque todo mundo vai trabalhar. No capitalismo, se você não trabalhar, não tem outra alternativa.

Quando você conquista uma área, você institucionaliza aquela conquista, legaliza essa conquista. E na medida em que você institucionaliza, evidentemente há um processo de desmobilização. Mas não é o caso, porque nós trabalhamos com a ideia de consciência política. Vamos vincular a luta econômica com a luta política. E até que exista uma família sem terra no Brasil, nós somos todos sem terra.

CC: O MST tem defendido nos últimos anos não somente a reforma agrária, mas a ideia de uma reforma agrária popular. O que esse adjetivo significa?

GM: Nós estamos lutando por uma reforma agrária, mas não a do tipo distributivo e produtivista, embora a reforma agrária seja igual feijoada. Para fazer uma boa, você tem que ter ingredientes: linguiça, carne de porco, bacon, o que quiser. Mas sem feijão não tem feijoada. A reforma agrária é a mesma coisa. A reforma agrária que nós queremos tem que ter terra, informação, cultura, mudar o modelo agrícola. Mas, sem distribuição de terra, não tem reforma agrária.

Então é evidente que tem uma parte de distribuição de terras, mas não é só isso. É pensar a reforma agrária que prepare um novo modelo agrícola para produzir de uma forma diferente, que respeite o meio ambiente. Uma reforma cujo protagonista seja o trabalhador, que não seja dádiva de algum governo.

E eu espero até que não tenhamos mais trinta anos pela frente. Que a gente consiga fazer a reforma agrária antes de completar os 60 anos.

CC: Movimentos sociais com formas de organização distintas conseguiram fazer grandes mobilizações nos últimos anos, como foi em junho do ano passado. Eles são mais descentralizados e sem lideranças tão claras. A organização do MST ainda dá conta da atual conjuntura? O movimento precisa buscar outras formas de se organizar?

GM: Essa pergunta não cabe só ao MST, mas ao conjunto das organizações da classe trabalhadora. A minha impressão é essa também.

Todas as construções organizativas são frutos de um tempo histórico. Os partidos políticos foram criados numa época em que o desenvolvimento do capitalismo permitia ganhos para a classe trabalhadora. O que nós estamos vendo na Europa é o contrário disso, são perdas históricas. No caso brasileiro, há uma particularidade que chamam de pleno emprego, onde há um tipo de conquista. Entretanto, as organizações concebidas pela classe trabalhadora também não dão mais conta de organizar o conjunto da classe. E esse é um desafio que está posto para nós e todo mundo, o desafio de construir organizações de um novo tipo.

Esse formato organizativo do MST é uma espécie de camisa apertada para um menino que cresceu bastante, já está criando dificuldade para seus movimentos. Então é preciso refazer a camisa, não o contrário. Não é colocar o MST numa camiseta pré-estabelecida, é construir outra organização. É um desafio para a esquerda: construir organizações mais horizontais, mais participativas.

Mas não é para começar do zero alegando que o que existe não serve mais. Se fosse assim, não existia história. O que nós produzimos é o que melhor nós podíamos produzir. É preciso ir além do que a gente produziu. E esse é um desafio principalmente da juventude: mudem tudo, virem à mesa, construam novas formas, experimentem. Isso não vai surgir do laboratório, de meia dúzia de intelectuais sabidos. Vai surgir da experimentação cotidiana com erros e acertos, é preciso tomar a iniciativa e fazer. E isso é um desafio para a juventude brasileira, sem jogar na lata de lixo o que a classe trabalhadora produziu até hoje.

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