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“Empreendedor” na selva

“Empreendedor” na selva Violência e degradação na Amazônia? Para Divaldo Souza, tudo não passa de um “ajuste”
por Felipe Milanez publicado 04/08/2010 11h07, última modificação 04/08/2010 11h07
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Divaldo Santos gosta do "paraíso" onde vive, mas sonha com a França. Fotos: Juliano Ribeiro

“Empreendedor” na selva Violência e degradação na Amazônia? Para Divaldo Souza, tudo não passa de um “ajuste”

Sou um empreendedor nato e de formação. Eu não vim aqui atrás de um sonho.” Logo no início da conversa, o empresário marca o passo. Não chegou à Amazônia para lendas. Foi “pinçado”, em uma “oportunidade rara”, para trabalhar na produção mineral e de ferro-gusa. Foram tempos difíceis, mas ele sempre soube que o futuro seria melhor. “Fui motivado, por isso eu vim parar aqui. O fato de permanecer é porque a região abraçou”, afirma Divaldo Salvador de Souza, de 56 anos.

O sol cai no horizonte. Reflete raios no rio, ilumina a encosta que compõe a margem do Tocantins. Marabá se acende ao fundo. Entardecer bucólico. A vista da varanda é deslumbrante. Estamos em um vale, cercados por duas colinas. Pela curva tangente, onde Souza levantou sua casa, passa a brisa. “Eu que escolhi esse lugar. Tem de ser na curva, para ter essa brisa.” Ele aponta para um trecho rio abaixo, há exatos 1.440 metros dali, onde se nota um terreno desmatado: “Mas isso aqui vai mudar, não vou morar mais aqui. Tô indo embora. Ali começa a Alpa, a Aços Laminados”, aponta. “Ali...”, repete. Um investimento da Vale de 5 bilhões de reais.

O “período de ajuste”, como o empresário explica o turbulento processo pelo qual passa Marabá, anda deixando as coisas instáveis. E a entrada de sua propriedade de 130 hectares está invadida por migrantes sem-teto, a maioria vinda do Maranhão. O empresário quer se mudar.

Não será fácil realocar uma adega de 1,3 mil garrafas, 11 freezers e uma marina com dois barcos. Mas por que dois? “Porque quero ter certeza de que tenho um, então, tenho dois.”

Souza é um sujeito educado, despojado e informal, e me recebe com muita educação – apesar de ter me abordado, escoltado por um segurança, de uma forma não tão hospitaleira na entrada da propriedade (eu ia entrevistar os invasores de sua terra). Informado de que sou jornalista, disse que tinha uma reportagem para me passar, e ofereceu uma entrevista.

“Você vai dar entrevista, é?”, pergunta a esposa. “Sim”, ele diz, voz calma e irônica. Quer mostrar a ela que tudo está tranquilo, e tem o controle da situação que se passa na sua própria varanda. “Mas assim, com esse cabelo feio assim?”, a senhora comenta. Ele ri. “Minha querida, eu sou um amazônida.” E completa: “Já dei muita entrevista de paletó e gravata...”

Sentamos, e ele abre a cachaça. “Essa é boa mesmo, mas de verdade. Olha o prêmio aqui na garrafa. Não é aqueles de revista. Esse é sério. É a minha filha quem produz essa cachaça lá em Minas.”

Migrar do Paraná para Minas Gerais, e em seguida para um lugar distante na Amazônia, em uma fronteira econômica, colocou o empresário de frente a um povo para ele desconhecido. Pela experiência, tenta traduzir seus atuais conterrâneos: “O amazônida é excepcionalmente uma criatura que ensina a amar. O ato de estar envolto o tempo inteiro com a natureza, e ele precisa de muito pouca coisa pra viver aqui”. De uma forma carnal, define: “Parir e morrer é quase a mesma coisa”.

Tomamos cachaça durante a conversa, mas sua bebida preferida, diz, é o vinho. “Pomerol, Santa Emiliana. Eu gosto muito da Borgonha. Pinot Noir, acho fantástico. Curto aquela região.” Na verdade, ele gosta do país inteiro. “Adoro a França, os vinhos. Conheço Paris como conheço Belo Horizonte. Vou ao menos uma vez por ano.” Souza frequenta um curso de francês. Quer se preparar para curtir mais um turismo pelos canais. Conheceu Paris, em 1976, e se apaixonou. “Viena é tão bonito quanto Paris de dia. Mas de noite, Paris mata.”

Alguns desencantos da vida ele explica pela aritmética do vinho. Em 1995, uma fazenda sua de 3.160 hectares, há 30 quilômetros de Marabá, foi invadida pelo Movimento dos Sem Terra, declarada improdutiva pelo Incra e desapropriada. “Quanto me pagaram pela minha terra invadida? 80 mil reais. Isso eu compro em vinho. Isso não é nada. São duas caixas de vinho.”

Ser “empreendedor” na Amazônia não é fácil. Em dois anos, foram três invasões dos sem-terra. Pior, porém, foi ter sido preso em 2006 pela Polícia Federal. Encontraram armamento pesado nesse mesmo sítio onde tomamos uma cachaça admirando o pôr-do-sol. O empresário era procurado pela operação “Aço Forte”, por crime fiscal. Em sua casa havia uma pistola 380, uma espingarda calibre 32, outra calibre 12, cano curto, um rifle calibre 38 de dois canos, uma cartucheira calibre 32 e uma escopeta calibre 12 de repetição e de uso do Exército. Além de muita munição. Segundo um jornal local, ele possuía “um verdadeiro arsenal de guerrilha”.

Souza veio para construir a segunda indústria de ferro- gusa na região e, por isso, acredita, tornou-se importante na cidade. Tem o título de Cidadão Marabaense. E a importância leva às amizades. “Tenho um ciclo de amizades muito grande na Amazônia inteira, não só em Marabá. E são amizades lindas, pessoas que não te cobram nada, não te pedem nada.” A Siderúrgica Marabá, Simara, enfrentou problemas ambientais, como muitas guseiras, por utilizar carvão de mata nativa muitas vezes produzido por trabalhadores em condições análogas à da escravidão.

Problemas graves? Para Souza, não. “Eu chamo de ajuste. É este o momento. Estamos nos desenvolvendo. Não é diferente de nenhum lugar do mundo. Nem mesmo na França. Vamos falar das Cruzadas. Nós não estamos aqui numa época das Cruzadas, definitivamente.”

Os sem-terra que ocupam a área do empresário constroem cabanas de madeira e dividem pequenos lotes. Alguns sentados na rede. Possuem alguns carros. Se mostram assustados quando chego, pois antes eu havia sido interceptado por Souza. Pensaram que eu estava a seu mando. Dizem que ele já mandou matar um, e que ele teria em mãos uma lista com 25 nomes. Recusam entrevistas, são evasivos e preferem que apenas o líder fale. O líder estava em Belém.

Souza nega a acusação. “Não vou lá guerrear com o careta, pintar a cara e ir. Não faz parte do meu negócio, da minha essência. Eu não vou mandar matar ninguém.”

Para o empresário, é grave a situação das invasões de terra no Pará, sobretudo, depois de uma “briga” que ocorreu na estrada PA 150 que terminou com 19 mortos. A “briga” é conhecida mundialmente como o Massacre de Eldorado dos Carajás, e ocorreu em abril de 1996. “Eles estavam ocupando uma estrada, a polícia foi desocupar e houve esse acidente. Vamos chamar de acidente.”

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