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Saúde

Luto na medicina

Morre precursor da pesquisa de câncer

por Gianni Carta publicado 30/11/2011 16h13, última modificação 01/12/2011 06h17
Ricardo Renzo Brentani, falecido na terça-feira 29, tinha um invejável currículo como gestor, professor, pesquisador, médico e formador de instituições
Brentani

Brentani: “Aqui falta pessoal. A desculpa de que aqui não tem dinheiro não vale mais, porque agora tem muito dinheiro”. Foto: Olga Vlahou

“O professor Brentani morreu de um enfarto pouco antes de irmos jantar aqui em São Paulo”, li na terça-feira 29 no e-mail enviado pela doutora Renata Pasqualini, pesquisadora do centro de câncer M.D. Anderson, na Universidade do Texas, em Houston. “Estamos chocados, havíamos, após dar uma aula, passado o dia numa reunião com ele no A.C. Camargo. Ele estava tão contente, cheio de vida. Não conseguimos acreditar que isso tenha acontecido”.

Nem eu. Como Pasqualini, fiquei chocado.

 

 

Acabava de chegar de um jantar quando li o e-mail na terça. Duas semanas atrás passei uma hora entrevistando um bem-humorado Brentani no hospital que presidia, o A.C. Camargo. Aos 75 anos, o carismático doutor Ricardo Renzo Brentani, nascido em Trieste, Itália, trocou as primeiras frases comigo em italiano. Contou histórias engraçadas, foi crítico em relação à pesquisa científica no Brasil, e cobriu de elogios a o trabalho realizado pela sua ex-orientanda Pasqualini e seu marido, o doutor Wadih Arap, ele também pesquisador do M.D. Anderson.

Pasqualini e Arap acabavam de descobrir uma nova fórmula para combater a obesidade nos EUA, tema que era o foco da minha entrevista com Brentani. A nova droga, adipodite, poderá se usada para combater outras doenças, como o câncer e diabetes tipo 2.

Entusiasmado, Brentani – descrito como “uma revolução na área de oncologia” por Riad Younes, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e também ele ex-aluno de Brentani – explicou que Pasqualini e Arap são parceiros do Hospital do Câncer A.C. Camargo por intermédio do M.D. Anderson. Em breve o casal estaria em São Paulo para falar de projetos futuros. O objetivo, segundo Pasqualini, é “forjar um elo mais estruturado entre o nosso laboratório (M.D. Anderson) e a equipe de Brentani”.

A primeira reunião para planejar novos projetos para a equipe de Brentani e Pasqualini e Arap aconteceu ontem, terça, em São Paulo. Pouco antes do jantar com os pesquisadores, ainda em sua casa, Brentani sofreu o enfarto.

Observou Younes, atualmente coordenador de oncologia cirúrgica do Hospital São José da Beneficiência Portuguesa: “Brentani faleceu em plena atividade, estava a todo vapor graças às novas pesquisas. É muito triste”.

Ricardo Brentani tinha um invejável currículo como gestor, professor, pesquisador, médico e formador de instituições. Além de ser o diretor da Fundação Antonio Prudente e, por tabela, do Hospital do Câncer A.C. Camargo, Brentani era diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e coordenador do Centro Antonio Prudente para Pesquisa e Tratamento de Câncer.

Membro da Academia Brasileira de Ciências, recebeu numerosos prêmios e condecorações, como a Ordem Nacional do Mérito Científico (Grã-Cruz).

Brentani, como diz Younes, é mundialmente considerado um dos principais pesquisadores do câncer. Atuava principalmente com estudos relacionados ao papel do nucléolo no processamento do mRNA, à caracterização de mRNAs de colágenos e à adesão celular e metástase.

Graduou-se na FMUSP em 1962, e doutorou-se em 1966 pelo Departamento de Química Fisiológica e Físico-Química na mesma universidade.

Naqueles tempos, Brentani “já estudava a capacidade informacional do nucléolo, um tema que ainda hoje é pouco explorado”, declarou o professor da FMUSP Roger Chammas à Agência FAPESP. “Nas décadas de 1960 e 1970, introduziu pesquisas pioneiras na área atualmente conhecida como biologia molecular, mas que ainda não tinha esse nome. Os estudos dessa época foram precursores da biotecnologia”, acrescentou Chammas.

No início dos anos 1980, Brentani liderou a filial paulista do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer. Logo a instituição se tornaria um centro de referência nacional e internacional de estudos no campo de oncologia. O instituto atrai cientistas de alto nível, como Pasqualini.

No final da década de 1980, lembra Younes, “a única aula de oncologia no curso de medicina da USP que tive foi ministrada pelo Brentani.” Younes, ex-diretor clínico do Hospital Sírio-Libanês, emenda: “Em 20 anos Brentani criou uma disciplina chamada Oncologia e se tornou seu primeiro professor titular”.

Brentani também criou o primeiro curso de pós-graduação em um hospital privado brasileiro, o Hospital do Câncer A.C. Camargo, instituição de referência em pesquisa, ensino e assistência oncológica.

Durante nossa entrevista no A.C. Camargo duas semanas atrás, indaguei a Brentani se é a falta de dinheiro é a razão pela qual o Brasil produz menos em termos de ciência que os Estados Unidos.

“Aqui falta pessoal. Aqui tem pouca gente que entende o que você faz. Nos EUA há uma comunidade científica grande, dá até para ter inimigos (risos). Há com quem trocar ideias, ou discutir. No Brasil isso é mais difícil. A desculpa de que aqui não tem dinheiro não vale mais, porque agora tem dinheiro. E muito dinheiro. O CNPq tem um orçamento bom”.

Antes disso, Brentani havia dito que é melhor não levar certos médicos muito a sério. Ele ilustrou sua tese com a história do dia em que levou sua mãe, Gerda, artista de talento, à época com mais de 80 anos, ao médico. “O médico lhe perguntou se ela ainda trabalhava. Ela disse que sim. O médico lhe disse que ela estava senil. ‘Senil está o senhor’, respondeu minha mãe”.

Rimos muito.

É esse Brentani bem-humorado e crítico que guardarei na memória.

O velório de Ricardo Renzo Brentani aconteceu quarta-feira 10 no velório José Ermírio de Moraes do Hospital A.C. Camargo. O sepultamento ocorreu às 12h30 no Cemitério do Morumbi.

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