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Número 922,

Internacional

Farc

Colômbia: A paz na UTI

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 14/10/2016 13h35, última modificação 15/10/2016 07h38
A vitória do “Não” põe a pique um acordo dado como certo e transforma Álvaro Uribe em árbitro da situação
Guillermo Legaria/AFP
Plebiscito

A esperança de pôr um ponto final em uma guerra de 52 anos foi enterrada por 0,4% dos votos

A maioria das pesquisas indicou uma vantagem de 54% a 66% para o “Sim” no plebiscito sobre o acordo de paz na Colômbia. A vitória do “Não”, ainda que por meros 50,21% a 49,78%, diferença de menos de 54 mil votos em 13 milhões, foi um choque para a maioria dos analistas internacionais, tanto quanto a vitória do Brexit no Reino Unido ou a escolha de Donald Trump como candidato dos republicanos nos EUA. Como explicar esse resultado?

Uma questão decisiva foi o fato de grande parte da população não sentir o problema na pele. Como mostram os mapas ao lado, o “Sim” ganhou nos departamentos onde a guerrilha está presente, na maioria deles com mais de 60% e com quase 80% em Vaupés (na Amazônia, fronteira do Brasil) e Chocó (outra região de selva, na fronteira do Panamá).

Mas nos departamentos distantes dos combates (salvo a capital Bogotá, onde o “Sim” teve 56%), os votos contra o acordo chegaram a mais de 60%. Além disso, 63% dos eleitores se abstiveram. Isso não é inédito na tradição eleitoral da Colômbia, onde apenas 28% foram ao primeiro turno da eleição presidencial de 2014, mas é desanimador para uma decisão dessa importância.

Para muitas dessas populações é como se a guerra acontecesse em outro país. Não é muito diferente da atitude do estadunidense inconformado com a retirada no Vietnã ou o acordo com o Irã. Quando só se veem os combates pela tevê, é fácil ignorar o desespero alheio, rejeitar concessões e insistir em continuar a luta até a vitória, principalmente quando há uma campanha organizada para convencê-lo de que a paz significaria se render ao “comunismo”, ou coisa parecida. 

A campanha do “Não”, liderada pelo ex-presidente e pelo ex-procurador Alejandro Ordoñez, cujo mote foi #SiALaPazPeroEstaNo, “sim à paz, mas não esta”, disse aos eleitores que o acordo, pelo qual as Farc entregariam as armas e se transformariam em partido político com direito a mídia e fundo partidário, seria abrir caminho para eleger o líder guerrilheiro Timochenko presidente, coisa inconcebível no conservador cenário político do país e até para promover a tal da “ideologia de gênero”, um novo bicho-papão das direitas latino-americanas. 

O padre progressista Eduardo de la Serna, colunista do Página/12 (e primo distante do Che), conta de Bogotá que os setores integristas liderados por Ordoñez foram apoiados por alguns bispos colombianos, “para muitos dos quais um casal homossexual é mais grave do que sequestros, minas antipessoais, guerra ou violência”.

Uma senhora por eles influenciada insistiu em votar contra os acordos porque eles “defendem o matrimônio igualitário”, e de nada adiantou mostrar que sequer a palavra “casamento” consta das 297 páginas do acordo. “Escolheu acreditar na mentira”, conclui Serna.

Na revista Foreign Policy, acusou-se o governo colombiano de ter feito uma campanha abstrata pela paz conduzida por “gente da cidade”, em vez de ir aos grotões explicar às populações das regiões afetadas como elas seriam beneficiadas, mas, como foi dito acima, estas majoritariamente apoiaram o acordo. O problema não foi esse. 

Segundo o analista colombiano Pedro Santana, ouvido pelo jornal O Globo, muitos cidadãos teriam se recusado a prestigiar um acordo que parecia fortalecer um governo impopular por sua política econômica e uma guerrilha idem por seu histórico violento, disposição reforçada pelo destaque dado pela campanha do “Sim” ao apoio de políticos tradicionais desprestigiados, mais do que ao de movimentos sociais e de vítimas da guerra

Gráfico

É difícil imaginar, porém, como poderia ser de outra maneira. Esses são o governo, a política e a guerrilha da Colômbia real, que nada tem a ganhar com a continuação indefinida do conflito e da incerteza.

Se for assim, trata-se de uma rejeição à “política” que, tal como o voto na xenofobia no Hemisfério Norte ou o voto em candidatos pretensamente apolíticos no Brasil, quase sempre favorece automaticamente as posições mais conservadoras. Pode-se apenas criticar o presidente Juan Manuel Santos por ter insistido em um plebiscito legalmente dispensável.

Um resultado favorável teria dividido riscos e fortalecido seu governo e o acordo, mas assim como David Cameron, perdeu a aposta e as chances de ganhar um Nobel da Paz. Às vezes é mais proveitoso assumir como estadista a responsabilidade e o risco de errar.  

A paz ainda pode ser salva? Apesar do apoio internacional ao acordo, não será fácil. As Farc insistem em que o plebiscito não tem valor legal. O argumento é similar ao dos opositores do Brexit no Reino Unido, igualmente obstinados em afirmar que o referendo não era vinculante.

Mas, em qualquer dos casos, mesmo se a ideia for defensável no campo jurídico, é impossível ignorar a questão da legitimidade política. Não se pode convocar o povo a opinar e depois descartar sem mais a sua decisão, por insensata que seja.

Jornalistas e analistas defenderam revisar o acordo de uma forma menos favorável para as Farc. Sugeriram, por exemplo, que seus líderes se conformem com algum tempo na prisão e abram mão de assentos garantidos no Congresso.

Supostamente, a direita de Uribe assim poderia alegar ter conseguido concessões importantes e dar aval ao novo acordo. Isso embute, porém, um ingênuo erro de avaliação sobre as prioridades da extrema-direita.

Não é apenas uma questão de Álvaro Uribe querer tirar o protagonismo de Santos e fazer a paz em seu lugar para lucrar politicamente. A questão mais importante é que a paz significaria instalar uma Comissão da Verdade da qual o ex-presidente e seus ex-comandados, bem como os latifundiários que lhe deram apoio e armaram paramilitares, dificilmente sairiam incólumes.

Todos eles têm a esconder décadas de cumplicidade com assassinatos de políticos oposicionistas e de líderes sindicais e comunitários, com o roubo por latifundiários de terras de camponeses deslocados pela guerrilha ou expulsos por paramilitares que ainda lucram com o narcotráfico, o garimpo e outras atividades ilegais viabilizadas pela guerra.

Uribe
O referendo frustrou Santos e pôs o futuro nas mãos de Uribe. Talvez só para garantir a sua impunidade (Foto: Cesar Carrion/AFP)

Uribe e seu “Centro Democrático” recusaram-se a participar da reunião convocada pelo presidente com todos os partidos na segunda-feira 3, mas designaram representantes (três líderes da campanha do “Não” e pré-candidatos presidenciais em potencial) para uma negociação em separado na quinta-feira 6, da qual também devem participar emissários do ex-presidente Andrés Pastrana, aliado de Uribe contra o acordo (apesar de ser do Partido Conservador, que foi pela paz) e que guarda o mesmo tipo de esqueletos no armário. 

Para surpresa de muitos, na terça-feira, Uribe, no Senado, se disse disposto a apoiar uma anistia para os guerrilheiros das Farc e a continuação do cessar-fogo, mas pediu a aprovação de um indulto a cerca de 5,7 mil militares já condenados por crimes de guerra hoje não anistiáveis.

Talvez esteja disposto a uma anistia “à brasileira”, se tiver garantias suficientes de que ele e seus aliados continuem a ocupar postos estratégicos sem correr riscos de denúncias e processos, e de que ex-guerrilheiros não tenham chances reais de se eleger. 

A decisão não pertence, porém, só a ele ou ao presidente Santos, mas também às Farc, que não foram derrotadas no campo de batalha e têm ideais e prestígio a defender. Embora o presidente Santos prometa continuar a buscar a paz até o fim de seu mandato (7 de agosto de 2018) e garanta por ora a manutenção do cessar-fogo, o acordo não pode permanecer no limbo por muito tempo.

Paramilitares podem provocar a guerrilha para forçar uma reação e culpá-la pela retomada do conflito, ou dissidentes da liderança das Farc podem decidir que a negociação fracassou e retomar a luta por sua conta. Como teria dito Talleyrand, chanceler de Napoleão, pode-se fazer de tudo com baionetas, menos sentar-se nelas.

*Reportagem publicada originalmente na edição 922 de CartaCapital, com o título "A paz na UTI". Assine CartaCapital.