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Número 922,

Economia

The Guardian

Deutsche Bank, com pés de barro

por Jill Treanor — publicado 14/10/2016 04h36
Por que salvar o banco tornou-se uma questão de Estado para a Alemanha de Angela Merkel
Daniel Roland/AFP
Deutsche Bank

O patrimônio correspondia a meio PIB alemão, mas o banco perdeu metade do valor de Bolsa em um ano

Líderes empresariais da Alemanha decidiram apoiar o Deutsche Bank depois de uma semana turbulenta no mercado. As ações do maior banco do país foram arrastadas para seus níveis mais baixos em 30 anos, diante do risco da aplicação de uma multa de 14 bilhões de dólares por autoridades dos Estados Unidos em consequência de operações com títulos garantidos por hipotecas de má qualidade na crise de 2008.

Em meio a preocupações de que as dificuldades do Deutsche Bank possam provocar o caos no mundo, investidores e políticos acompanham as tentativas do executivo-chefe do banco, John Cryan, de fechar um acordo relativo ao escândalo de dez anos de transações irregulares.

O executivo britânico, à frente do Deutsche desde meados de 2015, pretendia encontrar-se com banqueiros e políticos na reunião anual do Fundo Monetário Internacional, iniciada na terça-feira 4, nos Estados Unidos, para a celebrar o pacto.

Durante o fim de semana, líderes empresariais deram declarações a jornais alemães em apoio aos esforços de Cryan para reverter a situação do Deutsche Bank, um esteio da economia nacional. Com um patrimônio de 1,8 trilhão de euros, tem quase a metade do tamanho da economia alemã, mas por causa de sua queda na Bolsa está avaliado pelos investidores em apenas 16 bilhões de euros. O FMI o descreveu como o banco mais importante do mundo, do ponto de vista sistêmico.

O ministro da Economia alemão, Sigmar Gabriel, disse que executivos do banco colocaram em risco um grande número de empregos: “Milhares serão demitidos. Agora eles pagarão pela loucura praticada por diretores irresponsáveis”.

As ações do banco se recuperaram na sexta-feira 30, depois de uma reportagem da agência de notícias AFP anunciar que o acordo totalizaria 5,4 bilhões de dólares, em vez dos 14 bilhões previstos. No mês passado, a queda das ações ganhou força após notícias, insistentemente negadas, de que o banco solicitara auxílio à chanceler alemã, Angela Merkel.

Em uma carta enviada aos 100 mil funcionários da instituição, Cryan atacou as “forças do mercado” que tentam desestabilizá-la. A mensagem foi encaminhada depois de a agência Bloomberg relatar que dez fundos hedge decidiram reduzir seus negócios com o banco.

No domingo 2, Jürgen Hambrecht, presidente da indústria química Basf, disse ao jornal Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung: “A indústria alemã precisa de um banco alemão que nos acompanhe mundo afora”. “O Deutsche Bank tem uma grande tradição, uma base sólida e também um grande futuro. Estou convencido disso”, afirmou o executivo-chefe da empresa automobilística Daimler, Dieter Zetsche.

GráficoPeter Ramsauer, presidente da Comissão Econômica do Parlamento alemão, também falou sobre as “características de guerra econômica” na abordagem americana. As eleições presidenciais nos EUA, no próximo mês, são vistas como um possível prazo para se chegar a um acordo com o Departamento de Justiça, que firmou pactos com vários bancos americanos, inclusive o Goldman Sachs.

O Financial Times informou que o Credit Suisse e o Barclays poderiam fazer parte do acordo. O Banco Real da Escócia, socorrido financeiramente pelas autoridades, advertiu que poderá precisar de um acordo com o Departamento de Justiça em torno de 9 bilhões de libras.

Segundo Ross McEwan, o executivo-chefe da instituição, as negociações para um pacto com o Departamento de Justiça não haviam começado, apesar de o banco, com 73% do controle pulverizado entre pequenos acionistas, ter pago 846 milhões de libras à Administração Nacional de Cooperativas de Crédito por conta do escândalo.

Os problemas do Deutsche Bank não se limitam aos Estados Unidos. Enfrentará uma investigação de suas atividades na Rússia, e vários funcionários e ex-funcionários foram acusados em Milão de ligação com o Banca Monte dei Paschi di Siena SpA, o terceiro maior da Itália, numa conspiração para falsificar contas e manipular o mercado.

A mídia explora as contradições do governo alemão no socorro às instituições financeiras. “É claro que a chanceler Merkel não quer dar ao Deutsche Bank ajuda estatal. Ela não pode sustentar isso do ponto de vista da política externa, porque Berlim assume uma linha dura no resgate aos bancos italianos”, relatou a agência Reuters, em citação do jornal Frankfurter Allgemeine.

O chefe da Autoridade Federal de Supervisão Financeira da Alemanha, Felix Hufeld, pediu aos cidadãos para não entrarem em pânico. “Apelo para não se deixarem arrastar para o tipo de espiral descendente de percepção negativa. Nem toda reação nervosa do mercado é baseada em fatos objetivos”, disse ao periódico de Frankfurt, sem citar diretamente o próprio Deutsche.

O banco participou da ascensão da Alemanha à condição de potência econômica, ao financiar sua indústria no século XIX e contribuir com a recuperação após a Segunda Guerra Mundial. Ele enfrentou os gigantes de Wall Street na economia globalizada do pós-Guerra e sobreviveu à crise bancária de 2008 sem pedir resgate.

Em uma indicação do prestígio da instituição, Merkel organizou naquele ano uma festa especial comemorativa dos 60 anos do então diretor Josef Ackermann, com um jantar de aspargos frescos e bife à milanesa em sua chancelaria.

Agora, quando o banco completa 146 anos, surgem perguntas sobre como se reinventará em um cenário financeiro sob abalos sísmicos em consequência da mudança regulatória e de temores de uma recessão econômica global.

Cryan e Schäuble
Cryan implora por um acordo, enquanto Schäuble é cobrado por uma situação que considerava exclusiva dos execrados bancos gregos (Fotos: Kai Pfaffenbach/AFP e Michael Kappeler/AFP)

Segundo Jörg Rocholl, presidente da Escola de Administração e Tecnologia de Berlim, “não há outro país em que um banco tenha um papel tão central como o Deutsche Bank na Alemanha”.

Christopher Wheeler, analista de bancos na Atlantic Equities, disse que o Deutsche se assemelha ao Barclays do Reino Unidos, um banco de investimentos e importante credor para grandes empresas. Agora tenta se livrar do Postbank, seu braço de varejo, adquirido em 2010, em meio a dúvidas sobre como vai gerar receitas no futuro.

As tentativas de desmembrar o Postbank mostram-se perturbadoras, e um relatório divulgado na quarta-feira 28 sugeriu que o Deutsche teria de reduzir o valor da empresa em um terço, para 2,8 bilhões de euros, antes de prosseguir nas negociações.

Acrescentam-se preocupações sobre a conta potencial de litígios e multas. Analistas do Morgan Stanley previram mais 3,9 bilhões de euros em custos entre 2016 e 2017. “Talvez essas pendências não se resolvam até 2017”, disseram analistas. Eles citam “disputas não resolvidas que o mercado luta para encerrar, fraca geração de capital e necessidade de ações para levantar capital”.

O ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, provavelmente exultou diante da serenidade da mídia alemã na cobertura dos problemas do Deutsche, mas certamente irritou-se com esse terrível comentário na primeira página do Frankfurter Allgemeine Zeitung: “O que se pode pensar sobre um banco que tem de prometer a seus clientes e investidores que é capaz de devolver seus depósitos e aplicações? Quão sólida é uma instituição que perdeu um terço do seu valor em ações em um mês, e a metade dele durante um ano? Não são mais os clientes de alguns bancos gregos que estão fazendo perguntas tão duras, mas os clientes do Deutsche Bank”.

*Reportagem publicada originalmente na edição 922 de CartaCapital, com o título "Com pés de barro". Assine CartaCapital.