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O profundo buraco da desigualdade no mundo

por José Antonio Lima publicado 18/10/2013 03h55, última modificação 18/10/2013 04h56
Quem tem bens líquidos acima de R$ 8,6 mil é mais rico que metade dos seres humanos, afirma relatório do banco Credit Suisse. Por José Antonio Lima
Prakash Singh / AFP
Índia

Garota de rua faz contorcionismo em uma esquina de Nova Délhi, na Índia, em busca de trocados

Imagine viver em um país no qual uma pessoa que tem bens líquidos acima de 8,6 mil reais é mais rico que metade da população. Essa é a situação existente hoje, se o mundo for tratado como uma unidade. A informação consta do relatório sobre a riqueza mundial produzido pelo instituto de pesquisas do banco Credit Suisse e divulgado na semana passada. Trata-se de mais uma mostra da profundidade da desigualdade no planeta, onde 1% da população mundial detém 46% da riqueza, enquanto 50% dos seres humanos adultos ficam com 1% da riqueza.

As estimativas do Credit Suisse indicam que a riqueza global chegou a 241 trilhões de dólares em 2013, montante 4,9% acima do registrado em 2012. O país com mais riqueza por adulto é a Suíça, com uma média de 500 mil dólares, seguida por Austrália (403 mil dólares), Noruega (380 mil dólares) e Luxemburgo (315 mil dólares). No mundo todo, o valor médio de riqueza por adulto é de 51,6 mil dólares.

Na vida real, a renda da maioria está bem distante desses valores. Para ser considerado um integrante da metade de cima da pirâmide social mundial, uma pessoa precisa ter bens líquidos (e descontadas as dívidas) avaliados em 4 mil dólares, o equivalente aos 8,6 mil reais. Para adentrar os 10% mais ricos, é necessário ter bens da ordem de 75 mil dólares, ou 162 mil reais. A barreira do 1% é marcada por bens líquidos depois do pagamento de dívidas em valor superior a 753 mil dólares, ou 1,6 milhão de reais.

O relatório do Credit Suisse (em PDF, em inglês) traz uma pirâmide social do mundo mais elaborada, que serve para mostrar discrepâncias ainda maiores. Na base da pirâmide estão 3,2 bilhões de adultos (68,7% do total) que dividem entre si 3% da riqueza mundial (7,3 trilhões de dólares). No topo da pirâmide estão 32 milhões de pessoas (0,7% do total), cujos bens líquidos somam 98,7 trilhões de dólares, ou 41% do total.

Entre o topo e a base estão dois estratos. No segundo, está 7,7% da população mundial que fica com 42,3% da riqueza. No terceiro, 22,9% da população, com 13,7% da riqueza.

De acordo com o estudo, as pessoas da base da pirâmide são de quase todas as regiões do mundo, mas a Índia e o continente africano têm representações desproporcionalmente altas, ao contrário da Europa e da América do Norte. Nos países desenvolvidos, 30% da população faz parte da base, mas este é um “fenômeno cíclico”, associado com a juventude, a velhice ou períodos de desemprego. Na Índia e na África, 90% da população adulta está na base da pirâmide, sendo que em alguns países africanos quase toda a população integra a parte de baixo da pirâmide social do mundo.

Oportunidades iguais?

O relatório lembra que a pirâmide social se altera muito pouco com o passar do tempo. Na versão 2012 do documento (em inglês), o topo da pirâmide era formado por 0,6% da população, que detinha 39,3% da riqueza mundial, enquanto na base estavam 69,3% dos adultos, com 3,3% da riqueza. Há, entretanto, afirma o Credit Suisse, mobilidade significativa entre os estratos da pirâmide. Esta é mais frequente e de maior magnitude quando a oportunidade é mais igualitária entre as diversas pessoas.

A igualdade de oportunidade, entretanto, tem sido abalada nos últimos anos nos países desenvolvidos, em especial na Europa, o melhor, ainda que imperfeito, modelo de igualitarismo existente. Na semana passada, relatório divulgado pela Federação Internacional da Cruz Vermelha mostrou que as medidas de austeridade aplicadas para conter a crise mundial está afetando as pessoas que já eram mais vulneráveis. De acordo com a entidade, os pobres estão ficando mais pobres, há mais gente cuja renda está abaixo da linha da pobreza e a desigualdade está aumentando. Segundo a Cruz Vermelha, as “consequências a longo prazo” da crise ainda estão por vir, uma vez que a questão do desemprego na Europa é uma “bomba-relógio”.

No Brasil, a desigualdade social tem sido reduzida, por conta de programas sociais como o Bolsa Família e do consistente aumento do salário mínimo, mas a disparidade entre as oportunidades oferecidas ainda é monstruosa. No trecho em que trata do Brasil, intitulado "gigante adormecido", o estudo do Credit Suisse aborda a imensa desigualdade no país, lembrando que há 221 mil milionários no Brasil e que 315 mil brasileiros estão no 1% mais rico do mundo. O alto nível de desigualdade, afirma o banco, reflete a alta dispersão de renda, que por sua vez está relacionada "à educação muito desigual na população e à separação entre os setores formal e informal da economia".