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Número 928,

Internacional

Mundo

A vitória de Trump e o fim do fim da história

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 25/11/2016 10h20, última modificação 25/11/2016 15h08
Como a reviravolta política em Washington desmentiu Fukuyama e abriu um novo e sinistro capítulo na história da humanidade
Matt Mcclain/ The Wahington Post/ Getty Images
Bones de Trump

Os bonezinhos substituíram as braçadeiras. Mas muitos seguidores não veem diferença

Normalização é uma das palavras da moda. Aplica-se à maneira como políticos, jornalistas e pensadores procuram convencer o público e talvez também a si mesmos de que Trump é um político normal e sua chegada à Casa Branca nada mudará de fundamental.

Um bom exemplo é o artigo “Domando Trump”, do economista Nouriel Roubini, publicado no site Project Syndicate na sexta-feira 11 e reproduzido em várias publicações. Roubini fez fama ao prever corretamente a crise financeira de 2008 quando a maioria dos economistas esperava prosperidade sem limites, mas não mostra a mesma perspicácia em relação à política.

“Trump é um empresário que adora a ‘Arte da Negociação’, logo é por definição mais um pragmático do que um ideólogo míope.Sua escolha de concorrer como populista foi tática e não reflete necessariamente crenças profundas. No governo, vai jogar pedaços de carne simbólicos a seus apoiadores e retornar às políticas econômicas tradicionais dos republicanos. Os políticos e empresários que Trump provavelmente nomeará moldarão suas políticas e sua inexperiência o fará mais dependente dos conselheiros.”

Bastaram 48 horas para desmentir a previsão do economista. No domingo, além de reiterar a intenção de expulsar milhões de imigrantes, o presidente eleito anunciou suas duas primeiras nomeações de peso. Para chefe de gabinete, indicou Reince Priebus, republicano tradicional ligado ao presidente da Câmara, Paul Ryan.

Mas para estrategista-chefe e principal conselheiro escolheu o chefe de campanha Steve Bannon, diretor de filmes de propaganda direitista e presidente-executivo do Breitbart News, site associado a racismo, antifeminismo, islamofobia e homofobia. Uma mistura de Josef Goebbels e Leni Riefenstahl, nome digno de um ano marcado, segundo o Dicionário Oxford, pelo neologismo “pós-verdade”.

Levando a analogia um pouco mais adiante, Priebus e Ryan foram comparados por críticos a Franz von Papen, líder do Partido do Centro na República de Weimar, ex-premier e conselheiro do presidente Paul von Hindenburg que o persuadiu a nomear Adolf Hitler como chefe do governo ao garantir que controlaria o líder nazista. “Uma vez no governo, os nazistas se moderarão e sua ascensão política será freada, pois, como é natural, descobrirão ser impossível manter as promessas de campanha”, parafraseou o New York Times na época.

Von Papen foi vice de Hitler por um ano e meio, até a Noite das Facas Longas eliminar a oposição e consolidar o totalitarismo. Pouco depois, ao chegar para a reunião do ministério, Von Papen não encontrou cadeira reservada para ele, entendeu o recado, renunciou e foi consolado com uma embaixada em Viena, onde trabalhou para preparar a anexação da Áustria ao III Reich. Serviu fiel e humildemente o Führer até o fim e foi absolvido no tribunal de Nuremberg.

A máquina republicana cuidará do dia a dia da burocracia e ocupará gabinetes com seus apaniguados, mas o extremismo estará no controle da narrativa e das medidas de impacto. Não é “carne simbólica”, é assunto sério. Bannon criou uma seção chamada “Crimes de Negros” e publicou manchetes como “A bandeira confederada proclama uma herança gloriosa”, “Controle de natalidade deixa as mulheres feias e loucas” e “Você preferiria que suas crianças tivessem feminismo ou câncer?”

Ryan, reeleito presidente da Câmara na terça-feira 15 sem contestação do Tea Party graças ao apoio de Trump não tentou “domar” ou “moldar” o chefe.“Não o conheço (Bannon) e não me preocupa. Confio no julgamento de Trump.”

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O papel de Bannon propagandista da intolerância no Breitbart News, será análogo ao de Goebbels... (Drew Angerer/ Getty Images/AFP)

Kevin McCarthy, líder do partido na Câmara, saiu-se com “sempre acreditei em dar uma chance a alguém”. Na terça-feira 15, cada um dos deputados republicanos, ao comparecer à reunião do partido, encontrou na cadeira um boné vermelho da campanha de Trump, “Make America Great Again”, uma pouco sutil convocação a cerrar fileiras em torno do líder.

Quem não teve dúvidas sobre o significado da nomeação foi David Duke, ex-líder da Ku-Klux-Klan e candidato derrotado a senador pela Luisiana: “Parece que tomamos o Partido Republicano”, festejou em entrevista ao radialista neonazista Don Advo.

Também não houve dúvidas por parte da Liga Antidifamação (ADL), organização liberal judaica de combate ao antissemitismo. Em nota oficial, lamenta: “É um dia triste quando um homem que presidiu o principal site da ‘direita alternativa’ – um grupo pouco coeso de nacionalistas brancos, antissemitas e racistas descarados – é nomeado para a equipe da ‘casa do povo’”.

Há outras nomeações cogitadas que são de arrepiar os cabelos. Para a Secretaria da Habitação, Rob Astorino, republicano que fez carreira combatendo iniciativas pela integração racial. Para a Secretaria de Estado, Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova York que defende que “na guerra tudo é legal” e apoiou Trump quando este disse que os Estados Unidos deveriam ter tomado o petróleo do Iraque e da Líbia. Como assessor, o islamófobo Frank Gaffney, para quem Barack Obama é um agente da Fraternidade Muçulmana.

Ao mesmo tempo, conservadores mais sensatos ou moderados que participaram da campanha foram marginalizados ou expurgados, a começar por Chris Christie, ex-pré-candidato e governador de New Jersey – ao que se diz, porque, quando procurador, enviou à cadeia o pai do primeiro-genro Jared Kushner.

Eliot Cohen, ex-assessor de Condoleezza Rice, conta que um membro da equipe de Trump lhe pediu uma recomendação para certo cargo. Propôs um nome competente e este foi furiosamente rechaçado por ter criticado Trump e apoiado outro republicano (provavelmente Jeb Bush). Sugere agora a colegas (neo)conservadores ficarem de fora.

“Servir à primeira fase desse governo é um risco grave para a integridade e reputação. Trump não é um candidato normal, a transição não é normal, e esse provavelmente não será um governo normal. O presidente eleito cerca-se de mediocridades cuja principal qualificação é a lealdade incondicional. Por qualquer critério, a ignorância dele e de seu círculo sobre o Executivo é abissal.” Sua esperança é que um ou dois anos de fracassos ensinem alguma humildade à equipe.

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Ryan, líder republicano do Congresso, começa a ser comparado com Von Papen (DPA/Fotoarena)

No polo oposto a Nouriel Roubini, o filósofo Francis Fukuyama ficou conhecido pela previsão mais equivocada do século XX: “A história acabou”, proclamou quando do colapso da União Soviética, augurando uma era de eterna, pacífica e monótona prosperidade neoliberal. Até há alguns meses, insistia em que seu prognóstico apenas fora adiado e ainda se concretizaria, mas com seu artigo no Financial Times do domingo 13 caiu no mundo real.

“A acachapante derrota de Hillary Clinton marca um divisor de águas não só para a política estadunidense, mas para toda a ordem mundial. Entramos em uma nova era de nacionalismo populista, na qual a ordem liberal dominante construída desde os anos 1950 está sob ataque de maiorias democráticas furiosas e enérgicas. O risco de se deslizar para um mundo de nacionalismos competitivos e igualmente ferozes é enorme, e se isso acontecer marcará um momento tão decisivo quanto a queda do Muro de Berlim em 1989.” Em outras palavras, é o fim do fim da história. Para o bem e (mais provavelmente) para o mal, estamos condenados a viver tempos interessantes.

O texto comete um equívoco comum a muitas análises apressadas sobre a vitória de Trump como revolta de trabalhadores desfavorecidos contra o desemprego. Há uma relação entre a crise neoliberal e a ascensão da ultradireita, mas não justifica o curto-circuito. Trump surpreendeu ao vencer Hillary na Flórida e em estados industriais decadentes e tradicionalmente democratas do “cinturão de ferrugem”, mas não porque proletários ou desempregados se tornaram republicanos em massa. Não é difícil encontrar casos individuais para sustentar essa narrativa, mas dados detalhados mostram um fenômeno menos simples.

Não houve uma “maioria democrática furiosa”, pois Hillary venceu no voto popular por uma margem entre 1% e 2%. E se examinarmos o mapa eleitoral de Michigan, por exemplo, veremos que Hillary ganhou com folga na quase cidade-fantasma de Detroit e sua periferia, inclusive a Flint de Michael Moore, mas Trump ganhou praticamente todos os condados do interior.

Foi eleito pelo entusiasmo da classe média branca rural e das pequenas cidades – inclusive diplomados e mulheres – que acorreu às urnas em maior número. Também no referendo inglês, como nas eleições que consolidaram o poder de Vladimir Putin, Recep Tayyip Erdogan e Viktor Orbán, foi o interior que deu a vitória ao nacionalismo de direita, cujos líderes continuam impopulares nas capitais e metrópoles da Rússia, Turquia e Hungria.

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A expectativa de uma "Paz Trumpfália" exigiria a competência diplomática de um Talleyrand...

Os mais pobres, quando votaram, apoiaram os democratas. Também na Europa, os partidos de centro-esquerda perdem não porque seus eleitores viram a casaca, mas porque desanimam de votar. Onde o voto é obrigatório, votam nulo ou em branco.  Não é uma distinção bizantina. Quem pensa que os pobres viraram à direita julga que seus partidos deveriam fazer concessões à xenofobia para voltar a atraí-los. Para quem vê os pormenores, o problema é o centro-esquerda social-liberal (ou, nos EUA, a direita liberal) não oferecer uma alternativa real.

Dito isso, Fukuyama acerta no essencial: é a derrocada da ordem (neo)liberal, não das “esquerdas”, como diz parte da mídia. Se dependesse da ala esquerda no Partido Democrata, Bernie Sanders teria sido o candidato, com mais chances de derrotar Trump. Se parte da esquerda ainda tentou ajudar a liberal Hillary a vencer nos EUA e o conservador David Cameron a manter o Reino Unido na União Europeia, foi por recear a ultradireita como mal maior.

A decomposição da velha ordem continua. Na Europa Oriental, cuja maior aspiração há alguns anos era a integração na UE, candidatos simpáticos a Vladimir Putin acabam de ser eleitos na Bulgária e Moldávia e o ministro do Desenvolvimento Alexei Ulyukayev, um dos últimos representantes da ala “liberal” no Kremlin, acaba de ser expurgado e preso. Em 4 de dezembro, Matteo Renzi provavelmente perderá o referendo sobre reforma política na Itália e abrirá caminho a mais um governo nacionalista. No mesmo dia, a Áustria deve eleger o neonazista Norbert Hofer para a Presidência.

Em 2017, François Hollande e Angela Merkel tentarão a reeleição, mas ninguém se surpreenda se a vitória for de Marine Le Pen e Frauke Petry. Não é à toa que o economista e ex-senador irlandês Sean Barrett implora a seu governo por planos de contingência para um colapso da UE.

Não é só a União Europeia. O Tribunal Penal Internacional, proposta capenga de cooperação internacional na investigação e punição de crimes contra a humanidade, está em vias de colapso com seu abandono por parte de países africanos e da Rússia.

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...ou de um Metternich. Na vida real, Trump cogita de Rudy Giuliani, John Bolton ou Newt Gingrich

Países da América Latina e outras partes do mundo também precisam de planos para o mundo pós-neoliberal e pós-globalização, cujas regras, se existirem, ainda estão por ser formuladas. Stephen Walt, professor de relações internacionais de Harvard, especula sobre uma “Paz de Trumpfália”, uma reedição da Paz de Westfália de 1648, que encerrou a Guerra dos Trinta Anos com um tratado que acabou com as pretensões da Casa da Áustria de consolidar o Sacro Império Romano e fundou os princípios da soberania e equilíbrio entre as nações, minados pela hegemonia de Washington e pela globalização, mas nunca formalmente abolidos.

Ou seja, os EUA desistiriam da pretensão de policiar o mundo, classificar governos pouco amigáveis como “eixo do mal” ou “Estados fracassados” e promover mudanças de regimes para “proteger civis”, para proclamar que cada Estado é responsável por seu território e cidadãos e não deve interferir em assuntos internos alheios. Washington só se preocuparia com a defesa das próprias fronteiras e as de aliados formais que restassem após uma revisão dos compromissos internacionais. Sua diplomacia seria balizada pelo interesse nacional puro e simples, independentemente do caráter dos regimes com que se relaciona.

Pouco importará a anexação da Crimeia e o autoritarismo de Putin se a Rússia oferecer bons negócios. Como também não importará se França e Alemanha apoiaram por décadas a estratégia dos EUA e sua visão tradicional de “mundo livre” e democracia liberal.

Mas Walt admite ser essa uma visão muito otimista, cuja concretização exigiria sutileza, visão e habilidade diplomática de um Talleyrand ou Metternich, ausentes da exaltada e amadora equipe de Trump. E não vê no novo presidente um Hitler ou Mussolini, ao menos quanto à disposição de iniciar uma guerra mundial, mas considera real a possibilidade de se tornar um Putin ou Erdogan, disposto a reescrever a Constituição e concentrar e perpetuar seu poder.

Trump e seus similares nem sempre conseguem tudo como querem. Existem e continuarão a existir forças internas e externas contrárias às suas pretensões, com as quais têm de lidar, negociar e por vezes ceder. Mas é ainda mais improvável abandonarem o espírito de suas campanhas e fazerem um governo convencional.

O entusiasmo dos eleitores lhes é pelo menos tão vital quanto o de aliados políticos tradicionais e provavelmente mais. Se as massas que os elegeram continuarem dispostas a sair às ruas para apoiá-lo, os políticos se dobrarão, mas se contentarem a estes e fizerem os eleitores se sentirem traídos, cairão na próxima eleição, se não antes. 

O essencial não serão os índices econômicos e outros “fatos”, nem o cumprimento literal das promessas de campanha, mas a capacidade do líder de mostrar um caminho compatível com as expectativas criadas e encontrar bodes expiatórios convincentes para os obstáculos. Os russos continuam a apoiar Putin, apesar das agruras econômicas, porque ele atende à expectativa de restaurar o status da Rússia como uma potência respeitável e pode plausivelmente culpar os Estados Unidos, a União Europeia e o “terrorismo” pelos problemas.

No caso de Trump, trata-se de restaurar o status da classe média branca, codinome “América”, e a lista dos bodes expiatórios começa pelos imigrantes e pelos liberais “agentes da Fraternidade Muçulmana”. O problema é menos o que o presidente pode fazer, apesar de as propostas de construir o muro e fichar todos os muçulmanos continuarem em pauta, do que a maneira como milhões de racistas e fanáticos se sentirão autorizados ou encorajados a agir e a medida em que o clima cultural legitimará a intolerância, nos EUA e no resto do mundo. 

Em 2016, antes da eleição, o FBI já constatava um aumento de 67% nos crimes de ódio contra muçulmanos e 9% contra judeus ante o ano anterior. Na primeira semana após, foram registrados pelo menos 300 incidentes, inclusive uma suástica talhada na parede do prédio de Nova York onde mora o senador democrata Brad Hoylman, judeu e homossexual. 

Dada a influência cultural dos EUA no mundo, pode-se esperar o crescimento do mesmo tribalismo e ódio racial e cultural em qualquer parte onde uma classe média tradicionalmente privilegiada e decadente se sentir ameaçada por estrangeiros e mudanças nos costumes.

Mais do que a retração do comércio internacional e do crescimento econômico temida por nomes como Roubini – risco, por ora, alegremente ignorado pelas bolsas –, esse pode ser o tom do novo momento histórico. Ainda que, a longo prazo, talvez o legado mais perigoso possa ser o abandono da cooperação internacional no combate ao aquecimento global.