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Número 921,

Saúde

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Sífilis adquirida

por Dráuzio Varella publicado 03/10/2016 12h19, última modificação 07/10/2016 13h49
Dá para entender como uma doença facilmente curável continua matando?
Belle Époque

Sinistra parceira da boemia na belle époque, a sífilis ainda assusta

Doença milenar curável com poucas doses de penicilina, tinha tudo para ser eliminada da face da Terra. Sua incidência, entretanto, cresce no Brasil e no resto do mundo.

É causada pelo Treponema pallidum, bactéria que sobrevive por pouco tempo fora do corpo, limitação que restringe a transmissão ao contato direto com a lesão infectada. Pode ser adquirida por contato sexual, transfusão de sangue infectado ou via transplacentária.

A evolução é dividida em quatro estágios: primária, secundária, latente e terciária. Na infecção primária, a bactéria penetra a mucosa e cai na corrente linfática e sanguínea em poucas horas. O período de incubação – que vai do contato ao aparecimento da lesão genital ulcerada, de bordos salientes, indolor – é de três a seis semanas, em média, mas pode variar entre dez e 90 dias.

A resposta imunológica é capaz de cicatrizar espontaneamente ou mesmo impedir o aparecimento da ferida genital, mas em ambos os casos é insuficiente para eliminar o treponema do organismo. Em quatro a dez semanas contadas a partir da lesão primária estará instalada a sífilis secundária, estágio em que a bactéria se multiplica e se dissemina por todos os órgãos.

As manifestações da fase secundária são variáveis: febre, dores musculares, ínguas e manchas avermelhadas que não poupam a palma das mãos, a planta dos pés ou as mucosas da orofaringe. Embora essas lesões contenham o treponema, as da boca são as mais contagiosas.

Pode ocorrer queda de cabelo, sobrancelhas e barba, em áreas circunscritas.

Na fase secundária, a produção de anticorpos atinge o pico. Sem tratamento, os sinais e sintomas regridem e a doença entra no estágio de latência que pode durar anos.

Perto de um terço dos casos em latência evolui para a quarta fase, a terciária, enquanto os demais permanecem assintomáticos.

A sífilis terciária caracteriza-se pelo acometimento do sistema cardiovascular (em 80% a 85% dos pacientes) e do sistema nervoso central (em 5% a 10%). Esses quadros são caracterizados por processos inflamatórios que evoluem no decorrer de meses ou até de anos.

Complicações cardiovasculares acontecem pelo menos dez anos depois da lesão primária. As mais frequentes são os aneurismas da aorta e as lesões de válvulas cardíacas.

As manifestações da neurossífilis são múltiplas. As mais precoces podem surgir seis meses depois da infecção sob a forma de meningites, como resultado da inflamação provocada pelo treponema nos vasos sanguíneos que irrigam as meninges. 

As mais tardias envolvem a intimidade do sistema nervoso central, causando alterações da marcha, paresias, perdas de sensibilidade e o quadro conhecido pelos médicos antigos como “paresia geral dos insanos”, que evolui com perda de memória, alterações de personalidade e da fala, irritabilidade e sintomas psicóticos.

Como consequência da disseminação da doença, os casos congênitos aumentam ano a ano, no Brasil. Em 2008 nasceram 5.728 bebês infectados; em 2013 foram 13.705. Para 2016, o Ministério da Saúde espera mais de 16 mil.

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