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Número 921,

Sociedade

Brasiliana

Tião Biazzo, o assombro de Aguaí

por Luiz Antonio Cintra — publicado 07/10/2016 13h49
O prefeito deu tantos pulinhos que deixou sua cidade mal das pernas
Luiz Antonio Cintra
Mausoléo

O mausoléo familiar, sua representação em pé

De Aguaí

A telefonista da prefeitura de Aguaí, a 200 quilômetros de São Paulo, perto de São João da Boa Vista, quase Minas, tem a resposta pronta. “O prefeito talvez venha amanhã, mas não posso garantir. Ontem ele vinha, mas acabou não aparecendo. Ele nunca avisa, talvez na semana que vem”, responde, antes de passar para a secretária de Sebastião Biazzo, o mais velho prefeito a se eleger em 2012, aos 89 anos. O recorde anterior, em eleição, era de Susumo Itimura, de Londrina (PR), eleito em 2008, aos 90.

Agora aos 93, Tião Biazzo encerra em dezembro – aos trancos, muita ausência e um quase impeachment – o sexto e derradeiro mandato. Ao todo, 22 anos como prefeito, desde 1960, em períodos alternados com a oposição.

Saldo da política local: Aguaí, 32 mil habitantes, vai mal das pernas, 502º lugar no ranking paulista do Índice de Desenvolvimento Humano. A vizinha São João, para onde segue a juventude aguaiana em busca de escola e futuro, esnoba com o seu 28º lugar.

Hoje entre a cadeira de rodas e o andador, o prefeito nunca aparece, passa na prefeitura “pra assinar a papelada”, como se diz na cidadezinha, a cada dez dias ou mais, situação que quase lhe custou o mandato. Mas Tião Biazzo é, antes de tudo, um peemedebista.

Placa
Seus feitos inscritos na pedra (Foto: Luiz Antonio Cintra)

Com bons advogados, melou a sessão de 13 de novembro de 2015, quando a Câmara votaria a sua cassação. Segundo a tese da advogada do prefeito, não lhe foi dado o devido direito de defesa. E Tião manteve as rédeas.

Para o taxista Toninho, conhecedor dos métodos do prefeito fazendeiro (2 mil alqueires na região, dizem), arrisca versão extraoficial, quase mineira, para o não impeachment: “O Tião deu lá os seus pulinho (sic).” Toninho votou em algumas das dez vezes em que Tião se candidatou. Parou, alguns pleitos atrás. Buscava renovação.

Em 2012, recaiu: “O Tião já tava meio véio (sic), mas era a última dele, então achei que era o caso de prestigiar”, diz, reconhecendo ter sido mau negócio para Aguaí, que em tupi quer dizer cascavel, o nome do grupo empresarial de Biazzo e a denominação original da cidade, só 29 anos mais velha que Tião.

Personalista e centralizador, avesso a jornalistas e transparência, mantém o vice, médico local, distante da gestão, precaução de peemedebista rodado. Já respondeu na Justiça por ter pintado prédios públicos, hoje malcuidados, com a cor de suas empresas. E por se beneficiar da doação de área pública a dois clubes presididos por ele, de sua propriedade, declarados à Justiça Eleitoral.

Abandono
O abandono urbano (Foto: Luiz Antonio Cintra)

Tião é mal avaliado, mas é PMDB, então vai assim até o fim. Sem hospital para valer, a Santa Casa fechou, faltam opções de trabalho e de formação. Dizem que Aguaí anda bem pior que no tempo de juventude de Dilma Rousseff, quando a presidenta agora impedida frequentou a cidade em visitas à tia Diva, irmã de sua mãe. Quando a tia faleceu, em 2012, Dilma veio prestar-lhe homenagem – e Tião, que conhece a presidenta impedida desde sempre, teve sua dose de glória ao ser recebido reservadamente.

Muita coisa precisando de reparo em Aguaí – nada do prefeito. A secretária não sabe dizer, sugere procurar o “doutor Marcos”, chefe de gabinete, quem toca a cidade. Tião fica em São Paulo, onde faz tratamento e reside, na casa de um sobrinho, especialista em Direito Público, que também não responde a pedidos de entrevista. Doutor Marcos sabe tudo, mas não lhe pergunte quando o prefeito aparece: “Aí é com o Tião.”

O prefeito não se casou, não tem filhos – a namorada da “vida toda”, enterrada no cemitério local, onde repousa, ninguém ignora, a magnum opus de Biazzo, o mausoléu construído a seu mando, com a sua representação em bronze e, em ferro, a de familiares (pais, sete irmãos e cinco irmãs), inaugurado em 2001. Nas placas, seus “feitos”.

De vendedor de frutas a empresário bem-sucedido e filantropo. Patrimônio declarado em 2012: 6,7 milhões de reais, toda uma trajetória costurada entre o público e o privado. Funcionário remediado de curtume da cidade, início de carreira, teria encontrado aí os seus primeiros meios, dado os seus pulinhos.

Moradores
Os moradores Vanessa e Panceri, a reconhecer que no passado Tião fez algo por eles (Foto: Luiz Antonio Cintra)

“Todo dia saía (sic) três caminhões com gente pra trabalhar nas terras do Tião. Ele foi bom prefeito, sim”, diz o aposentado Benedito Panceri, 73 anos, na lida com a enxada desde os 7. Aponta as diárias pagas aos boias-frias como o maior feito de Biazzo.

Quando a família fica doente, toca pra São João. Estudante de administração na cidade vizinha, a cerca de 25 quilômetros, Vanessa Cunha, dez anos em Aguaí, diz que o prefeito governou pensando em seus próprios interesses. “Ele fazia muita coisa, agora foi muito ruim. O Tião parou no tempo e a cidade parou junto.”

Indiciado por dano ao Erário, pela contratação irregular de uma distribuidora de combustíveis, o inquérito foi arquivado porque o suposto crime prescrevera. Tião é PMDB.

*Reportagem publicada originalmente na edição 921 de CartaCapital, com o título "O assombro de Aguaí". Assine CartaCapital

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