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Número 926,

Saúde

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De olho no lance

por Rogério Tuma publicado 14/11/2016 00h14
Por que há juízes de futebol que erram muito, enquanto há outros que parecem ter olhos de lince
Ben Keller/ Wikipedia
Árbitro

"Aquele que conhece bem a si próprio não confia em ninguém" - Paul Eldridge

Não tem jogo em que o juiz não é acusado de errar. Mas muitas vezes os árbitros atuam de maneira exemplar. O trabalho do árbitro é de muita responsabilidade e estressante, pois uma decisão errada pode mudar o destino do jogo e as escolhas são sempre difíceis. Devem ser feitas em poucos segundos, baseadas em várias informações que o próprio árbitro deve observar durante a jogada, além de avaliar o depoimento de seus auxiliares, que, por se posicionarem fora do campo, têm uma razoável margem de erro. 

Sem a chance de parar o jogo e analisar o lance que está sendo questionado, a exemplo do que ocorre em outros esportes semelhantes, como o rúgbi ou o futebol americano, a arbitragem no futebol é mais um fator imponderável que deixa esse esporte tão emocionante.

Existem muitos estudos que analisam como um bom jogador constrói sua jogada, sua percepção tridimensional, cálculo, análise de risco e planejamento. Todas essas qualidades são importantes para formar um craque. Todas são características genéticas, mas que podem ser aperfeiçoadas com treino. Quanto ao trabalho do juiz, poucos são os estudos, mas, se descobríssemos o que é necessário para transformar um árbitro em expert, poderíamos construir um modelo de aperfeiçoamento da profissão.

Num desses raros estudos, para checar as diferenças entre um juiz de futebol de alta qualidade e os não tão bons assim, pesquisadores da Bélgica e da Inglaterra selecionaram 39 árbitros da Primeira e da Terceira Divisão e lhes apresentaram 20 vídeos, nos quais dez eram cenas de cobranças de escanteio e outros dez, disputas de bola no campo. Entre eles, de disputa de bola havia três vídeos, nos quais, apesar do impacto entre os jogadores, não houve falta. Uma espécie de óculos que consegue analisar para onde o juiz estava olhando na cena avaliou o comportamento da visão de cada um dos árbitros.

A descoberta foi interessante. Juízes de elite acertaram em 61% dos casos sobre que sanção deveriam dar aos jogadores, entre falta, cartão amarelo ou vermelho, enquanto juízes da liga inferior acertaram apenas 45% dos veredictos. 

O comportamento de procura do olhar foi o fator que mais diferenciou os dois grupos. Juízes de boa qualidade conseguiam, provavelmente por experiência, concentrar seus olhares nas áreas de maior risco de colisão entre os jogadores, enquanto os outros olhavam a cena sem se fixar por muito tempo em locais de risco.

Para os pesquisadores doutor Jochim Spitz e colaboradores da Universidade de Leuven, na Bélgica, o comportamento de procura do olhar é uma qualidade genética, mas que pode melhorar muito com o treino. Com o tempo, os experts aprendem a checar onde a falta pode ocorrer com maior probabilidade, e não apenas o trajeto da bola.

Atualmente, os treinos de juízes são feitos com preparo físico e discussões teóricas sobre as regras do jogo. Mas os autores sugerem que vídeos sejam uma ferramenta básica para o aperfeiçoamento da profissão, em que a simulação de jogadas exija tomadas de decisão mais realistas. Baseados no estudo e em conjunto com a Uefa, os pesquisadores desenvolveram uma ferramenta de treino que pode ser acessada no site www.perfection4perfection.eu. Se você quer saber se daria um bom árbitro, assista a alguns exemplos dos vídeos e divirta-se aprendendo que a vida de juiz é muito mais difícil do que parece.