Número 928,

Internacional

The Guardian

Bem-vindo à América de Donald Trump

por Dan Roberts, em Washington — publicado 23/11/2016 00h16
Dois anos de campanha e 24 estados depois, o repórter avalia o mix tóxico e a minoria oculta que deu a vitória ao azarão nas eleições de 2016
Mark Kauzlarich/ Reuters/ Latinstock
 Trump

"Cobrindo a campanha, viajando daqui para lá, eu vivi numa espécie de bolha. O país que ia às urnas era outro"

Sessenta milhões de americanos votaram em Donald Trump, cada um por seus próprios motivos. Alguns estavam simplesmente irritados ou com medo. Outros, entediados, indiferentes a toda a revolta dirigida a seu candidato, ávidos por mudança acima de tudo.

Muitos, sem dúvida, apreciaram a permissão para manifestar sentimentos sombrios ou ressentimento em relação a pessoas diferentes deles. Tudo isso era estranho para alguém bem informado, morador das regiões litorâneas e que decidiu há muito tempo que esta eleição era fato consumado.

Segundo as regras comumente aceitas pelas quais se decidem as corridas presidenciais, não estava nem perto disso. Os democratas agarravam-se a um prêmio de consolação de que, apesar de terem perdido nos estados decisivos no dia 8, Hillary Clinton recebeu 600 mil votos a mais em geral porque seus apoiadores estavam concentrados em cidades mais populosas.

Uma maneira menos tranquilizadora de pensar nisso é que os apoiadores de Trump estavam distribuídos de forma homogênea nos lugares que refletiam a realidade política diversificada do país, enquanto os de Hillary estavam agrupados em bolhas de mentalidade semelhante.

Os novos estados oscilantes tornaram-se mais familiares para mim ao longo de dois anos, pelo menos cem comícios e dezenas de milhares de quilômetros na trilha da campanha. As eleições primárias e gerais levaram-me a 24 estados, incluindo um ano inserido na campanha de Bernie Sanders, e depois que ele perdeu em viagens incessantes com Hillary e Trump. 

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Ele serviu de espelho a uma América que diz besteiras, mas não é só idiota (Jim Watson/AFP)

Os aeroportos de Des Moines, Cleveland, Miami, Milwaukee, Charlotte, Manchester, Denver e Detroit, as estradas para Richmond ou Pittsburgh, tudo se tornou quase tão familiar para mim quanto o Aeroporto Nacional Rea­gan e o Anel Rodoviário.

Em Washington e Nova York, raramente encontrei alguém que pensasse que Hillary poderia perder. Nas viagens, quase ninguém, fora dos eventos de campanha frequentemente pouco concorridos, se mostrou entusiasmado por ela. 

Desisti de buscar uma explicação entre o exército de analistas e acadêmicos da capital. De início, era embaraçoso ouvir constantemente que eu era ingênuo ao questionar a coroação de Hillary; com o tempo, tornou-se perturbador ver que eles pareciam incapazes de compreender o que os eleitores viam em Sanders ou Trump, quando eu voltava de comícios lotados de fãs adoradores.

No final, não houve um surto de eleitores hispânicos ou mulheres apoiando Hillary com nojo de Trump, apenas uma falta de vários milhões de eleitores brancos (e negros) da classe trabalhadora que haviam votado em Obama, mas desta vez decidiram ficar em casa; e muitos republicanos que se mostraram muito menos chocados com seu candidato do que diziam aos pesquisadores.

Essa minoria supostamente oculta mostrou-se impermeável às técnicas sofisticadas dos modelos de pesquisa. Mas encontrar apoiadores de Trump fora do Anel Rodoviário de Washington nunca foi difícil. Um truque de reportagem era ir ao estacionamento de uma loja de artigos para reforma de casas em uma manhã no meio da semana: um lugar garantido para encontrar homens brancos subempregados com tempo para conversar e nada a perder. 

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Hispânicos também engrossaram o grito de vitória de Trump (Vasily Maximov/ AFP)

A minoria falastrona

Em uma loja Lowes em Steubenville, uma cidade deprimida que já foi siderúrgica, perto da divisa entre Ohio e Pensilvânia, um carpinteiro aposentado resumiu o clima dominante, enquanto empilhava madeira na traseira de sua caminhonete para fazer um deque que a sua mulher tinha pedido. 

“Eu acho que Trump é maluco, mas adoraria que ele fosse presidente para ver o que acontece”, disse Edward Tucker, 68 anos, no início deste ano. “Eu não gostaria que acabasse em algum tipo de guerra”, ele acrescentou rapidamente, indicando que não se arrependia de ter votado em Obama duas vezes. “Mas alguma coisa vai mudar se (Trump) for presidente. Só não sabemos o quê.”

Para homens mais velhos, que viram as certezas de a prosperidade das cidades menores desaparecerem em uma geração, era difícil conceber que as coisas pudessem piorar, exceto por uma guerra nuclear. Mesmo então, pouco do que Trump tinha a dizer os chocaria. E muitas mulheres sentiam a mesma coisa. 

Christy Cranston, uma jovem profissional que conheci com seu marido perto de um comício de Trump em Charlotte, estava frustrada, principalmente, porque o candidato republicano decidiu não defender seus rompantes de forma mais agressiva.

“Eu gostaria que ele dissesse: ‘Sim, sou um imbecil’ e ‘sim, eu digo o que penso, mas espero que o que saia de minha boca não apague o que realmente luto para ter’”, disse ela. “Eu nunca o ouvi dizer nada que fosse diretamente racista ou contra as mulheres. Eram como que respostas a alguém que o atacara primeiro.” 

Se Trump pretendia ser tão racista e sexista quanto parecia é outra questão que merece maior análise, mas muita gente hoje está reavaliando os recentes comentários sobre o tema de outro apoiador polêmico, o investidor do Facebook Peter Thiel.

“Acho que uma coisa que deve ser esclarecida aqui é que a mídia sempre leva Trump ao pé da letra”, disse Thiel ao Clube Nacional da Imprensa pouco antes da eleição. “Acho que muitos eleitores que votam em Trump levam-no a sério, mas não literalmente, por isso, quando ouvem coisas como o comentário sobre os muçulmanos ou o muro, sua pergunta não é: ‘Você vai construir um muro como a Muralha da China?’ ou ‘Como exatamente você vai aplicar esses testes?’ O que eles ouvem é: ‘Nós vamos ter uma política de imigração mais saudável e sensata’.”

Não há dúvida de que Trump pode ser ao mesmo tempo cruamente inarticulado e um consumado comunicador. Durante sua desajeitada primeira reunião com Obama, na quinta-feira 10, ele forneceu uma demonstração de manual para os jornalistas que observavam.

Se você seguisse os comentários como estão na transcrição oficial, o presidente eleito estava falando besteiras. “Nós conversamos sobre muitas situações diferentes, algumas maravilhosas e algumas dificuldades”, disse ele sobre sua reunião com Obama. “Espero com satisfação tratar com o presidente no futuro, incluindo conselhos. Ele explicou algumas das dificuldades, alguns dos ativos de alto nível e algumas das coisas realmente ótimas que foram realizadas.”

Se você assistir e escutar o evento, Trump parece muito mais no controle. Como George Bush anteriormente, sua sintaxe esparrama-se, mas o significado é claro. Em contraste com o cerebral Obama ou a polida Hillary Clinton, a América média talvez possa ver um reflexo de si mesma – falando alto e de forma desarticulada, mas não idiota.

Também seria ingênuo fingir que não há uma intenção profundamente cínica por trás das gafes. Enquanto outros políticos poderiam ser acusados de mensagens obscuras e codificadas, Trump transmitia em uma frequência acessível a todos, explorando as três maiores fraquezas do país: ferrugem, raça e ignorância. 

Ferrugem

Deixando de lado um punhado de erráticos moradores da Flórida, Trump ganhou no dia 8 quase totalmente porque ele mudou a paisagem política do Centro-Oeste industrial, conhecido como Cinturão da Ferrugem.

Os 70 votos eleitorais acumulados em Wisconsin, Ohio, Michigan, Iowa e Pensilvânia foram um prêmio eleitoral maior que o Texas e Nova York juntos. Acrescente New Hampshire e Minnesota – onde apenas 50 mil eleitores semelhantes impediram uma derrota ainda pior de Hillary – e a maioria desses estados foram aqueles em que ela também perdeu na primária democrata.

Nem todos esses lugares estão sofrendo com a globalização, de modo algum. Minneapolis tem uma indústria médica próspera. Cleveland mostrou ao mundo o que pode ser uma renovação urbana durante a convenção republicana. Todas as vezes em que estive em Des Moines me disseram que a cidade mudou muito. 

Há também um forte orgulho local, muitas vezes manifestado em comida junk que delicia em sua rejeição à estética da alimentação integral: chilli em Cincinnati, queijo de coalho em Wisconsin, hambúrgueres de “carne de segunda” em Iowa e, em todo lugar, churrasco.

Mas a combinação de fábricas fechadas, rendas estagnadas e a notável resistência de um país rico a investir em infraestrutura deixa uma sensação indelével de decadência. Mesmo no centro da Filadélfia, um vibrante enclave democrata, há uma impressionante exibição de ferrugem.

Ruas vazias no centro de cidades de médio porte no leste de Iowa ou no Vale de Mahoning, em Ohio, forneceram um estranho cenário para uma máquina de Hillary decidida a ressaltar o território positivo, mas fértil para as claras advertências de Trump sobre o comércio e a “economia manipulada”.

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O eleitor navegou na ignorância, numa campanha marcada por mentiras plantadas, de lado a lado (Carlo Allegri/ Reuters/ Latinstock)

Esse clima não se limitava de modo algum ao Centro-Oeste, ou aos apoiadores de Trump. Goldsboro, na Carolina do Norte, teve, segundo um recente estudo do Centro de Pesquisas Pew, o maior declínio nacional na porcentagem de cidadãos que ganham o suficiente para se qualificar como “classe média”: uma expressão que na Grã-Bretanha implica que o copo está meio cheio, mas durante a eleição americana de 2016 tornou-se uma abreviatura para qualquer pessoa que trabalha duro, mas enfrenta dificuldades.

Foi aqui que conheci Latonia Best, que tem três diplomas, cria três filhos sozinha e trabalha há três anos como professora de crianças especiais. Ela tem de manter três empregos para pagar as contas, saindo do emprego em tempo integral na escola para fazer visitas em domicílio quatro noites por semana como professora itinerante, além de babá nos fins de semana. 

Para professores como Best, para quem um salário líquido de 3.333 dólares deixa uma sobra de 50 dólares todo mês, os políticos não falaram o suficiente sobre a classe média lutadora dos Estados Unidos.

“Escutando os dois candidatos, pelo menos nas primeiras etapas da campanha, falta falar sobre o que faz da classe média o que é – como eles vão melhorar nossa vida”, disse Lashaundon Perkins, colega de Best. “Os Estados Unidos estão em má situação”. 

Caso isso pareça exagero, um estudo do Pew revelou que 203 das 229 áreas metropolitanas dos EUA viram diminuir a porcentagem de adultos que vivem em famílias de renda média entre 2000 e 2014. A crescente desigualdade tem sinais também de redução da mobilidade social, enquanto a educação superior se tornou cada vez mais inacessível e as perspectivas de emprego caíram em espiral para os que decidiram ficar no “Cinturão da Ferrugem”.

De algum modo, um empreiteiro bilionário que vive em uma torre dourada em Manhattan os convenceu de que podia ser seu defensor. Para tanto, ele também precisou apertar outros botões.

Raça

Nenhuma eleição americana seria completa sem a Flórida. Aqui foi mais difícil explicar o apelo de Trump com referência a simples reveses econômicos.

Há nuvens acumuladas no “estado ensolarado”, claro: muitos empregos de salário baixo com pouca proteção trabalhista, muitos donos de imóveis ainda lutando para se recuperar da crise habitacional .

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O eleitor de Trump estava pronto para crer no que queria ouvir (Seth Herald/ Nurphoto/ AFP)

Mas aqui também havia símbolos reluzentes do sonho americano, marinas repletas de iates em Fort Lauderdale, perto dos comícios onde Hillary Clinton tentava entusiasmar a população mais diversificada do estado. Placas de Trump espalhadas por gramados imaculados em cidades prósperas como Tampa. Em The Villages, a maior comunidade de aposentados do mundo, cuja população de mais de 100 mil está crescendo mais rápido do que qualquer cidade dos EUA, muitos apoiadores de Trump teriam declarado seu entusiasmo circulando em carrinhos de golfe enfeitados com seu logo.

Ambos os candidatos passaram mais tempo aqui do que em outros lugares. Hillary passou cinco dias no estado, somente na semana passada, antes de voltar para o Norte, aparentemente satisfeita que um gigante adormecido de eleitores latinos estivesse emergindo dos primeiros dados de votação para privar Trump de um estado crucial para a vitória.

Na Flórida, os novos eleitores não chegaram perto de compensar a onda de apoio branco que Trump recebeu. No final, com o tempo se esgotando para contar cédulas de votação defeituosas novamente, Trump estava na dianteira no estado por 130 mil. Houve mais eleitores latinos para Trump do que para Mitt Romney, talvez um sinal de que aqueles que navegaram com êxito suficiente pelas complexas regras de imigração para serem eleitores registrados podem de fato ser menos compassivos com a dura situação de seus irmãos sem documentos.

Por todo o país, Trump ganhou os votos brancos por uma margem recorde para qualquer presidente. Desprezar todos esses eleitores como racistas intolerantes seria um raciocínio simplista, mas é difícil negar que poucos deles pudessem não saber das atitudes de Trump em relação a muçulmanos e mexicanos, do apoio que ele recebe da Ku Klux Klan ou do tom de repúdio que adotou em relação ao movimento Vidas Negras Importam.

O filamento de nacionalismo branco inerente à campanha de Trump tornou-se mais explícito com a chegada de Steve Bannon como seu novo mandachuva da campanha, um homem cujo site da direita alternativa, Breitbart.com, não esconde sua crença de que os Estados Unidos estão acuados pelo politicamente correto.

Em uma festa na sede do Breitbart, em Washington, para lançar um novo livro sobre Trump escrito pela jornalista Ann Coulter, encontrei um grupo de apoiadores ansiosos para discutir suas teorias sobre raça com alguém cujo sotaque inglês deve ter sugerido que eu era simpatizante.

“Todo mundo diz que somos uma nação de imigrantes, mas não somos”, disse um homem que usava orgulhosamente uma camiseta de Trump. “Nós somos uma nação de imigrantes do Norte Europeu. Não deveríamos ter de pagar mais só para viver entre nosso próprio grupo demográfico.” 

O novo livro de Coulter, In Trump We Trust: E pluribus awesome! (Em Trump Confiamos: De muitos, o impressionante!), ecoou o espírito de triunfo racial. “Da mesma maneira que qualquer imigrante na Finlândia a torna virtualmente menos branca, quase qualquer imigrante nos EUA os torna menos honestos”, escreveu .

Até na capital supostamente cosmopolita dos EUA às vezes há extremamente pouca tolerância. A uma quadra da Casa Branca, fiquei atrás de um homem no McDonald’s que repreendia à meia-noite uma equipe falante de espanhol que ganha salário mínimo. Ele estava irritado com eles por não terem as habilidades linguísticas para descrever os ingredientes exatos de uma salada que ele tentava pedir. “Fale americano” é uma frase desconcertante para britânicos, mas muito vista e ouvida na Trumplândia.

Muitos americanos consideram as francas manifestações de nacionalismo de seu país como relativamente benignas. Ohio, em particular, é enfeitado com inúmeras bandeiras. Quatro anos de governo Trump poderão mudar a visão da nação de sua bandeira e das cantilenas “USA, USA” que se tornaram uma trilha sonora em seus comícios. Ou talvez não.

Ignorância

Em meu último voo saindo de Washington, uma semana antes da eleição, tomei o café da manhã ao lado de um casal que voltava para Atlanta, depois de ele correr na Maratona Marine Corps, em Wash­ington. Olhando as chamadas da CNN que passam na base da tela acima de nós, ela comentou: “Eu havia esquecido que a eleição está chegando. É na próxima semana ou no próximo mês?”

Só então percebi como eu também havia vivido em uma espécie de bolha, convencido de que a coisa mais importante no país era a eleição, viajando em jatos de campanha onde as horas, minutos e segundos eram contados em relógios eletrônicos.

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Mulheres e negros também ecoaram a vitória de um misógino racista (Bria Webb/ Reuters/Latinstock e Spencer Platt/ Getty Images/ AFP)

Muito já se escreveu sobre o impacto dos hábitos de consumo da mídia moderna no sentido de contribuir para uma eleição na qual as inverdades repetidas de Trump não foram contestadas nas mídias sociais e em entrevistas aduladoras na televisão.

No entanto, as duas metades dos Estados Unidos vivem em isolamento esplêndido. Após a eleição, amigos liberais acharam consolo em uma história publicada no Facebook afirmando que Barack Obama de alguma forma os salvou do pior de um governo Trump, ao proteger permanentemente o direito ao aborto – lamentavelmente, passando por cima do papel fundamental da Suprema Corte nessas questões.

Ironicamente, uma das citações mais compartilhadas atribuídas às falsidades de Trump tem alta probabilidade de também ser falsa. Supostamente, ele disse à revista People em 1998: “Se for para disputar a Presidência, eu concorreria como republicano. Eles são o grupo de eleitores mais patético do país. Eles acreditam em qualquer coisa dita na Fox News. Eu poderia mentir e eles ainda acreditariam. Aposto que meus números seriam extraordinários”.

Poucos desses memes liberais enganosos chegam perto, porém, da avalanche de afirmações incorretas feitas por Trump no decorrer da eleição: desde bazófias triviais sobre o tamanho de suas multidões a absurdos como afirmar que o México pagará para construir seu muro.

Resta ver se a mudança para um ambiente de mídia mais questionador, que ele já encorajou, continuará, mas seria errado supor que eleitores acreditariam nisso se o vissem. Minhas jornadas pela Trumplândia sugerem um país já vivendo em universos paralelos: ansioso, entediado e pronto para acreditar no que quer ouvir.