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Número 921,

Internacional

EUA

Hillary x Trump: vitória por pontos

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 03/10/2016 04h27, última modificação 03/10/2016 17h08
Desta vez, não “é a economia, estúpido”, ou não só. Hillary precisa enfrentar os fantasmas da classe média branca
Joe Raedle/AFP
Debate Hillary e Trump

Hillary ri à toa e Trump esbraveja. O debate deu impulso à democrata quando ela mais precisava

Segundo todos os analistas sérios, Hillary Clinton venceu Donald Trump no debate da segunda-feira 26, o primeiro no qual ambos de fato se enfrentaram cara a cara. Na bolsa de apostas, suas chances subiram de 68% para 73%. O republicano, pelo teor das suas reações após o debate, sabe não ter se saído bem. Prometeu “bater mais forte da próxima vez” e ameaçou trazer à baila o adultério de Bill. Já a democrata, nos dias seguintes, foi só euforia.

Não poderia ser em melhor momento para Hillary, cuja margem sobre o adversário no voto nacional caíra na média das pesquisas de 6% a 7% em agosto para 1% a 2% às vésperas do debate. A distribuição dos votos por estados dá a Trump a possibilidade de vencer mesmo se ficar um pouco atrás no voto popular.

Bastaria virar o Colorado, onde hoje a democrata ganha por 45% a 43%, para dar a maioria ao republicano no Colégio Eleitoral. Para evitar esse desfecho é preciso entender como Trump chegou aonde chegou e por que continua viável, mesmo sendo Barack Obama razoavelmente popular e a economia não parece ir tão mal.

No começo, demonstrou haver certo equilíbrio. O republicano disparou contra o livre-comércio, um tema no qual boa parte do público, à direita ou à esquerda, lhe dá razão e a democrata, cuja imagem está inevitavelmente ligada aos acordos comerciais dos governos de Bill Clinton e de Obama, defendeu-se de forma insincera, ao se dizer contra o Tratado Transpacífico ao qual, quando comandava a diplomacia estadunidense, dava apoio irrestrito e descrevia como um “padrão-ouro” de negociação. 

Sobre segurança, ela propôs melhor preparo para a polícia, “todos devem ser respeitados pela lei e todos devem respeitar a lei” e ele “lei e ordem”, senha para mais repressão e prisões de integrantes de minorias. Ao se falar de impostos, ela defendeu aumentá-los para a alta renda e ele reduzi-los em geral e esqueceu-se de já ter proposto mais taxas aos ricos.

São posições partidárias tradicionais e, presumivelmente, não somam nem tiram votos. Que as contas de Trump não fechem de jeito nenhum, como também não fechavam as de Bush filho em 2000, nunca foi considerado um problema sério pela maioria dos jornalistas e eleitores e o tema da imigração, central na campanha, não foi levantado pelo mediador nem pelos candidatos.

É no tema da política externa que Trump mais rompe com a tradição republicana. Voltou a insistir em que os EUA não deveriam defender países como a Coreia do Sul, a Arábia Saudita, a Alemanha e, principalmente, o Japão “gigante que nos vende carros aos milhões”.

A democrata literalmente pediu desculpas aos aliados pelo comportamento do adversário e valorizou as negociações, coalizões e o sucesso na negociação com o Irã, embora na verdade este último seja mais mérito de seu sucessor John Kerry. 

Quando Trump criticou as ações no Iraque e na Líbia, ela prontamente pôde recordá-lo de seu apoio às intervenções na época e, quando o confronto se tornou mais livre, Hillary fez o adversário engolir suas iscas, dançar sua música e se debater com suas próprias contradições.

Houve oportunidade para ela citar seus calotes a empresários, fornecedores e empregados e a recusa a divulgar as declarações de impostos para expor o bilionário que tenta passar como campeão das massas contra a elite como o explorador cínico e impiedoso que é. “Isso me faz esperto”, defendeu-se ele. 

Ela lembrou os disparates do adversário sobre o aquecimento global, “inventado por e para os chineses para tornar a indústria dos EUA não competitiva”, e sobre Obama, “nascido no Quênia”, e o republicano só respondeu com resmungos, fungadelas, interrupções mal-educadas e tentativas de negar ter dito frases muitas vezes repetidas e registradas.

Quando acusou a ex-secretária de Estado de não ter “aparência presidencial” nem “resistência”, tornou-se alvo fácil de acusações irrefutáveis de machismo e, por extensão, de racismo. E ele só pode acusar Hillary de ser uma “política profissional”.

Black Lives Matter
As minorias estão conscientes do perigo do retrocesso (Foto: Steve Eberhardt/Fotoarena)

Deveria ser um nocaute, mas Hillary só ganhou por pontos. Serviu para avançar um pouco nas pesquisas seguintes, mas não para garantir a vitória. Tais ressaltos podem ser temporários, como aqueles proporcionados pelas convenções partidárias. 

Segundo a CNN, 62% a 27% julgaram Hillary vencedora, mas a amostra pequena dá à sua pesquisa uma margem de erro muito grande e a torna inútil para análises detalhadas. A Public Policy Polling (PPP), com amostra duas vezes maior, dá a Hillary 51% a 40% entre o público em geral, mas – por incrível que pareça – 47% a 45% dos brancos julgam Trump vencedor.

Ao se perguntar como o debate afetou a inclinação a votar na democrata, na média 40% dizem ter aumentado e 35% diminuído, mas entre brancos a proporção é – leiam bem – 34% a 43%. Por 50% a 43% estes também acham Trump “mais capaz de unir o país”.

Já entre os negros, 83% julgam a democrata vencedora e mais capaz de unir o país e 74% dizem que o debate aumentou a disposição a votar nela. Mulheres são mais favoráveis a Hillary do que os homens e menores de 30 anos mais que os mais velhos, mas por diferenças bem menos marcadas.

Em ambas as pesquisas, as amostras colhidas entre os telespectadores continham 41% de democratas, mais do que os 28% a 32% declarados nas pesquisas nacionais e apenas 27% de independentes na pesquisa PPP e 33% na CNN, quando são 38% a 44% nas pesquisas nacionais. Se não foi distorção, indica desinteresse da parte dos potenciais indecisos.

Enquanto muitos jovens tendem a desprezar ambos os candidatos e se abster ou votar em terceiros em uma escala nunca vista nos EUA, há uma boa metade do eleitorado branco e maduro decidida a ignorar qualquer consideração racional e votar com as tripas.

Uma questão é que a candidata democrata tem muita experiência de política e governo, mas seu currículo bem conhecido inspira pouca confiança tanto à esquerda quanto à direita. Sua estratégia é assegurar o centro e convencer aos demais de que a eleição é um plebiscito sobre Trump. Mas isso é também encorajar os trumpistas em potencial.

O perfil do eleitor de Trump é bem definido: branco, menos educado e mais devoto do que a média, apesar de o bilionário ser notoriamente lascivo, vulgar e pouco religioso. Nada menos de 94% dos republicanos evangélicos brancos o apoiam.

Seus motivos incluem a rejeição ao aborto e ao casamento homossexual e, por trás disso, o medo de serem desalojados de uma vida de conforto, segurança e relativo privilégio ou a esperança de recuperá-la, quando julgam já tê-las perdido por culpa de estrangeiros, imigrantes e muçulmanos de fora ou de movimentos negros, feministas e homossexuais de dentro.

Segundo a pesquisadora R. Marie Griffith, da Universidade Washington de Saint Louis, “como uma feminista que apoia o que lhes parece serem valores ameaçadores que destruirão os EUA, Hillary Clinton lhes parece o demônio. Trump fala a seus medos mais profundos”. 

Esses medos têm sido há muito exacerbados pelo uso do terrorismo como pretexto para medidas crescentes de controle e vigilância por governos de ambos os partidos. E também por cortes de gastos sociais em nome da globalização, pelo uso da imigração como bode expiatório de mazelas sociais e econômicas, pela exclusão da crítica racional aos fundamentos da sociedade pelo eterno “não há alternativa” e pela relativização da miséria de famílias e comunidades em nome de abstrações como o equilíbrio orçamentário e as exigências do mercado.

Donald Trump
Trump é o messias de uma classe média racista e aterrorizada (Foto: Brian Snyder/Reuters)

Tudo converge para a rejeição do progresso e da diferença e para um salto de fé nos braços do líder messiânico, com a esperança de que ele os leve de volta ao paraíso perdido dos anos 1950, quando supostamente os “homens de bem” eram respeitados e prósperos e mulheres, homossexuais, negros, latinos e chineses sabiam qual era o seu lugar. 

Hillary não enfrenta apenas alguns meses da campanha de Trump, menos bem financiada e menos competente que a sua própria, mas décadas de construção de um clima de desconfiança ante políticos e especialistas e de desesperança em relação a suas soluções pelo qual ela e seu partido também são responsáveis, assim como a maioria das lideranças do Ocidente. 

Trump é um mentiroso grosseiro de forma óbvia para quem tiver um mínimo de senso crítico, mas Hillary, ao insistir em que tudo está bem com a economia e a democracia e que basta continuar as atuais políticas com ajustes menores, é insincera de uma forma mais difícil de demonstrar racionalmente, mas intuitivamente clara para quem não está entre os beneficiários do sistema.

Se ela ainda pode vencer, é porque os negros e minorias igualmente sabem que a alternativa é muito pior e qualquer ganho que Trump possa oferecer à sua base conservadora e preconceituosa será à sua custa.

Ainda há dois debates pela frente, em 9 e 19 de outubro. Nem sempre esses confrontos foram decisivos. Costuma-se atribuir a vitória de John Kennedy a seu desempenho nos pioneiros debates televisivos com Richard Nixon em 1960, o primeiro dos quais foi na mesma data de 26 de setembro, mas Kerry também venceu com folga os debates contra Bush filho em 2004.

*Reportagem publicada originalmente na edição 921 de CartaCapital, com o título "Vitória por pontos". Assine CartaCapital.