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Número 929,

Economia

Opinião

A prepotência do mercado financeiro na formação de consensos

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 30/11/2016 01h58
A conversinha da “confiança” oculta a usurpação das decisões e das informações que afetam a vida dos cidadãos
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Keynes

Keynes foi um economista britânico cujas ideias mudaram a teoria e a prática da macroeconomia

economia brasileira foi enfiada no buraco da depressão pelos corifeus da “confiança”, uma forma degenerada de exprimir a complexidade da análise keynesiana a respeito das expectativas empresariais diante da incerteza radical em que são tomadas as decisões de gasto e investimento. Keynes dizia: 

Nosso conhecimento dos fatores que governarão o rendimento de um investimento alguns anos mais tarde é, em geral, muito limitado e, com frequência, desdenhável. Para falar com franqueza, temos de admitir que as bases de nosso conhecimento para calcular o rendimento provável, nos próximos dez anos ou mesmo cinco anos, de uma estrada de ferro, uma mina de cobre, uma fábrica de tecidos, um produto farmacêutico patenteado, uma linha transatlântica de navios ou um imóvel na City de Londres se reduzem a bem pouco e às vezes a nada”. 

Diante da incerteza radical, os detentores de riqueza são compelidos a tomar decisões apoiados em convenções a respeito das perspectivas da economia. Keynes sugere que as decisões individuais dos agentes só podem apoiar-se no que eles imaginam ser as opiniões dos demais. No capítulo XII da Teoria Geral, os concursos de beleza promovidos pelos jornais servem de exemplo para descrever a formação de convenções nos mercados de ativos.

Os leitores são instados a escolher os seis rostos mais bonitos entre uma centena de fotografias. O prêmio será entregue ao leitor cuja escolha esteja mais próxima da média das opiniões. Não se trata, portanto, de apontar o rosto mais bonito na opinião de cada um dos participantes, mas de escolher o rosto que mais se aproxima da opinião dos demais.

Keynes, desse modo, introduz na teo­ria econômica as relações complexas entre Estrutura e Ação, entre papéis sociais e sua execução pelos indivíduos convencidos de sua liberdade e autodeterminação, mas, de fato, enredados nas perversidades do futuro incognoscível. 

Keynes, na esteira de Freud, introduz as configurações subjetivas produzidas pelas interações entre grupos sociais e seus indivíduos. Estão aí implícitos os processos de individuação mediados pelo objetivo da produção capitalista, a acumulação de riqueza monetária.

Nesse percurso, as decisões capitalistas podem dar origem a situações nas quais a busca da riqueza abstrata transforma-se em um obstáculo para a economia gerar emprego e renda para os que dependem dos espíritos animais dos empresários.

Keynes repudiava veementemente as políticas de curto prazo, que julgava “oportunistas”, típicas do keynesianismo bastardo. Ele revela suas concepções em resposta irada a seu amigo James Meade:

James Meade
James Meade foi o economista britânico que ganhou o Nobel de Economia em 1977 (LSE Library)

Você acentua demais a cura e muito pouco a prevenção. A flutuação de curto prazo no volume de gastos em obras públicas é uma forma grosseira de cura, provavelmente destinada ao insucesso. Por outro lado, se a maior fração do investimento está sob o controle público ou semipúblico e assim caminhamos para um programa de estabilidade de longo prazo, flutuações mais intensas serão muito menos prováveis de acontecer. Eu sinto, portanto, que você não faz justiça ao investimento sob controle público ao simplesmente enfatizar a deficiência desse método, enquanto subestima sua eficácia para propósitos preventivos e como forma de evitar flutuações pronunciadas, as quais, uma vez tendo ocorrido, são tão difíceis de enfrentar”.

A geração de déficits monumentais e as políticas exasperadas de liquidez são “formas grosseiras” e danosas de sustentação do lucro macroeconômico e de proteção dos portfólios privados. Na ausência de políticas de coordenação sistemática do investimento, tais formas grosseiras tornam-se imprescindíveis para evitar o desastre de uma depressão e o ônus da crise para a população.

Hoje em dia, a palavra de ordem é fazer genuflexão diante dos poderes da finança. A conversinha da “confiança” oculta a usurpação das decisões e das informações que afetam a vida dos cidadãos.

Poderosas na formação de consensos e na captura dos corações e mentes mediante patranhas midiáticas, as tropas da finança abusam da prepotência e de malfeitorias quando incumbidas de definir os critérios de avaliação dos riscos no festival de desinformações e desenganos que levou a economia brasileira ao desastre de 2015.