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Número 930,

Internacional

The Guardian

O adeus ao comandante Fidel Castro

por The Guardian — publicado 25/12/2016 01h25
As contradições do ditador longevo, eterno revolucionário e o último grande personagem do século XX
Adalberto Roque/ AFP
Fidel Castro

"Uma revolução é uma luta de morte entre o futuro e o passado", dizia. E assim guiou a vida

Por Simon Tisdall

Assim como Che Guevara, seu antigo camarada de armas, Fidel Castro foi o homem que tornou as revoluções sensuais. Com sua barba revolta, o uniforme verde-oliva, traços morenos garbosos e atraentes e seus típicos charutos, “El Comandante” tornou-se o rosto anacronicamente glamouroso do totalitarismo de esquerda. Ele foi o garoto-propaganda do marxismo-leninismo, um enfant terrible revolucionário e, no firmamento de estrelas vermelhas da Guerra Fria, o mais brilhante, reluzente e duradouro exemplar do zelo revolucionário obstinado e impulsivo.

Mas, por trás da imagem fotogênica, havia uma decisão mortalmente séria. Durante os anos cínicos e paranoicos do pós-Guerra, Castro trouxe a paixão de um verdadeiro crente à disputa ideológica entre o Ocidente e o Leste. Desafiou os Estados Unidos e encorajou os sonhos soviéticos de dominação mundial.

Tornou-se um símbolo de resistência e uma figura inspiradora para insurgentes de esquerda em toda a África e a América Latina, enquanto apoiador dos movimentos de independência anticoloniais. Isolado, agredido e alvo de complôs furiosos, fez com perfeição o papel do azarão político, eterno mártir da causa da libertação global.

Castro também foi um demagogo manipulador, um opressor e um perseguidor incansável de quem ousou desafiar sua vontade. Após conquistar o poder em Cuba, não tolerou oposição. Abusos violentos dos padrões aceitos de justiça e de direitos humanos, inicialmente desculpados como uma necessidade revolucionária, tornaram-se a norma de sustentação do regime. Durante mais de 50 anos após seu bem-sucedido golpe de Estado em 1959, mostrou-se extremamente inflexível, doutrinário, colérico e verborrágico. Não quis aprender com os óbvios erros que gradualmente transformaram Cuba na sociedade relativamente pobre, antiliberal e fechada de hoje.

Apesar das conquistas significativas, notadamente em saúde pública e educação, o idealismo marca registrada de Castro, de socialismo estatal, coletivismo anticapitalista e luta emancipatória, acabou por fracassar. Mas o triunfo do modelo rival do Ocidente, de livre-mercado neoliberal, também poderá durar pouco. Castro sobreviveu o suficiente para presenciar a alvorada de uma contrarrevolução ultranacionalista, materialista, pós-ideológica, personificada por Donald Trump. Poderia, com justiça, dizer: “Eu avisei vocês”.

Que o “líder máximo” nunca tenha desistido de suas crenças socialistas, até o duro fim, é causa de admiração, se não de aprovação. Em um de seus comentários mais citados, Castro declarou: “Uma revolução é uma luta de morte entre o futuro e o passado”. Ao fazer o que seria seu último discurso ao congresso do Partido Comunista em Havana, em abril, admitiu que seu tempo estava quase terminado, mas sua batalha mortal pelo futuro não estava.

“Em breve farei 90 anos. Logo serei como todos os outros”, declarou. “O tempo chegará para todos nós, mas as ideias dos comunistas cubanos permanecerão como prova neste planeta de que, se forem trabalhadas com fervor e dignidade, podem produzir os bens materiais e culturais de que os seres humanos precisam, e temos de lutar sem trégua para obtê-los.”

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A parceria com Che Guevara permitiu a vitória em Cuba (AFP)

A história épica da vida política de Castro tem três aspectos principais. Um se refere às relações de Cuba com os Estados Unidos, seu vizinho dominador ao Norte, que definitivamente moldou sua carreira doméstica. Desde o início, quando Castro se envolveu com política durante o curso de direito na Universidade de Havana, sua oposição ao governo cubano o levou ao conflito com os interesses americanos.

Em 1952, depois de o ditador Fulgencio Batista, apoiado pelos EUA, liderar um golpe militar, tomar o poder em Havana e suprimir os partidos de esquerda, Castro viu-se diante das duras realidades da hegemonia regional americana. Batista exibia todas as qualidades deploráveis que se tornariam comuns nos regimes repressores da América Latina na última parte do século XX: abusivos, corruptos, antidemocráticos e obsequiosos com seus patrocinadores em Washington.

Em 1953, Castro tinha decidido que a revolução era a única resposta. Seu hoje famoso ataque ao quartel de La Moncada fracassou, no entanto, e depois de passar algum tempo preso ele fugiu para o México. Lá conheceu Che Guevara e começou o processo que resultou, em 1956, em sua volta a Cuba, em uma subsequente campanha de guerrilha e em 1959 na bem-sucedida derrubada de Batista.

Em retrospectiva, a posterior colisão com os americanos parece inevitável. Mas talvez não o fosse no início. A execução por Castro dos apoiadores de Batista, seu fracasso em implementar a prometida reforma agrária e sua imposição de um sistema de partido único, tomados individualmente, não foram atos que teriam necessariamente afastado Washington de forma permanente.

Em 1960, quando nacionalizou as empresas de propriedade americana, a reação de Washington foi rápida e brutal: um embargo comercial abrangente, rapidamente transformado em uma quarentena internacional da Ilha e de seu líder presunçoso. A infame tentativa de derrubar Castro, a invasão planejada e paga pelos Estados Unidos da Baía dos Porcos por exilados cubanos de direita, veio logo depois, e foi seguida, como se soube mais tarde, por uma série de complôs de assassinato pela CIA. A certa altura, até os charutos de Castro foram visados, com a ideia de fazê-los explodir em seu rosto.

Os fracassos foram embaraçosos. Em vez de dar a Washington uma pausa, serviram para intensificar a vingança contra a revolução castrista. O ressentimento manteve-se com graus variados de energia nas décadas seguintes, instigados no período que antecedeu o colapso do Muro de Berlim, em 1989, pela estreita ligação entre Havana e Moscou. Após a implosão da União Soviética, o grande número de cubanos que fugiram em botes para a Flórida, em busca de um porto seguro econômico, representou outro tipo de problema humanitário.

A inimizade por Castro persistia. Em parte era ideológica. Os republicanos dos Estados Unidos, em particular, não suportavam a afronta implícita de ter uma entidade dirigida por comunistas à sua porta. Em parte era política: o voto cubano-americano, geralmente conservador, concentrado em Miami, tornou-se fator importante na vida política, como foi demonstrado de modo dramático quando Al Gore perdeu por pouco para George W. Bush na Flórida em 2000, resultado que inverteu a eleição presidencial. Em parte era pessoal. Incapaz de romper seu poder destrutivo sobre seu país, mas vibrantemente não assassinado, Castro desafiava de modo habitual os líderes americanos.

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Fidel Castro levaria sua bandeira ao Vietnã e a outros países, mas se tornaria independente da União Soviética de Kruchev ( Yamil Lage/AFP)

Mesmo quando, em 2014, Barack Obama finalmente deu o salto e, obrigado a admitir que o ostracismo e o isolamento não funciovavam, mexeu-se para retomar as relações diplomáticas e abrandar aspectos do embargo, Castro continuou profundamente desconfiado. Ele colocou em dúvida a sinceridade e as “palavras melífluas” do presidente americano. Chamou-o sarcasticamente de “Irmão Obama”. E prometeu que “um bloqueio impiedoso que dura quase 60 anos” e meio século de agressão, incluído o bombardeio em 1976 de um avião cubano por exilados anticastristas que fez 73 vítimas, não poderiam ser esquecidos. Ao menos não por Castro, nem por alguns outros de sua geração de revolucionários, para os quais as antigas feridas não haviam sarado totalmente. Os EUA sob Obama haviam mudado. Castro não.

Nunca se saberá se, sem o efeito esmagador do embargo americano, a revolução cubana teria eventualmente florescido economicamente e se liberalizado politicamente. Com certeza Castro sentiu-se sob um cerco permanente, em um estado de guerra constante, e isso sem dúvida restringiu suas opções políticas. Como o parceiro infinitamente mais poderoso e rico em uma relação disfuncional, os Estados Unidos certamente pareciam ter a maior parte da culpa.

Mesmo quando Obama finalmente visitou Havana neste ano, os dois não se encontraram. Como essa reaproximação cautelosa avançará a partir de agora é altamente incerto, diante de um novo e imprevisível rosto na Casa Branca e da continuada predominância em Havana da velha-guarda, exemplificada pelo cauteloso irmão de Castro, Raúl. Para qualquer outro presidente dos EUA, a morte do revolucionário pareceria um momento de imensa oportunidade. Para um atrapalhado e inepto Trump, poderia ser mais uma chance de piorar uma situação difícil.

A vida política de Castro também foi dominada em um grau significativo por sua relação com o principal adversário dos EUA na Guerra Fria, a União Soviética. Ele afirmou diversas vezes que os atos americanos o levaram aos braços de Moscou. É impossível negar, porém, sua atração ideológica pelo sistema comunista surgido na Rússia e no Leste Europeu depois de 1945 e que em breve desafiaria o poderio americano e britânico em um mundo em desenvolvimento e em luta para se livrar das algemas imperiais e coloniais.

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Homenagens em Cuba (Roberto Salas/ Afp)

Os líderes soviéticos, a partir de Nikita Kruchev, não demoraram para explorar o potencial de Castro como um espinho no flanco do rival americano. A União Soviética despejou dinheiro e apoio em Cuba, em parte por amizade, mais particularmente para atrapalhar o embargo dos Estados Unidos e torcer o nariz de Washington. Durante anos Moscou garantiu a compra da maior parte da produção cubana de açúcar, vital para o país.

A dependência da Rússia teve um preço, e a dívida foi cobrada em 1961-1962, quando Kruchev e o Exército Vermelho começaram uma mobilização secreta de mísseis nucleares em Cuba. Foi uma medida audaciosa que o presidente John Kennedy, quando soube do caso, previsivelmente o considerou uma ameaça existencial. Ela levou diretamente à chamada Crise dos Mísseis de Cuba, o mais perto que o mundo chegou do Armagedon nuclear.