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Número 923,

Política

Opinião

Eleições 2016: Recado que nada diz

por Marcos Coimbra publicado 19/10/2016 05h18
Inútil buscar tendências claras nos resultados do pleito municipal. Importa é saber aonde o medo a Lula levará o aparato policial-judicial
Fabio Arantes/ Secom
Haddad e Doria

A derrota de Haddad pode ser prova da “crise do PT”, mas pode também demonstrar a dificuldade de reeleger-se

É fato que as urnas “mandam recados”. Na democracia, é através delas que o universo do eleitorado se exprime, simultaneamente e a respeito das mesmas questões. Há outras formas de participação e expressão, mas nenhuma possui essas características.   

As urnas registram o pronunciamento de um determinado eleitorado em determinado momento. Como fica evidente nos referendos: convocados a dizer se querem, por exemplo, que uma proposta de lei seja aprovada ou rejeitada, os eleitores respondem “sim” ou “não”. Sua mensagem é indiscutível e ninguém precisa decifrá-la. 

Mas quando diferentes eleitorados se manifestam a respeito de escolhas diferentes, faz sentido procurar um significado único? Certamente que não. Cada eleitorado manda um “recado” específico, por estar diante de uma escolha específica.    

O último que o conjunto do eleitorado brasileiro enviou foi em 26 de outubro de 2014, afirmando que preferia Dilma Rousseff (e o que ela representava) a Aécio Neves (e o que ele representava). Passado um ano e meio, o sistema político resolveu desprezá-lo, mas esta é outra história. 

Naquela mesma eleição, os eleitores de São Paulo enviaram um “recado” sobre o que desejavam na administração estadual, votando pela permanência do governador. Nos outros 25 estados e no Distrito Federal, decisões análogas. No Rio de Janeiro, prevaleceu a continuidade, em Minas Gerais, a mudança, e assim por diante. Em cada um, eleitorados com características próprias reagiram a cenários políticos específicos. 

Em diversos lugares, o “recado” da eleição presidencial não coincidiu com o da escolha estadual. No cômputo final, Dilma saiu-se melhor em 14 estados, e em três venceram candidatos a governador que lhe faziam oposição, enquanto Aécio foi vitorioso em 13, dos quais sete foram conquistados por partidos que não o apoiavam. Exemplificando: no Acre, o tucano venceu para presidente e um petista para governador; no Pará, o inverso, Dilma para o Planalto e um peessedebista para o governo estadual.    

Se tais dissonâncias entre “recados” nacionais e estaduais são frequentes, embora sejam, às vezes, estranhas, o que extrair da algaravia das eleições municipais? Como encontrar o sentido do que as urnas dizem quando não lidamos com um único eleitorado nacional ou 27 eleitorados estaduais, mas com 5.570 eleitorados locais diferentes?  

Não é apenas no tocante aos eleitores que os municípios diferem. Também a oferta que o sistema político apresenta pode variar imensamente. Ao fazer a contabilidade dos partidos “vencedores” e “perdedores” na eleição que acaba de ocorrer, vale lembrar que o PMDB de Michel Temer esteve coligado ao PT de Dilma em 1.260 municípios, que o PSDB e o PT apoiaram o mesmo candidato a prefeito em 734 cidades, e que os petistas e os ex-pefelistas do DEM marcharam juntos em 723 eleições locais.   

Temer
O que os governistas farão com o fardo da impopularidade de Temer? (Foto: Beto Barata/PR)

As eleições municipais de 2016 foram iguais a todas no fundamental: os eleitores participaram delas pensando, acima de tudo, em suas cidades. Sempre há exceções, de candidatos que vencem ou perdem por fatores supramunicipais, mas é necessário cautela ao identificá-los. Algo que, visto de longe, pode parecer que confirma a “nacionalização”, talvez não seja mais que uma regra local. 

Tome-se o caso de São Paulo, que costuma ser tratado como se de lá viesse o “recado” mais eloquente de uma eleição municipal. A derrota de Fernando Haddad pode ser prova inequívoca da “crise do PT”, como tantos disseram, mas pode também demonstrar a dificuldade de qualquer prefeito, independentemente do partido, reeleger-se ou fazer seu sucessor na cidade.

Nos últimos 20 anos, somente Gilberto Kassab conseguiu tal proeza, mas em condições especiais, pois exerceu o primeiro mandato por apenas 18 meses antes de se candidatar ao segundo, o que o poupou do desgaste do tempo.

As eleições para prefeito continuam no segundo turno em 55 cidades. Dia 30, depois da apuração, voltaremos a escutar a mesma cantilena, de que “o PT sumiu”, “o PSDB cresceu”, “o PMDB continua grande” e por aí vai. 

Daqui a dois anos, no entanto, quando chegarem as eleições que efetivamente contam para os destinos do País, ninguém nem sequer se recordará dessas conversas. Relevantes são outras coisas: aonde o medo a Lula levará seus inimigos no aparato judicial-policial? O que os governistas farão com o fardo da impopularidade de Temer? A extrema-direita disputará com candidato próprio? Uma nova esquerda estará madura?  

As urnas de 2016 têm pouquíssimo a revelar a respeito do que é importante.  

*Coluna publicada originalmente na edição 923 de CartaCapital, com o título "Recado que nada diz". Assine CartaCapital.