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Número 930,

Economia

The Guardian

Bangladesh: a etiqueta da tragédia

por Dominic Rushe — publicado 24/12/2016 01h22
Grandes marcas mundiais continuam a negligenciar a segurança nas fábricas do país asiático, diz relatório
Shariful Islam/ DPA/ Foto Arena
Rena Plaza

A destruição da Rana Plaza, em 2013, não deixou lições

Uma organização apoiada por marcas de varejo globais, como GAP, Target e Walmart, tem dado notas de aprovação a fábricas de Bangladesh que ainda não implementaram as medidas de segurança vitais prometidas depois do desmoronamento da confecção Rana Plaza, em 2013, que matou 1.137 trabalhadores. É o que afirma um novo relatório publicado em 21 de novembro.

The Guardian teve acesso exclusivo ao primeiro estudo sistemático independente das fábricas de roupas de Bangladesh usadas pelo consórcio de varejistas Alliance, criado após o desabamento da Rana Plaza, que provocou uma reação global dos consumidores contra as grandes lojas.

Três anos e meio depois do colapso do prédio, os autores concluem que as confecções fornecedoras de artigos para os maiores nomes do comércio mundial até agora deixaram de implementar reformas fundamentais, segundo seus próprios critérios, e que 62% ainda não têm saídas de incêndio viáveis. Outros 62% não têm sistema de alarme de incêndio em funcionamento, enquanto 47% estão com grandes problemas estruturais não corrigidos.

O relatório conclui que em alguns casos os prazos para reparos e melhorias definidos firmemente para 2014 e 2015 foram substituídos por um prazo em 2018, que coincide com o fim do acordo da Alliance.

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O Walmart não quis assinar acordo e fundou a Alliance para Segurança dos Trabalhadores de Bangladesh (Yuri Cortez/AFP)

O consórcio rejeitou as conclusões do relatório e disse que ele se baseou em informações imprecisas e desatualizadas. James Moriarty, diretor local da Alliance para Segurança dos Trabalhadores de Bangladesh, afirmou estar “totalmente confiante” de que as fábricas terão cumprido os critérios dos varejistas até 2018, quando terminará o acordo. 

O desabamento fatal da Rana Plaza em Savar, Bangladesh, em abril de 2013, é considerado o pior desastre em fábrica de roupas ocorrido no mundo. O acidente salientou as condições de trabalho perigosas na indústria local e levou a promessas de mudança dos varejistas, que incluem GAP, H&M, Walmart, Target e outras marcas.

No rastro da tragédia, as lojas formaram dois grupos para abordar as questões de segurança em Bangladesh. O primeiro, o Acordo sobre Segurança contra Incêndio e em Edifícios em Bangladesh, é liderado pela H&M e apoiado por Adidas, Benetton, Marks & Spencer, Tesco e outras. Os signatários aceitaram um acordo compulsório aprovado por sindicatos internacionais e a publicação de relatórios detalhados de seu progresso.

O Walmart não quis assinar o acordo e fundou a Alliance para Segurança dos Trabalhadores de Bangladesh, organização voluntária integrada pela GAP, Target, Hudson’s Bay Company, cujas marcas são Saks Fifth Avenue e Lord & Taylor, e VF Corporation, dona da North Face, Timberland, Vans e Wrangler. A Alliance não publicou relatórios detalhados de seu progresso.EconomiaGuardian2_930.jpg

O novo relatório, intitulado “Atrasos perigosos na segurança dos trabalhadores”, foi compilado pelo Fórum Internacional de Direitos Trabalhistas, o Consórcio de Direitos do Trabalhador, a Campanha Roupas Limpas e a Rede de Solidariedade Maquila. Ele identificou 175 fábricas que fornecem aos signatários do acordo e da Alliance.

Com base em relatos detalhados do acordo sobre o progresso das fábricas que também produzem roupas para integrantes da Alliance, os autores produziram um relatório de progresso que analisa as descrições de situação de mais de 2 mil reformas de segurança exigidas em 350 planilhas de dados.

O relatório descobriu que das 107 fábricas rotuladas como “no prazo” pela Alliance, 99 ainda estavam atrasadas em uma ou mais categorias de segurança.

“A Alliance nunca ofereceu qualquer justificativa para a decisão de ignorar seus próprios prazos de segurança. Nem explicou por que é responsável por dar às fábricas quatro anos para realizar reformas vitais que deveriam ser feitas em menos de um ano, enquanto ainda rotula essas fábricas como ‘no prazo’”, escreveram os autores do relatório.

Em uma carta aos autores, Moriarty explicou a decisão da Alliance de modificar seus prazos para reformas. “Com relação à métrica para categorizar o progresso de uma fábrica, adaptamos nossas medições para refletirem a questão central de se uma determinada fábrica estará substancialmente segura quando terminar, em 2018”, escreveu.

Moriarty colocou em dúvida a metodologia do relatório. Ele disse ao Guardian que se encontra regularmente com parceiros do acordo e “nunca foi levantado nada disso sobre estarmos atrasados em questões de remediação”.

As duas organizações, disse o executivo, hoje dividem a avaliação das fábricas quando usam as mesmas instalações e, embora tenha admitido que os integrantes do acordo receberam atualizações regulares, afirmou ter ficado “confuso” com a afirmação de que “indivíduos mandarem e-mails uma vez por mês é mais confiável do que ter engenheiros treinados na inspeção das fábricas e relatando suas conclusões”.EconomiaGuardian_9306.jpg

“Confio nos meus engenheiros. Eles não mentem para mim e eu não minto para eles quando coloco as coisas no papel”, disse. “Nós, na Alliance, fazemos algo nunca feito antes. Pegamos uma indústria existente seriamente prejudicada e tentamos corrigi-la a partir do zero. A afirmação de que poderíamos ter feito tudo em um ano é francamente ridícula para alguém que tem formação em engenharia ou segurança e compreende a situação passada ou atual da indústria.” 

Scott Nova, diretor-executivo do Consórcio de Direitos do Trabalhador, defendeu a metodologia do relatório. Segundo ele, os integrantes do acordo estão conscientes de qualquer mudança de situação e regularmente têm contato com gerentes de fábricas antes de atualizar seus relatórios. “Qual seria seu incentivo para não relatar o progresso?”

O relatório afirma que a falta de avanços coloca “em risco a vida de milhares de trabalhadores”. Os autores calculam que cerca de 120 mil operários de confecções empregados pelas 62 fábricas que produzem artigos para o Walmart não têm sistemas de saída de incêndio confiáveis. Outras 55 mil estão empregadas em fábricas que fazem roupas para a GAP e com saídas de incêndio comprometidas, de acordo com o relatório.

As questões persistem, apesar de 96% das fábricas na amostragem terem sido inspecionadas há bem mais de dois anos, escrevem os autores.

Enquanto o grupo também criticou as fábricas do acordo, Scott Nova disse que o grupo liderado pela H&M abordou as questões mais rapidamente que os integrantes da Alliance, e atribuiu a diferença a uma maior transparência.

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A rede de lojas GAP integra a Alliance (DPA/Fotoarena)

Em uma medida significativa para melhorar a transparência, Moriarty disse que a partir de janeiro a informação de cada visita da Alliance será publicada no site da Compensação de Fábricas Justas (Fair Factories Clearinghouse, ou FFC), o mesmo sistema usado pelo acordo.

Dois pontos, relata Nova, têm contribuído para a falta de progresso: as firmas internacionais não pressionavam os donos das confecções e não contribuíam com dinheiro suficiente para os reparos. O custo médio de implantar as reformas de segurança prometidas é de 400 mil a 500 mil dólares.

“O que motivou o Walmart e a Target a agir certo foi a vergonha pública. Já se passaram três anos e meio da Rana Plaza e eles acham que as memórias estão desbotando”, explica Nova. “Esse conjunto de dados exagera o progresso. Não estou dizendo que nada foi feito. Apenas que esse trabalho deveria ter sido feito há muito tempo e vocês ainda têm grandes problemas que podem levar a fatalidades.”